Hadassah Se alguém olhasse minha vida de fora naquele período, talvez dissesse que “não tava acontecendo nada”. E, pela primeira vez, isso era um elogio. Tinha trabalho. Tinha boleto. Tinha trânsito e fila de mercado. Mas, por baixo de tudo, tinha algo que eu nunca tinha sentido desse jeito: estabilidade.Minha semana tinha virado um calendário meio previsível, no melhor sentido possível. De segunda a sexta, joalheria. Acordar cedo, ônibus lotado, uniforme passado na noite anterior. Atender cliente, organizar vitrine, lidar com gente educada e grossa na mesma intensidade. Só que agora, no meio disso tudo, tinha mensagens rápidas no meu celular:— “Já almoçou?”— “Não esquece de beber água.”— “Hoje é dia de ninho, né?”Entre um atendimento e outro, eu olhava a tela e sorria sozinha.À noite, três possibilidades se revezavam. Casa da minha mãe, com arroz, feijão, novela e comentário da vizinhança. Casa da família do Andryel, com Samuel cochilando na poltrona e Anny me chamando pra pr
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