Num piscar de olhos puxou-a para um lugar mais afastado dos outros, ela rugiu reagindo de forma tardia.
Ian passou a mão pela cabeça, deixando escapar um suspiro longo. Não podia ir embora sem conseguir que ela cedesse. Estava encurralado e não via outra brilhante saída além dessa.
— O conselho de administração reúne-se amanhã às oito da manhã para me destituir —começou Ian, o seu tom de voz agora era baixo, quase conversacional, o que o tornava ainda mais intimidante—. Usarão as minhas visitas médicas secretas como prova de que sou instável. Preciso que essas visitas tenham outro motivo.
Annie, ainda com a respiração agitada por toda aquela confusão, cruzou os braços, à defesa. Não ia permitir que esse homem se saísse com a sua.
— Senhor Winchester, acho que não entende. Não tenho nada a ver com os seus problemas. Pode ir e pedi-lo a outra pessoa. Não conte comigo e assuma a realidade.
— Por que outra pessoa se estás tu? —Ian deu um passo lento em direção a ela, a mulher tremeu, estava realmente nervosa até à medula—. Preciso de alguém cuja mãe esteja na ala de oncologia, és perfeita para isto.
O estômago de Annie deu uma reviravolta violenta. Recuou até chocar com o encosto de uma cadeira de plástico.
— Não. Nem pense nisso. Não vou usar a doença da minha mãe para os seus jogos de relações públicas. O senhor é um ser desprezível —rosnou prestes a ir-se embora.
Ian não se abalou perante o insulto. Meteu a mão no bolso interior do seu casaco, tirou o seu telefone e mostrou-lho. No ecrã apareceu o dossiê médico da mãe de Annie, aquilo deixou-a gelada, significava que esse homem sabia muito sobre ela.
— Que classe de pessoa é? Por que sabe disto? Tem estado a vigiar-me...
— Com um estalar de dedos obtenho o que quero, Annie —pronunciou o nome dela de uma forma que arrepiou as suas costas.
— Mas não obterá nada de mim.
Ele bufou perante a teimosia dela.
— Não te peço que o faças por mim, Annie. Peço-te que olhes para isto com a cabeça fria —soltou ele, perigosamente persuasivo—. O cancro da tua mãe está a avançar. O tratamento que recebe neste hospital é padrão, deficiente. Estás afogada em dívidas e o teu salário de assistente na Fitzwilliam mal cobre os analgésicos. Em três meses, ficarão sem opções.
As palavras de Ian foram um lembrete da cruel realidade. Annie afastou o olhar, sentindo que as lágrimas lhe queimavam a garganta. Queria gritar-lhe, queria dar-lhe uma bofetada, mas tudo o que ele dizia era a absoluta e aterrorizadora verdade.
— Vai mesmo ajudar a minha mãe? Vai fazê-lo?
— Sê a minha falsa noiva e cumprirei a minha promessa —continuou Ian, encurtando a distância até ficar a um passo dela—. Finge ser a minha noiva por um ano e em troca, esta mesma noite a tua mãe será transferida para a melhor clínica. Até trarei os melhores especialistas da Europa se for necessário. Pagarei tudo, incluindo as dívidas que o teu pai vos deixou. Não é um bom negócio?
Ela voltou a surpreender-se, ele sabia tudo. Aquilo era escaldante, mas a proposta dele apagava qualquer surpresa sobre o que aquele sujeito sabia sobre ela.
Annie fechou os olhos e várias lágrimas saltaram à vista. Era um pacto com o diabo. Annie sentia a sua dignidade pelo chão, queria fugir, mas pensava na sua mãe prostrada, no dinheiro que se esfumava e a pressão para fazer algo mais por ela tomava a dianteira. Ian não pressionou, ficou ali a fazer o que melhor sabia, observar e dar-se conta de que a balança estava prestes a inclinar-se.
— Não haverá... não haverá mais do que isto, só fingirei ser a sua noiva, nada mais do que isso —quase cuspiu—. De maneira nenhuma levarei esta farsa ao nível seguinte.
Um canto dos lábios de Ian elevou-se num sinal de vitória.
— Tens a minha palavra. Tudo será estritamente um negócio.
Annie engoliu em seco e assentiu lentamente.
— Então... temos um acordo, senhor Winchester.
Ian assentiu. Virou-se para ir embora, mas justo quando Annie deu um passo em direção ao corredor, um flash iluminou-os.
A vários metros de distância, perto dos elevadores de serviço, um homem com uma câmara profissional pendurada no pescoço tinha-se esgueirado burlando a segurança. Um paparazzi dos tabloides que tinha estado à caça do CEO.
O instinto de Ian foi mais rápido do que o de Annie. Sabendo que essa foto ia estar na internet em menos de cinco minutos, decidiu que ele controlaria a situação.
— Fecha os olhos e segue-me a corrente —murmurou Ian rapidamente.
Antes que Annie pudesse reagir, Ian pegou-a pela cintura, puxou-a e encurralou-a com uma lentidão que queimava, contra a parede do corredor. Com uma mão, acariciou a sua bochecha, ocultando grande parte do rosto de Annie da lente do fotógrafo, mas deixando à vista o essencial: a figura da mulher que o inatingível CEO sustentava entre os seus braços.
Esse parecia ser um bom título.
Ela engoliu em seco.
Ian inclinou a cabeça. Annie conteve a respiração, paralisada. Ele não a beijou apaixonadamente; foi um roçar profundo e surpreendentemente quente. Os lábios de Ian pressionaram os dela o suficiente para dar uma foto ao idiota que o seguiu, um beijo que a ela lhe enviou uma descarga elétrica direta à espinha dorsal.
O fotógrafo tirou mais três fotos antes que os homens de segurança de Ian aparecessem a correr pelas escadas, perseguindo-o.
Ian separou-se lentamente de Annie. Ela tinha os olhos muito abertos e a respiração entrecortada. Ele olhou-a nos olhos, outra vez voltava a ter aquela cara séria, hermética e olhos frios, embora a sua voz tenha soado um pouco mais rouca do que o normal.
— A mentira acaba de começar, Annie —assinalou fazendo com que o corpo dela se tensionasse, algo mais, como um manto de sensações estranhas se apropriaram do seu ser.