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Autora: Edivania Rios Romance de Época – Anos 1950 Protagonistas: Leonardo e Linda Todos os direitos autorais reservados à autora citada acima. Qualquer uso parcial ou total sem autorização será considerado infração legal, nos termos da LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998. Eu estava tomando um copo de leite na cozinha; a empregada que costumo ter por perto também estava lá — é bom ter alguém com quem aliviar a tensão da mente. Pisquei para ela e fiz um sinal para que fosse ao meu quarto, acompanhando seus passos com o olhar. Fui tomar outro gole de leite quando ouvi um barulho vindo do lado de fora. Que será isso? Vou ver o que é, melhor do que ficar na curiosidade. Era o pai de Moanizia — a menina que esteve comigo, que se ofereceu tanto, mas que no fim deixou tudo pela metade. E minha madrasta estava ali, conversando com ele, dizendo que ele devia fazer justiça pela honra da filha, pois uma moça de família havia sido quase desonrada por um bastardo. Vou enfrentar o meu problema. Olhei para trás: a empregada fez um gesto de desdém com o dedo para mim. Continuei andando. Realmente estou num beco sem saída — até a moça com quem eu tinha algo me vira a cara. — É impressão minha, Dona Lia, ou a senhora está querendo acabar comigo? Está incentivando tudo isso contra mim? — Seu bastardo! Eu só quero justiça! Desonrar filhas alheias nunca foi coisa que se ensinasse nesta casa. Você é tão sem futuro que sabe muito bem que nenhuma família de classe quer você por perto — e agora tenta desonrar as filhas dos melhores, só para tentar entrar de qualquer jeito numa família importante. Tem inveja do seu irmão; sim, aquele ali sim é filho de casamento abençoado por Deus. Você nunca será ninguém. — Vim te matar, bastardo, por ter tocado na minha filha! Quem me contou não mente! — E quem foi que falou? — Isso não é da sua conta! — O homem estava furioso, carregando uma espingarda, e me deu um soco forte no rosto. Meu pai chegou na hora exata; vi no seu olhar que não gostou nem um pouco de me ver apanhar. — Que direito tem o senhor Castelano de bater no rosto do meu filho? — Ele tentou desonrar a minha filha! — Se for o caso, ele pode se casar com ela. As coisas se resolvem com conversa, não havia necessidade de bater no meu filho. Fiquei assustado — eu realmente tive más intenções com ela, mas não quero nem pensar em casamento. Uma garota com um pai educado até que... mas esse aí, que me bateu, é um brutamontes. — Minha filha jamais vai carregar uma cruz dessas! Um bastardo? Isso não serve para a minha imagem, e não estou disposto a me comprometer por causa dele. — O senhor não vai encontrar melhor partido por essas bandas. Seria muito melhor se fôssemos da mesma família. — Jamais! — Então saia daqui e nunca mais encoste no meu filho, ou eu vou acabar com a nossa sociedade. Posso falir o senhor por causa desse murro que deu no meu filho. Está acabada a nossa parceria, acabou! Não lhe darei nenhuma segunda chance. Meu pai foi duro como rocha — e quem não gostou nada foi a minha madrasta. Abracei-o forte, ele me abraçou de volta com carinho, depois entrou e foi para o escritório; o outro homem foi embora também. Fui até lá explicar o que realmente acontecera. — Pai, a moça que queria. Ela estava atrás de mim o tempo todo, só não chegamos ao fim porque alguém bateu na porta antes. — Meu filho, se alguém quiser ter moças, que amarre as suas éguas — pois os meus cavalos estão soltos. Mostre que você é homem, que é o meu orgulho. Odeio ter que explicar os meus deslizes para as pessoas. Não sei quem espalhou isso, mas as coisas não estão boas para o meu lado. Vivo sob um descontentamento constante, a minha alma reclama de toda essa dor que tantas vezes finjo não sentir. Tudo isso me causa um desgaste emocional muito grande. — Obrigado, pai, por me entender. — Você é o meu orgulho. Pelo que vi hoje, você corre grandes perigos ficando aqui na cidade. Acho bom eu providenciar uma viagem para você. Acenei com a cabeça e saí. Parecia menos ruim do que ter que recusar um casamento abertamente — o que me faria parecer cruel e traria uma dúzia de perguntas que eu não quero ter que responder. Ao sair do escritório, fiquei olhando para a casa onde cresci — lugar onde fui muito infeliz, mas também muito feliz. Apesar de imponente, não era excessivamente luxuosa, mas tinha todo o requinte dos móveis, cortinas e tapeçarias brasileiras mais modernas e belas da época. Penso em mudar para uma casa menor, para poder viver a vida que um rapaz da minha idade não pode viver aqui. Quero liberdade. E afinal, eu nunca terei filhos — jamais. Não há necessidade de herdeiros. Fiquei sabendo que na China fazem vasectomias; quero viajar, conhecer o mundo, e pretendo fazer essa cirurgia. Filhos meus seriam frustrados como eu, num mundo que não foi feito para eles. O que mais me entristece é que, por ser bastardo, todo mundo me olha com cara feia. É como se eu tivesse roubado ou levado algo que não me pertence. Dizem que o tempo cura todas as feridas — então por que as dores no meu peito não passam? Por que continuam abertas, cada vez mais profundas? Ninguém tem essas respostas, e por isso eu me calo. Dinheiro não é problema: tenho tudo o que preciso, meu pai me deixa com uma vida financeira tranquila para o resto dos meus dias. Mesmo que minha madrasta tente atrapalhar, ela não pode fazer nada — pois o nome dele está escrito na minha certidão de nascimento. — Senhor Leonardo... — chamou a voz da mesma moça que esteve comigo. — Pois não? — respondi, erguendo as sobrancelhas. — Você viu onde a sua safadeza o levou? Agora fique aí pensando. — Se quiser, marco com você hoje à noite. Vai até o meu quarto e me espere — vou fazer você delirar. — Homem baixo! — Saiu batendo os pés, e eu sorri. Dia seguinte... Eu andava a cavalo quando ouvi um estampido. Algo me acertou, e perdi os sentidos. — Achei ele caído no mato... — ouvi vozes ao meu redor. Ao abrir os olhos, vi Rick, Marisa e Linda. — Leonardo? Será que tentaram sequestrá-lo? — perguntou Linda, parecendo confusa. — Mas quem iria querer sequestrar esse genioso, e por quê? — continuou ela, fazendo perguntas que eu não tinha forças para responder. Marisa estava pálida de medo. — Acho que tentaram matá-lo — disse Marisa, e ela tinha razão. Tentaram me matar, mas eu ainda não conseguia falar; eles não percebem que já estou acordado. Todos se entreolharam. — Rick, você já ouviu o que a cidade está falando? Que Leonardo tentou algo com aquela menina da nossa sala, a tal Moanizia... — Meu Deus! Leonardo sabe muito bem das consequências. Ele sempre foi cuidadoso, mas gosta de perigos brutos — e parece que agora está mais inconsequente do que nunca. — Então ele gosta de perigo? — Gosta, e muito. — Bom saber... — sussurrou Linda. E no fundo da minha mente, eu me perguntei: será que ela também gosta de perigo?






