MelindaAs luzes brancas do quarto do hospital me deixam tonta de tão fortes, como se não houvesse espaço para sombras ali. Mas eu sei que elas existem, que estão dentro de mim, dentro do que fiz, do que escondo.O bip constante da máquina ao lado da cama do vovô é quase um consolo, porque significa que ele ainda está aqui, resistindo. E, por mais que eu queira acreditar que ele não sofre, sei que não é verdade. A médica foi clara quando disse que o tratamento será mais agressivo, que as drogas vão ser fortes demais para o corpo frágil dele. E, mesmo assim, é a única chance que tenho de mantê-lo vivo, de mantê-lo perto de mim, de ter a sensação de que ainda tenho família.Eu o observo dormir, com a respiração tranquila e o rosto enrugado pela idade e pelo peso dos anos. Mas há uma paz ali, uma serenidade que me corta. Ele é tudo o que eu tenho. Tudo. Eu venderia minha alma, meu corpo, qualquer pedaço do que resta de mim para vê-lo continuar respirando. Para não o perder também.E
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