Gabriel Ventura A aurora em São Paulo tem um tom acinzentado, uma névoa que sobe do asfalto úmido e se mistura ao cheiro de pão na chapa das padarias que começam a abrir. Mas, dentro do meu sobrado na Vila, o ar ainda retinha o perfume de sândalo de Sara e o calor da noite que tínhamos acabado de dividir. Quando a vi terminar de se vestir, usando aquela camisa de seda que custava mais do que o meu carro, senti uma pontada de realidade. Ela não pertencia àquele quarto de taco de madeira e cortinas de algodão. Mas, por algumas horas, ela tinha sido inteiramente minha.— Eu te levo de carro — eu disse, a voz ainda rouca, pegando as chaves e minha jaqueta.— Gabriel, não precisa. Eu chamo um motorista da Holding, digo que estava em uma reunião externa cedo... — ela começou, mas eu a interrompi com um beijo casto na testa.— Eu nunca deixaria você sair daqui sozinha às cinco e meia da manhã, Sara. Nem como seu assessor, nem como o homem que te ama.Saímos em silêncio pelo corredor estreit
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