Adrien Vince…
Trabalhar com o dono da Kairós…
A ideia se repetia na mente de Simon como se fosse algo muito distante e improvável, enquanto Helion esperava sua resposta, ansioso.
E, para o susto do alfa, ele começou a rir e a balançar a cabeça, como se o amigo tivesse acabado de contar a piada mais hilária do ano. O outro franziu o cenho e o encarou de maneira engraçada, achando que Simon havia enlouquecido de vez.
E, na realidade, estava mesmo.
— Ah, para! Qual é, não brinca assim. — disse, limpando o resto da bebida que havia derramado. — Quase acreditei em você.
— Sin, estou falando sério — respondeu o amigo, cruzando os braços e deixando à mostra os músculos.
O sorriso de Simon foi morrendo, e logo a preocupação o invadiu.
Céus… como assim?
A Kairós Fragrances era o tipo de empresa onde gente como ele nunca colocava os pés.
O que diabos ele — um ômega endividado até o último fio de cabelo, que havia se sacrificado para terminar a faculdade — realmente poderia estar fazendo por lá?
E nem sequer havia trabalhado no próprio ramo cinco anos após a formatura.
— Lion, agradeço muito a ajuda, mas isso é diferente… Caramba, estamos falando da Kairós — sussurrou o nome como se fosse algo proibido. E, para si, com certeza era. — Não tenho experiência nenhuma como secretário e sou péssimo em organização.
— Mas você aprende rápido e, quando quer, consegue tudo. Sei que, quando decide ser perfeccionista, é impecável. — O alfa apoiou os cotovelos na mesa. — Acho que vai se sair muito bem. E, pelo que me disse, não está em posição de recusar… Posso te colocar lá dentro com facilidade.
Simon passou as mãos pelos cabelos, jogando-os para trás. O movimento liberou seu cheiro, e Helion torceu o nariz — mesmo que seu aroma estivesse camuflado, não havia como passar despercebido para os alfas. A lembrança o atingiu: não era só a falta de experiência que pesava; ele era um ômega, e seu cheiro afetava. Muito.
— Eu sei… mas você sabe qual é a minha natureza. E você mesmo disse que seu chefe não gosta de trabalhar com ômegas. Como vou conseguir esconder isso? Ele vai notar. — Simon fez uma careta, estalando a língua. — Ainda mais sendo um alfa poderoso.
E lindo… pensou, deixando essa parte de fora.
Bonito demais para alguém tão famoso.
Nunca havia pesquisado sobre Adrien Vince; só via o rosto dele estampado em revistas famosas ou comerciais.
Mas ele era, sem exagero, um dos alfas mais atraentes e charmosos que já vira.
— Sim, pode ser. Mas você é esperto demais. Ao contrário dos outros ômegas, não é frágil — disse Helion com um sorriso. — Esse seu perfume é horrível. Você pode reforçá-lo, e vai dar certo. Nem mesmo Adrien Vince será capaz de detectar.
Simon suspirou. Sim, talvez aquilo pudesse funcionar. Porém…
— E se ele descobrir?
— Ele não vai. Você é ótimo em esconder segredos. — O alfa piscou. — As vizinhas fofoqueiras ainda se perguntam no que você trabalha à noite?
— Sim, continuam com as teorias da conspiração — respondeu, dando de ombros. — Nessa parte, você tem razão. Sou bom em esconder. Mas agora é diferente. Não é um hobby ou algo divertido… você está me oferecendo um emprego sério e…
— Experiência — interrompeu Helion, virando-se totalmente para ele, como se estivesse fazendo uma negociação. — Nenhum secretário de Adrien Vince durou mais de seis meses. Na verdade, se durou dois, foi muito. Não está curioso?
— Helion… onde você está me metendo? — perguntou, sorrindo. — Estou começando a me sentir desafiado. — Cruzou os braços.
Qual era o problema de Adrien Vince com os secretários? Seria algum tipo de alfa maníaco exigente?
— Pois é. É só uma experiência… Teve um que não ficou nem dois dias.
Cacete… Agora Simon queria ver de perto. O amigo sabia bem como ele reagia a desafios — e essa curiosidade era irresistível. Não faria mal experimentar. Mesmo sem saber se duraria um dia, a sensação perigosa de ser descoberto só o excitava mais.
— Certo… Ok. A experiência não fará mal.
— Esse é o meu omegazinho — disse Helion, bagunçando os cabelos dele e fazendo os fios escuros caírem sobre o rosto. Novamente, o cheiro de Simon se espalhou no ar, e o alfa levou as mãos ao nariz. — Por todas as divindades! Passe esse perfume até no cabelo. Seu cheiro pareceu ainda mais forte agora.
— Fiquei animado — explicou, com um sorriso de canto divertido.
Deu um gole na bebida, pegou a mochila e tirou uma pasta com o currículo, entregando-a ao amigo.
— Está aí. Faça bom proveito.
— Contratado. Vou te mandar um e-mail mais tarde. Veja — declarou Helion, estendendo a mão. — Senhor Simon Fox, seja bem-vindo à Kairós Fragrances. Agora só resta saber quando começa.
Simon riu e apertou a mão do outro, selando aquele acordo esquisito.
Sem dúvidas, aquela era a proposta de emprego mais louca — e sedutora — que já havia recebido.
— • —
O vapor subia da panela, espalhando o cheiro de alho e cebola fritando. Simon misturou o restante dos temperos ao molho de tomate e deu uma última mexida. Sorriu ao observar a mãe sentada no sofá, fazendo tricô enquanto um K-drama passava na televisão.
O aroma da comida começou a se misturar com o ar.
Ele pegou o macarrão cozido misturando na panela com o molho pronto. Com as mãos sujas e o cabelo preso de qualquer jeito, apagou o fogo e separou a refeição em duas tigelas, observando o pequeno caos que sempre deixava depois de cozinhar.
Tirou o avental e foi até a sala.
A novela entrou no intervalo — e o comercial que começou em seguida prendeu sua atenção.
Um homem — um alfa de presença magnética e cabelos compridos — borrifava o perfume nas zonas estratégicas do corpo. O vapor se misturava ao ar como uma promessa.
Em seguida, ele se vestiu, prendeu o relógio no pulso e caminhou até a porta do hotel. Assim que cruzou o saguão, uma ômega parou. Seus olhares se encontraram, e, por um instante, o mundo pareceu suspenso.
O cheiro o alcançou primeiro.
Ela respirou fundo.
E então, como se o instinto os guiasse, os dois se tocaram, se beijaram, ofegantes, tomados por algo irresistível.
A tela escureceu, e o slogan surgiu com elegância:
KAIRÓS Fragrances
Irresistível. Inesquecível.
Simon balançou a cabeça. Sua mãe também estava compenetrada, observando o comercial. Uma coisa ele teve que admitir: o cara era bom mesmo. Conseguiu deixar até ele — um ômega que nunca ligou muito para perfumes caríssimos — fascinado.
Só a música clássica que era brega demais… o comercial exigia algo mais sexy, mais provocante. O efeito no telespectador seria muito melhor.
Distraído, chamou a mãe para jantar. Sentaram-se à mesa pequena.
— Isso ficou muito bom — comentou ela, com um sorriso satisfeito. — Te ensinei direitinho a fazer o molho de macarrão.
— Eu sou bom, senhora Diana, em tudo que faço — respondeu ele, presunçosamente, e sentiu em seguida o pano de prato úmido em seu rosto.
— Cadê a sua humildade?
— Sou humilde, só disse um fato — retrucou, sorrindo. Um sorriso que fazia as covinhas aparecerem e os olhos se curvarem, o tipo de que sempre a fazia rir junto.
Conversaram sobre a novela enquanto jantavam. Quando terminaram, Diana se levantou primeiro, levou o prato à pia e reclamou da bagunça.
— Por que você suja tudo? Não é bom em tudo que faz? — provocou, zombando do que ele dissera antes.
— Touché, direto no coração — dramatizou ele, rindo. — Mamãe… e se eu trabalhasse na Kairós?
— Se você trabalhasse na Kairós… — repetiu ela, confusa. — Que isso, um restaurante de frango?
Ele revirou os olhos.
— Não… estou falando da Kairós Fragrances.
Antes que ele pudesse continuar, recebeu um tapinha na cabeça.
— Para de brincar. Por um momento, achei que fosse verdade.
— E se fosse?
— Filho, a Kairós Fragrances… até eu, que não entendo de nada, sei que, para gente como nós, é difícil entrar lá.
— Mas o Helion conseguiu — insistiu Simon.
— Porque ele estudou em outro país, fez amigos importantes… nem mora mais nesse bairro — respondeu sua mãe, fazendo um carinho no ombro do filho. — Mas, se pudesse, seria uma oportunidade de ouro. Você é químico, inteligente… sei o quanto tem se esforçado.
Ela sorriu e beijou sua cabeça, continuando:
— Acho que está na hora de casar e ter sua família. Seu alfa ainda não apareceu, mas sei que tem várias ômegas e betas de olho em você.
— Não quero me casar com ômega nem com beta — respondeu, fazendo careta.
— Eu sei que não é a mesma coisa, mas tenho medo de…
— Eu sei — suspirou ele. — Do alfa errado. Pode ficar tranquila.
— Mas, se fosse com o Helion, eu apoiava. Ele parece ter uma quedinha por você.
Simon fez uma careta.
— Ele é mais como um irmão mais velho. O cheiro dele não me atrai… e não tem — interrompeu-se antes de entrar em detalhes que não gostaria de conversar com a mãe. — Só não daria certo.
— Tudo bem. Só quero te ver feliz. E num lugar melhor que aqui. Está na hora de se libertar de mim, Simon. Você já fez muito.
— Que história é essa? — ele se levantou e a abraçou. — Eu amo ficar com a senhora. Não tenho problema nenhum em cuidar de você.
— Você e esses bicos noturnos que faz às vezes… eu me preocupo. Bar noturno não é um bom lugar para um ômega.
— Não é nada perigoso — sorriu, mentindo só um pouquinho. — Fica tranquila.
— Olha lá, Sin. Eu só tenho você.
— E eu só tenho você. Isso é o suficiente — respondeu, a voz suave.
— Não vou viver pra sempre e sabe-se lá quanto tempo eu tenho — murmurou ela, referindo-se ao câncer de mama estagnado.
— Pode parar. Você está tomando os remédios direitinho.
— Sempre.
— Perfeito. Já marquei a próxima consulta, daqui a algumas semanas. Agora vai se deitar, você parece cansada. Eu termino aqui e depois vou dormir também — disse ele, piscando.
— Você é um filho maravilhoso — disse ela, sonolenta, beijando-lhe a testa. — Espero que seu alfa apareça logo.
— Nossa, mamãe, a senhora está louca para se livrar de mim, hein? — brincou.
Simon ficou ali, pensativo.
Sobre casais.
Sobre alfas.
E, quem sabe… poderia encontrar o seu par na Kairós.
Um sorriso travesso surgiu em seus lábios antes que fosse arrumar a cozinha.
Quando tudo estava arrumado, Simon olhou para o relógio digital na parede — já passava da meia-noite. Ele se cheirou, sentindo o aroma da comida, e revirou os olhos.
— Outro banho.
Ele foi para o quarto, ligou o notebook velho e entrou no banheiro. Depois de um banho quente, estava cheiroso e mais relaxado.
Pegou o notebook, sentou-se na cama e abriu seu e-mail pessoal, observando a caixa de mensagens.
O e-mail que o amigo havia mencionado mais cedo continha um arquivo, e ele abriu:
“Contrato — Secretário: Kairós Fragrances.”
Simon começou a ler. O e-mail era direto, profissional, e vinha assinado por Helion Blake, gerente de recursos humanos.
“Seja pontual. Discrição é essencial. Traje formal obrigatório.”
Ele releu umas três vezes, rindo sozinho.
— Ele quer que eu seja discreto e arrumadinho… tá certo, claro — murmurou, já imaginando a loucura que seria lidar com um alfa como Adrien Vince. — Pontual… vou tentar o máximo.
Na verdade, aquele homem parecia ser mais obsessivo pela perfeição do que ele imaginava. Tudo aquilo atiçou sua curiosidade sobre o futuro chefe.
Abriu um site de avaliações de empresas e digitou “Kairós”. Começou pelos comentários positivos sobre os perfumes.
> ★★★★★
“Comprei o Lust Magic por curiosidade e, meu Deus… meu marido não parou de me cheirar a noite inteira. Acho que o Sr. Vince coloca feitiço nesses frascos.”
> ★★★★☆
“Lindo frasco, aroma intenso, mas cuidado: vicia. Já é o terceiro vidro e não consigo usar outro perfume.”
> ★★★★★
“O perfume dele tem cheiro de desejo. Simples assim. Quem usa, não passa despercebido.”
> ★★★★★
“Meu namorado alfa quase perdeu o controle quando senti o perfume na pele. Adrien Vince devia ser proibido por lei.”
> ★★★★★
“O cheiro do perfume ficou na minha pele quase o dia todo, com certeza vale o sucesso.”
> ★★★★★
“Esse homem é louco? Ele criou uma bomba sexual? Wild Danger é enlouquecedor. Transei por horas com minha ômega.”
Simon riu dos comentários — alguns até sobre experiências sexuais mais satisfatórias.
É, esses perfumes são de outro mundo.
Mas o que ele queria agora era saber sobre o próprio Adrien Vince.
> ★☆☆☆☆
“Se quiser vender sua alma por um salário bom, esse é o lugar. Ele polirá sua sanidade até ela sumir… e ainda vai cobrar overtime.”
> ★★☆☆☆
“Trabalhei três meses e ainda sonho com o som daquele borrifador. Tenho certeza de que ele também não dorme… ou come.”
> ★☆☆☆☆
“O CEO não precisa gritar para te destruir. Um olhar vazio e você já sente que decepcionou todos os seus ancestrais… e o cachorro do vizinho.”
> ☆☆☆☆☆
“O que ele tem de lindo, tem de arrogante e sem coração. Não se apaixone por ele… apenas faça seu trabalho e reze para sobreviver.”
> ☆☆☆☆☆
“Esse sugador de almas demite os outros sem qualquer remorso. Os funcionários duram apenas dois dias. Que queime no inferno, Adrien Vince, e leve essa porra de empresa com você.”
Simon passou as mãos no rosto e riu, divertido com todos os comentários. O último, com certeza era um ex-funcionário, dava para sentir ódio.
— Qual é! Quanto exagero. Ele não deve ser tão ruim assim.
Digitou o nome Adrien Vince em outra aba nas buscas, e várias fotos apareceram — em eventos, premiações, programas de TV, dentro de carros luxuosos.
Em todas, ele vestia ternos impecáveis, feitos sob medida para o corpo. Simon ampliou uma foto em que o tecido realçava os músculos do braço.
Passou a língua pelos caninos, imaginando como ele seria sem o terno… e suado.
— Nossa, senhor Vince, eu venderia minha alma só pra você me foder gostoso — brincou, mordendo os lábios, observando o olhar sério e predatório de Adrien. — Entendi: gostoso, porém maníaco obsessivo.
Pesquisou um pouco mais sobre o alfa.
Idade: 44 anos. Relacionamentos: nenhum. Residência: bairro das mansões, endereço não revelado — Saint Claire.
Era de se esperar. Saint Claire era a cidade mais rica do país. Bem diferente dele, que morava em Lumen, um dos bairros mais pobres da cidade.
— Está bem, vamos lá! Preciso da grana mesmo.
Simon assinou o contrato digitalmente e reenviou para o amigo.
Depois, saiu do e-mail pessoal e entrou no de trabalho.
Havia uma nova mensagem:
"Olá, Honey! Confirme sua presença — daqui a duas semanas, na sexta-feira."
Ele olhou o calendário, clicando em "Presença confirmada". A resposta foi enviada.
Agora sim, poderia dormir.