30.1. Uma Rara Flor
*Ponto de Vista de Nicole* A manhã seguinte ao beijo foi um exercício de equilibrismo sobre uma corda bamba que eu mesma estiquei. Acordei com o gosto da dúvida na boca e uma consciência aguçada de cada movimento do meu próprio corpo. Eu, Nicole, a mulher que comanda reuniões sem tremer a voz, estava escondida atrás de planilhas porque não sabia como encarar Ester. Evitá-la não era um ato de covardia, mas de preservação. Eu conhecia aquele roteiro: o magnetismo, a negação, o choque de realidades. Quando meus olhos quase cruzavam com os dela no corredor, eu desviava para o relógio, para o celular, para qualquer ponto vazio no espaço. Eu sentia o calor do sorriso dela — aquele sorriso que parecia me buscar — e, pela primeira vez em anos, eu agi como uma amadora. Eu, que já tinha atravessado continentes por amor, estava acuada em um escritório refrigerado. Quando ouvi as batidas na porta, meu estômago deu um solavanco. Eu sabia que era ela antes mesmo de dizer "entre". Ester ent
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