Meses depoisA casa não parecia mais a mesma.Não porque os móveis mudaram.Mas porque o silêncio mudou.Agora havia risadas ecoando pelos corredores, passos pequenos correndo pelo piso de madeira e desenhos espalhados por lugares improváveis.Havia vida.Aurora dormia profundamente naquela noite. O abajur suave iluminava o quarto dela, e eu fiquei alguns segundos observando o rosto tranquilo antes de fechar a porta devagar.— Ela apagou em segundos — murmurei ao entrar no quarto.Henrico estava encostado na cabeceira, as mangas da camisa dobradas, o olhar acompanhando cada movimento meu como se ainda não se acostumasse a me ver ali.— Hoje foi um dia cheio — disse.— Ela insistiu em fazer o bolo sozinha.Ele sorriu.— E você deixou.— Eu estava supervisionando.— Você estava roubando pedaços da massa.Eu ri.— Não há provas.Ele estendeu a mão.Eu caminhei até a cama e me sentei ao lado dele.Mas não houve pressa.Nunca mais houve pressa entre nós.Henrico passou os dedos pelo meu ca
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