A Esposa Que Nunca Existiu… E Voltou Como Herdeira
A Esposa Que Nunca Existiu… E Voltou Como Herdeira
Por: I aguiar
Capítulo 1 — A esposa que nunca existiu

O casamento de Ísis nunca existiu.

E ela descobriu isso em um cartório.

Não houve gritos.

Não houve escândalo.

Não houve aviso.

Apenas um detalhe pequeno, silencioso… e irreversível.

— Senhora Cardoso?

A funcionária a observava por cima dos óculos, com um sorriso educado demais para o tipo de verdade que estava prestes a destruir uma vida.

Ísis assentiu, mantendo a postura firme.

— Preciso da segunda via da minha certidão de casamento.

Era simples.

Rotina.

Um procedimento comum.

Ou deveria ser.

A mulher começou a digitar no computador. O som das teclas ecoava alto demais dentro daquele silêncio abafado.

Ísis aguardou calmamente, sem qualquer motivo para desconfiar.

Até perceber a expressão da atendente mudar.

Ela franziu a testa.

Parou de digitar.

Olhou novamente para a tela.

E, naquele instante, algo dentro de Ísis se contraiu.

— Só um momento, senhora.

A funcionária chamou outra atendente. As duas cochicharam baixo enquanto encaravam o monitor.

Errado.

Alguma coisa estava errada.

— Tem algum problema? — Ísis perguntou, tentando manter a voz firme.

As duas trocaram um olhar rápido antes da resposta.

— Senhora… a senhora tem certeza dos dados?

O desconforto veio primeiro.

Depois, a dúvida.

— Claro que tenho. É o meu casamento.

A hesitação da mulher foi pior que qualquer confirmação.

— Não consta nenhum registro com esse nome.

Por um segundo, o mundo pareceu perder o som.

— Como assim?

— Não existe certidão de casamento registrada em seu nome.

Ísis soltou uma risada fraca, automática.

Nervosa.

Errada.

— Isso não faz sentido. Eu sou casada há três anos.

Mas, no instante em que disse aquilo… algo dentro dela vacilou.

Porque algumas peças já não se encaixavam fazia tempo.

As ausências.

Os silêncios.

As evasivas de Enzo sempre que ela mencionava documentos.

— Senhora… existe a possibilidade de esse documento não ser válido.

Não foi confusão.

Foi queda.

— Não ser válido?

— Pode ter sido um registro não oficial.

O silêncio ficou pesado.

Definitivo.

As mãos de Ísis já não estavam totalmente firmes quando ela abriu a bolsa e retirou a certidão.

Nome.

Data.

Assinaturas.

Carimbo.

Tudo parecia perfeito.

E ainda assim…

inexistente.

— Isso não é possível…

Mas já era.

O celular vibrou em sua mão.

Enzo.

Ísis atendeu imediatamente.

— Onde você está?

A voz dele veio calma.

Controlada.

Fria como sempre.

E aquilo foi o que mais a assustou.

— No cartório.

Silêncio.

Curto.

Pesado.

— Por quê?

— Vim pegar a segunda via da certidão.

Uma pausa atravessou a ligação.

— E?

Ísis respirou fundo antes de responder:

— Não existe.

Dessa vez, o silêncio do outro lado foi diferente.

Não era surpresa.

Era confirmação.

— O quê? — ele perguntou, mas tarde demais.

— Nosso casamento não existe, Enzo.

Nada.

Nenhuma reação imediata.

Nenhuma indignação.

E então ela soube.

— Você sabia?

A voz saiu baixa.

Controlada.

Perigosa.

— Ísis, isso não é algo que você deveria—

— Você sabia?

A pausa veio antes da resposta.

E ela destruiu tudo.

— Sabia.

Dessa vez, doeu de verdade.

Não como um golpe.

Mas como algo sendo arrancado lentamente de dentro dela.

— Desde quando?

— Desde sempre.

O ar pareceu desaparecer ao redor.

— Então eu nunca fui sua esposa?

— Não.

Simples.

Frio.

Cruel.

Ísis fechou os olhos por um segundo, tentando impedir o próprio colapso.

— O que eu era então?

Do outro lado, a resposta veio sem hesitação:

— Conveniente.

A palavra não foi dita apenas como resposta.

Foi usada como faca.

Ísis soltou uma respiração trêmula.

Quase um riso.

Quase um abismo.

— Você era o suficiente enquanto servia — ele completou.

E então tudo fez sentido.

Cada ausência.

Cada distância.

Cada silêncio dentro daquele casamento vazio.

— Agora isso acabou — Enzo disse friamente.

Como se ela fosse descartável.

Como se nunca tivesse importado.

Ísis apertou o celular com força.

Mas, quando voltou a falar, sua voz saiu perigosamente estável.

— Não.

Silêncio.

— Não acabou agora… porque nunca existiu.

Ela desligou antes que ele respondesse.

O telefone abaixou lentamente em sua mão.

E, pela primeira vez em três anos…

Ísis enxergou a verdade.

Nunca foi esposa.

Nunca foi prioridade.

Nunca foi escolha.

Foi apenas uma solução conveniente.

E soluções…

são descartadas quando deixam de servir.

Mas, naquele instante, algo dentro dela não se quebrou.

Algo despertou.

Porque enquanto sua vida desmoronava…

uma verdade muito maior começava a surgir.

E dessa vez…

Ísis não seria ignorada.

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