Capítulo 4

Lavínia

Não fazia ideia do que tinha acabado de acontecer.

Primeiro; foi o som que saiu da boca de Nikólas, que parecia mais um grunhido de um animal enfurecido.

Segundo; foi a forma em que falou com o irmão. O que ele quis dizer com ela é minha? Vovó nos olhava intensamente, seu semblante mostrava que ela finalmente havia compreendido minha ânsia de acompanhá-la essa noite.

— Isso explica muita coisa — disse com um suspiro. — O chamado — ela completou me deixando ainda mais confusa.

— Podemos esquecer isso e voltar ao assunto que a trouxe aqui? — vociferou Nikólas com os dentes trincados.

— Podemos, mas depois temos que conversar sobre isso, meu rapaz. — Seus olhos de águia fixos no homem que permaneceu inabalável pela forma que ela impunha naquele olhar que normalmente me fazia confessar todos os meus pecados, quando ela o direcionava a mim. — Do que precisam?

— Algo que possa disfarçar o nosso cheiro — disse um dos irmãos, Hector eu acho.

Quando entrei na casa meus olhos foram imediatamente atraídos para Nikólas e não reparei nos outros ocupantes da sala.

Olhando-os atentamente pude ver a beleza extraordinária de cada um deles. Nunca em minha vida vi tais traços de beleza, todos perfeitamente esculpido, quase sobrenatural, tamanha perfeição. Todos com a pele levemente bronzeada, com os cabelos da cor de ouro derretido e os olhos incrivelmente belos; uma mistura de verde com cinza. Uma cor rara e mais linda que já vi.

— Isso não vai ser problema. Posso saber por que precisam de algo assim? — interrogou vovó vasculhando sua bolsa.

— Não conseguimos rastreá-los. Acreditamos que eles estão tendo ajuda de alguém como a senhora, precisamos fazer o mesmo para que não possam nos farejar e assim, atraí-los para uma emboscada — respondeu Nikólas.

A conversa era estranha e queria saber sobre o que estavam falando, mas permaneci em silêncio, enquanto debatiam sobre o assunto desconhecido.

Vovó balançou a cabeça e sem ser convidada ajoelhou-se no chão de madeira e colocou o pano estampados com estrelas sobre a mesinha no centro.

— Isso não vai dar certo.Se eles têm ajuda de alguém como eu, já devem saber que estão chegando, além do mais, se procuraram mais cedo, já sentiram o cheiro de vocês e não são burros em cair em uma armadilha. Preciso de um mapa, posso fazer um feitiço de rastreamento, assim saberão onde encontrá-los — ofereceu.

Logo um mapa lhe foi entregue e permaneci afastada, mantendo meus olhos atentos ao que estava acontecendo.

Todos chamavam vovó de bruxa, mas nunca imaginei que ela pudesse realmente fazer magia. Umas misturas de ervas aqui e ali e supostas poções não significava que ela pudesse fazer feitiços.

Como se sentisse os pensamentos rodando minha cabeça como um furacão, ela me olhou por sobre os ombros e sorriu docemente.

— Lembre-se do que eu disse querida, mantenha a mente aberta e não surte.

Ela retirou da bolsa um pêndulo de cristal com o formato de uma flecha na ponta e o segurou pela corrente de prata.

— Fiquem em silêncio — orientou, fechando os olhos.

Ela começou a sussurrar vagarosamente, aos poucos sua voz aumentou o tom. Parecia um poema contado em um idioma que eu não conhecia.

Conforme ela o repetia como um mantra, o pêndulo começou a se movimentar.

Se não estivesse olhando fixamente para sua mão que estava parada no lugar, não teria acreditado que o pequeno objeto estivesse se movendo sem o seu auxílio.

Naquele momento, enquanto o pêndulo girava para todas as direções no mapa, um arrepio subiu por minha pele. Não havia nem mesmo um sopro de vento, mas o frio se instalou em meus ossos como se estivesse saindo de dentro de mim. Passei as mãos pelos braços tentando me livrar da sensação alarmante que se espalhava por todo meu corpo como um terrível presságio, fazendo-me estremecer e fechar a boca duramente para meus dentes não tilintarem pelo frio cortante.

Meus olhos focaram-se no pêndulo; apreensiva, inquieta. Quando ele parou, apontando para uma direção, vovó ergueu seus olhos arregalados e murmurou com a voz preocupada.

—Eles estão aqui e, não estão sozinhos.

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Nikólas

Antes mesmo que as palavras de Clara penetrassem em minha mente, a porta foi subitamente aberta fazendo-a bater contra a parede com a força do vento que surgiu magicamente.

Movido por puro instinto corri para frente de Lavínia, colocando-a atrás de minhas costas, em perfeita sincronia os meus irmãos se juntaram a mim, fazendo uma barreira protetora em frente à minha companheira.

Farejei o ar em busca do inimigo, mas não senti nada além do cheiro da floresta e dos animais que vivem nela. Nada que indicasse a presença dos vampiros.

— O que está acontecendo? — Lavínia murmurou, sua conotação assustada. Apesar do forte desejo que me assolou para certificar-me que ela estava bem, mantive meus olhos na porta aberta, meu corpo vibrando em alerta, pronto para entrar em ação.

— Vai ficar tudo bem, querida. Os Lýkos vão nos proteger — disse Clara, o som de sua voz indicando que ela estava ao lado da neta.

Uma mulher de cabelos laranja como fogo surgiu na porta, sendo escoltada por dois vampiros. 

— Os Lýkos, é um prazer finalmente conhecer a famosa alcateia — disse a mulher, com um sorriso reluzente.

— Quem diabos, é você? — rosnei, deixando evidente meu desagrado diante da invasão. Meu desejo era rasgar sua maldita garganta por trabalhar com os vampiros e arrancar os corações dos malditos com minhas mãos nuas, por estarem assustando a minha companheira.

Podia cheirar o seu medo e isso estava quase me deixando prestes a cometer um massacre, a única coisa que mantinha o controle da fera, era saber que me ver matando os malditos a deixaria ainda mais assustada.

— Que indelicadeza de minha parte. Meu nome é Amélia e antes que pensem em fazer alguma coisa estúpida, deixe-me ressaltar que apesar de não sentirem o cheiro, a casa está cercada pelos meus novos amigos. Vocês podem ser bons, mas duvido que possam lidar com uma horda inteira de vampiros — disse tranquilamente.

— O que vocês querem? — rugiu Hector.

A mulher apontou o dedo com unhas pintadas em vermelho para um ponto atrás de mim, fazendo o lobo grunhir.

— Eu quero, ela!

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