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VALENTINA
O dia inteiro pareceu ter conspirado contra mim. Começou com o despertador que não tocou e por conta disso cheguei atrasada no trabalho e recebi uma advertência na frente de todos. Na hora de ir para a faculdade ja era muito tarde, corri tanto que quase fui atropelada. Cheguei ofegante, suada, pronta para encarar mais três horas de aula — e que aconteceu? A turma foi dispensada. O professor teve um acidente. Ninguém avisou no grupo. Preferiram esperar a gente chegar para “pedir desculpas”. Um verdadeiro dia de merda. A única coisa boa me esperando era o cinema que eu havia combinado com o Theo, meu namorado. Só de pensar nisso, meu peito ficava mais leve. Hoje completávamos três meses juntos. Ele era carinhoso, paciente, me tratava como se eu fosse especial. E hoje eu precisava daquele filme, daquele abraço, daquele sorriso dele para compensar toda essa merda de dia. Ana minha amiga apareceu ao meu lado no corredor da faculdade, com a mochila pendurada em um ombro só. — Podiam ter avisado pelo grupo, né? — Podiam — respondi, já andando em direção à saída. — Mas não avisaram. Preferem nos ver perder tempo e dinheiro. — Você vai voltar pra casa agora? — Não tenho dúvidas. Tô cansada pra caralho. Mas pelo menos vou encontrar o Theo mais tarde. Isso é a única coisa boa desse dia. Ana hesitou. — A Isabela não apareceu hoje, sabia? Tinha aula de Administração mais cedo, mas ela não veio. Parei no meio do saguão. Algo apertou meu peito. — Ela não me disse nada. — Estranho. Ela quase nunca falta. — É verdade… bem estranho mesmo, mas vou saber o que aconteceu quando chegar. Despedi-me dela e peguei o ônibus. Durante todo o trajeto, me agarrei à imagem do Theo: o rosto dele, o jeito que ele me olhava, o cinema escuro, a mão dele na minha. Era aquilo que me segurava. Eram 14h30 de uma terça-feira nublada em São Paulo. Desci no ponto de sempre. O prédio estava quieto demais. Subi as escadas devagar, o coração um pouco mais leve só de pensar que, em algumas horas, eu estaria com ele. Quando cheguei à porta, notei que estava entreaberta. Empurrei devagar. O apartamento estava completamente escuro. Mas um clarão vindo do meu quarto me chamou atenção. Quanto me aproximei. Meu corpo inteiro gelou ao ouvir os sons que vinha de dentro. Eram gemidos baixos, ofegantes e intensos. — Mais forte… — a voz de Isabela. Rouca. Entregue. — Você gosta assim, gostosa? — a voz grave de Theo. Ofegante. Acelerada. As chaves escorregaram da minha mão e caíram no chão com um tilintar metálico. Eles estavam tão ocupados que nem sequer ouviram. Caminhei até o quarto como se o chão fosse ceder a qualquer momento. Empurrei a porta. A imagem me acertou como um soco no estômago. Isabela montada em Theo. Nua. Cabelos loiros grudados na pele suada, olhos fechados, boca entreaberta. Theo debaixo dela, com as mãos apertando a cintura dela com força, o rosto contorcido de prazer. Na minha cama. Nos meus lençóis. Algo dentro de mim se partiu. — O que é isso? Minha voz saiu baixa, rouca, quase irreconhecível. Eles viraram o rosto ao mesmo tempo. O choque estampado nos olhos. Theo empurrou Isabela para o lado e se levantou depressa, nu. — Valentina… Não respondi. Meu olhar ia dele para ela, dela para ele. A humilhação subiu quente, sufocante. Três meses juntos. Três meses de carinho, de mãos dadas, de promessas. E nunca tínhamos chegado a isso. Isabela puxou o lençol para se cobrir. Não olhava para mim. O cheiro de sexo no quarto era forte, enjoativo. O ar parecia denso, parado. — Na minha cama… — murmurei, mais para mim mesma. Theo deu um passo à frente, estendendo a mão. — Não é o que você está pensando… — Cala a boca. Minha voz saiu firme, apesar do tremor nas mãos. Isabela continuava em silêncio, o rosto vermelho, sem coragem de dizer uma palavra. — Eu confiei em você — falei para ela, sentindo a garganta apertar. — Eu te contava tudo sobre nós dois. Ela não respondeu. Apenas segurou o lençol com mais força. O silêncio que veio em seguida foi pior que qualquer grito. Senti uma náusea subir, o peito pesado, um vazio se abrindo onde antes havia confiança. — Acabou — disse, olhando para os dois. — Vou embora. E não quero ver nenhum de vocês nunca mais. — Valentina, espera… — Theo tentou, mas eu fui mais rápida em adverti. — Não chega perto de mim. Ele parou. Peguei minha bolsa caída perto da porta, enfiei algumas roupas que estavam na cadeira e saí do quarto sem olhar para trás. Bati a porta do apartamento com força. O som ecoou pelo corredor. Vários vizinhos estavam nas portas, observando. Não disse nada. Desci pela escada de emergência, degrau por degrau, as lágrimas vindo quentes e silenciosas. Quando cheguei na rua, o ar frio bateu no rosto. O céu estava escuro, carregado de chuva. Não tinha para onde ir. Nenhum parente próximo. Nenhum amigo de verdade — só Ana, e eu não queria que ela me visse assim. São Paulo, que um dia pareceu cheia de promessas, agora era só concreto frio e vazio. E eu estava completamente sozinha.






