POV: Lena | 40 semanas A gente saiu de casa às cinco da manhã. São Paulo ainda tava escura pela janela do carro. Não aquele escuro bonito de madrugada tranquila. Escuro de cidade indiferente. De avenida vazia, semáforo piscando amarelo, poste aceso no meio da rua como se ninguém tivesse combinado nada com ninguém. O carro de Vincent deslizou pra fora da garagem sem pressa. Lá atrás, a mala. No banco do passageiro, eu. Com a mão na barriga e a outra apertando a lateral da porta, como se isso fosse me dar alguma estabilidade emocional. Não dava. Mas eu tava sem nenhuma vontade de discutir com a lógica. A casa ficou pra trás rápido demais. Ou talvez eu que estivesse indo devagar demais por dentro. Vincent dirigia com aquela calma que irritava e acalmava ao mesmo tempo. Mão no volante. Queixo reto. Olho na pista. O homem parecia ter nascido pronto pra rota de hospital, planilha mental, trânsito vazio e qualquer catástrofe doméstica embalada em madrugada. Eu olhei pela janela. A
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