A Esposa que Ele Deixou para Trás
A Esposa que Ele Deixou para Trás
Por: Temisan writes
A prima

“Você devia ir embora. Ele não te quer aqui.”

Cloe já tinha ouvido muitas coisas em seus trinta e dois anos. Já tinha ouvido um médico dizer o nome do filho dela numa voz que fez seu estômago afundar. Já tinha ouvido o celular de Marshall tocar às duas da manhã e o visto levá-lo para o banheiro. Já tinha ouvido toda versão possível de vai ficar tudo bem.

Mas nunca tinha ouvido aquilo dito na sua cara, limpo e indiferente, por uma mulher que nunca tinha visto antes daquele dia.

Ela manteve os olhos em Marshall.

Ele estava de pé a três metros de distância, do lado de fora do restaurante, a mão apoiada na base das costas de outra mulher, e não estava olhando para Cloe do jeito que um homem olha para alguém a quem fez mal. Estava olhando para ela do jeito que um homem olha para um problema que apareceu no lugar errado, na hora errada.

“Marshall.” A voz dela saiu mais firme do que ela se sentia. “Nove anos. Você me deve mais do que isso.”

Ele atravessou a calçada em direção a ela. A mandíbula travada, os passos medidos. Parou perto o suficiente para que ela sentisse o cheiro do perfume que tinha comprado para ele de aniversário três anos atrás. Ela quase deu um passo para trás. Não deu.

“Fala baixo,” ele disse baixinho.

“Não estou levantando a voz.”

“Cloe.” Ele olhou de volta para a mulher que os observava. Depois para ela. “Não era assim que eu planejava te contar. Mas já que você está aqui.” Uma pausa. Controlada. Deliberada. “Aquela é a Sandra. Estamos juntos há três anos. Nos casamos no exterior há seis meses.”

O barulho da cidade continuava ao redor dela. A música de alguém. Uma buzina. O mundo inteiramente indiferente.

Casados.

Ela tinha passado nove anos sozinha num apartamento, esticando cada centavo, sentada em salas de espera de hospital com a mão de Dave na sua, dormindo do seu lado da cama porque não conseguia se obrigar a ocupar o dele. Tinha contado ao filho dos dois que o pai estava trabalhando duro no exterior para que pudessem ter uma vida melhor. Ela mesma tinha acreditado nisso, ou tinha escolhido acreditar, o que ela entendia agora ser a mesma coisa que ser tola.

“Você tem um filho,” ela disse. “Isso entrou na conta em algum momento?”

“Eu resolvo o Dave.”

“O nome dele não é um item de planilha, Marshall.”

Algo cruzou o rosto dele. Não culpa. Irritação. Ele não estava arrependido. Estava incomodado.

“Vai para casa, Cloe.”

Ele se virou e voltou para Sandra. Ela o observou chegar até ela, observou toda a postura dele mudar e amolecer, se tornar o homem que tinha passado nove anos esperando que ele fosse para ela. Sandra disse algo baixinho. Marshall tocou o rosto dela.

“Era minha prima,” ele disse, alto o suficiente para ser ouvido. “Coisa velha de família. Não é nada.”

Sandra riu e deixou que ele a guiasse para dentro.

Cloe ficou parada na calçada e respirou.

Prima. Nove anos da vida dela, e ela era a prima dele.

Virou-se antes que as lágrimas pudessem decidir alguma coisa e caminhou depressa, sem direção, só para longe, até dobrar uma esquina, parar e pressionar as duas mãos contra a parede.

Ela não ia desmoronar em público. Tinha feito essa regra havia muito tempo. Nunca a tinha quebrado.

Ela se afastou da parede e continuou andando.

Ela não o viu até esbarrar direto nele.

A colisão derrubou a bolsa do ombro dela. O celular bateu na calçada. Ela cambaleou, e uma mão segurou seu braço antes que ela caísse.

“Cuidado.”

Ela ergueu os olhos. O homem que segurava seu braço era alto, de terno escuro, observando-a com uma expressão que ela não conseguia decifrar. Não irritado. Não fingindo preocupação. Apenas presente, de um jeito que parecia estranho naquele momento.

Ele se abaixou e pegou o celular dela. A tela estava rachada de ponta a ponta no canto.

“Desculpa,” disse Cloe, automaticamente.

“Você está se desculpando por ter esbarrado em mim.” Quase uma pergunta.

“Você estava no caminho.”

Algo mudou no rosto dele. Quase diversão. Ele estendeu o celular e ela o pegou. As mãos dela ainda estavam trêmulas. Ela odiou que ele pudesse ver isso.

“Você está bem?” ele perguntou.

A pergunta era tão simples e tão direta que algo no peito dela se apertou. Ninguém tinha perguntado isso a ela naquele dia. Ninguém tinha perguntado isso havia mais tempo do que ela conseguia lembrar.

“Sim,” ela disse. “Obrigada.”

Ela se afastou. Não olhou para trás.

Estava a três quarteirões de distância quando percebeu que tinha deixado a pasta de documentos na calçada. O currículo dela. As referências. Cada motivo cuidadosamente impresso pelo qual valia a pena contratá-la.

Ela parou.

“Você deixou isso cair.”

Ela se virou. Ele estava ali, a pasta na mão, ligeiramente ofegante. Um homem que claramente não costumava correr atrás de estranhas e tinha feito isso mesmo assim.

Ela o encarou.

Ele olhou para a pasta, depois para o rosto dela, e a expressão dele mudou. Cuidadosa agora. Ponderando.

“Você está se candidatando ao Grupo Harlow,” ele disse.

O estômago dela afundou. “Isso é um problema?”

Um instante de silêncio. Depois ele estendeu a pasta.

“Eu sou Mac Harlow,” ele disse. “Venha amanhã. Oito horas. Não se atrase.”

Ele se afastou antes que ela pudesse dizer uma única palavra.

Cloe ficou parada na calçada segurando o celular rachado, a pasta e os escombros do pior dia da sua vida.

O celular vibrou. Um número que ela não reconheceu. Atendeu.

“Senhorita Vane.” Uma voz de mulher, cortante e profissional. “Aqui é Sandra Harlow. Acredito que você conheceu meu marido hoje. Estou ligando para garantir que nos entendemos.”

Cloe ficou completamente parada.

“O homem com quem você acabou de falar,” Sandra continuou, suave e sem pressa, “é meu irmão. E acho melhor para todos que você fique bem longe da minha família.”

A linha caiu.

Cloe olhou para o celular na mão. Depois para a rua por onde Mac Harlow tinha acabado de ir embora.

Irmão de Sandra.

O homem que tinha acabado de oferecer a ela um emprego era o irmão da mulher com quem o marido dela tinha se casado em segredo.

Ela ficou ali enquanto aquilo se montava na sua mente, peça por peça, em algo para o qual ainda não tinha nome.

Então guardou o celular na bolsa, endireitou a coluna e começou a andar.

Ela tinha uma entrevista às oito horas da manhã seguinte.

Ela ia estar lá.

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