Mundo ficciónIniciar sesiónPOV: Damon
Valentina riu da minha provocação e voltou para o homem errado como se não tivesse acabado de deixar o próprio pulso queimando sob meus dedos. Eu permaneci ao lado da varanda, segurando a taça com força suficiente para sentir o cristal pressionar minha palma. Ela caminhou até Henrique. Ele pousou a mão em sua cintura sem olhar para ela. Valentina sorriu mesmo assim. Aquele sorriso educado, perfeito, ensaiado para fotógrafos, investidores e famílias que transformavam casamentos em fusões empresariais. Eu conhecia todos os sorrisos dela. O que surgia quando estava irritada. O que escondia insegurança. O verdadeiro, mais raro, que começava nos olhos e fazia uma pequena covinha aparecer em sua bochecha esquerda. O que oferecia a Henrique não era nenhum deles. Era apenas uma obrigação bonita. “Vai quebrar a taça ou pretende beber?” Nicolas apareceu ao meu lado e tomou o copo da minha mão antes que eu respondesse. Meu melhor amigo lançou um olhar para o salão e encontrou Valentina em menos de um segundo. Era irritante ser conhecido tão bem. “Não sei do que está falando.” “Claro que não.” Ele bebeu meu champanhe. “Você só está encarando a noiva do seu melhor amigo com a expressão de um homem calculando quantos anos de prisão pegaria por homicídio.” “Henrique não é meu melhor amigo.” “Diga isso a ele. O sujeito apresenta você assim para todo mundo.” “Henrique apresenta até o motorista como amigo quando precisa de um favor.” Nicolas soltou uma risada curta. No centro do salão, Henrique havia encerrado o discurso e agora recebia cumprimentos. Valentina permanecia ao lado dele, invisível mesmo usando vermelho. Eu odiava aquilo. O vestido também não ajudava. A seda acompanhava suas curvas com uma precisão indecente, deixando os ombros à mostra e expondo o suficiente de suas costas para alimentar pensamentos que eu deveria ter enterrado três anos antes. Não enterrei. Apenas os transformei em cantadas. Era mais fácil dizer que poderia fazê-la perder o controle do que admitir que imaginava como seria vê-la acordar ao meu lado. Mais simples prometer uma noite inesquecível do que confessar que queria todas as manhãs seguintes. “Você precisa parar”, Nicolas murmurou. “De quê?” “De fingir que isso é divertido.” Desviei o olhar. “É divertido provocá-la.” “É por isso que você se lembra da roupa que ela usou no primeiro jantar?” Meu maxilar se contraiu. Nicolas sorriu sem humor. “Vestido verde. Brincos pequenos. Cabelo solto. Você passou a noite inteira irritado porque Henrique não percebeu que ela havia mudado o corte.” “Você fala demais.” “E você fala de menos quando importa.” Eu não respondi. Três anos antes, Valentina entrara naquele mesmo hotel atrasada para um jantar de negócios. Estava com uma pasta de documentos apertada contra o peito e uma expressão de quem pisaria em qualquer homem que tentasse interrompê-la. Henrique a apresentara como sua namorada. Depois, passara vinte minutos falando sobre o sobrenome Alencar. Eu havia perguntado a ela o que fazia. Valentina me encarara, surpresa. Ninguém naquela mesa havia perguntado. Ela explicou o projeto de expansão que desenvolvia para a empresa da família. Falou com as mãos, com os olhos, com uma inteligência que transformou o resto do salão em ruído. Naquela noite, eu disse que ela era perigosa. Ela respondeu que eu usava a mesma frase com todas. Desde então, deixei que acreditasse nisso. Era mais seguro ser o mulherengo. Homens como eu podiam desejar sem precisar explicar por quê. Podiam esconder devoção atrás de arrogância. Podiam observar uma mulher escolher outro e fingir que a dor era apenas orgulho ferido. “Você vai se casar com Serena”, Nicolas lembrou. “Estou ciente.” “Então tente olhar para sua própria noiva por mais de dez segundos.” Olhei. Serena estava junto aos investidores, sorrindo para algo que Henrique dizia. Os dois pareciam próximos, mas aquilo não significava nada. Serena sabia transformar atenção em moeda. Henrique gostava de acreditar que qualquer mulher bonita estava impressionada com ele. Talvez por isso combinassem tão bem. Meu olhar voltou para Valentina. Ela estava sozinha agora. Henrique e Serena se afastavam em direção ao corredor lateral, provavelmente para atender algum investidor. Valentina pegou outra taça de uma bandeja, mas não bebeu. Apenas girou o cristal entre os dedos. Ela fazia aquilo quando estava decepcionada. “Você sabe até quando ela está mentindo”, Nicolas disse. “Pare de analisá-la.” “Não estou analisando Valentina. Estou analisando você.” “Péssima ideia.” “Concordo. É uma paisagem desoladora.” Soltei o ar pelo nariz. Valentina ergueu os olhos. Encontrou os meus do outro lado do salão. Não sorriu dessa vez. Ficou imóvel, como se ainda sentisse meus dedos em seu pulso. Eu também sentia. O calor de sua pele permanecia na minha mão, irritante e vivo. Levei dois dedos aos lábios e fiz um gesto discreto, como se enviasse um beijo. Ela revirou os olhos. Mas corou. Nicolas percebeu. “Você é um idiota.” “Ela gosta.” “Ela vai se casar.” “Eu sei.” As palavras saíram mais duras do que pretendia. Nicolas ficou em silêncio por alguns segundos. “Então por que continua?” Porque, quando eu parava de provocá-la, Valentina me tratava como tratava todos os outros homens naquele mundo. Com educação. Com distância. Com indiferença. Eu preferia sua irritação. Preferia ser o motivo de seu rosto aquecer, de sua voz mudar, de seus olhos descerem por um instante até minha boca antes de voltar a me acusar de arrogância. Qualquer reação era melhor do que não existir para ela. “Porque ela fica linda quando quer me matar”, respondi. Nicolas me lançou um olhar de quem não acreditava em uma única palavra. Antes que pudesse dizer mais, senti uma mão deslizar pelo meu braço. Serena. Ela surgiu ao meu lado com o sorriso perfeito para as câmeras, mas os dedos apertaram meu bíceps com firmeza. “Estava procurando você.” “Agora encontrou.” “Percebi.” Seu olhar seguiu o meu. Valentina ainda estava do outro lado do salão. Quando voltou a me encarar, Serena já não sorria. “Você passou a noite inteira olhando para ela.” “Nicolas passou a noite inteira olhando para o bar. Ninguém parece preocupado.” “Não mude de assunto.” Ela se colocou diante de mim, bloqueando minha visão de Valentina. “Você sempre faz isso.” “Isso o quê?” “Transforma tudo em brincadeira para não responder.” A música aumentou. Casais começaram a ocupar a pista, mas o rosto de Serena permaneceu nítido diante de mim. Bonito. Frio. Atento. Ela inclinou a cabeça, estudando-me como se finalmente tivesse encontrado a pergunta certa. “Damon, você está apaixonado por Valentina?”






