Ele já havia se esquecido.
Hoje era o dia em que o meu contrato de aluguel terminava, o dia em que eu me mudaria.
Já que ele tinha ido até lá, que não voltasse mais.
......
Quando cheguei ao térreo, a transportadora já estava lá.
— Srta. Fausta, então já vamos começar a carregar as coisas.
Eu assenti. O celular vibrou, era uma mensagem de Leonardo.
[Onde você foi? Não some.]
Fiquei levemente atônita.
Todo o histórico da nossa conversa era composto apenas pelas minhas iniciativas.
Aquela súbita demonstração de cuidado fez meus dedos tremerem de leve.
Mas, assim que abri a conversa, a próxima mensagem dele pipocou:
[Desce na loja de ferragens e compra uma chave inglesa para mim. A Norah não tem aqui.]
Encarei aquelas duas linhas por alguns segundos.
Afinal, ele não havia notado de repente a minha ausência.
Ele só percebeu que eu não estava ao seu lado quando precisou me dar uma ordem.
Rolei a tela para cima, lendo nosso histórico. Cada mensagem estava ligada à Norah.
[Aquele kit de skincare que seu colega trouxe do exterior, deixa a Norah usar. Depois eu te compro outro.]
[A Norah falou que queria comer comida japonesa. Quando você sair do trabalho hoje, vamos juntos, já reservei a mesa.]
As mensagens que Leonardo me mandava eram sempre frases afirmativas.
Decisões que ele já havia tomado, sem nunca sequer cogitar pedir a minha opinião.
Havia também a mensagem daquele dia chuvoso, quando perguntei se ele poderia me buscar.
Ele disse: [Já cheguei em casa. Pega um Uber.]
No segundo seguinte, vi uma foto nas redes sociais da Norah.
Um guarda-chuva inclinado a protegia enquanto ela entrava no banco do passageiro.
A legenda dizia: [Quase fiquei presa na chuva, ainda bem que alguém veio me resgatar.]
O interior daquele carro era familiar até demais para mim.
Antes, eu sempre tentava me convencer de que ele era meu namorado, e Norah, minha melhor amiga.
Se eles se davam bem, eu deveria ficar feliz.
Mas cada vez que eu cedia e engolia em seco, Leonardo apenas cruzava ainda mais os limites.
Dessa vez, não o respondi.
Enquanto eu arrumava minhas coisas no quarto, Leonardo mandou outra mensagem:
[Por que não voltou ainda? A Norah disse que quer comer num restaurante francês, então eu a trouxe primeiro. Daqui a pouco você vem.]
Aquilo não era novidade.
Combinávamos de comer juntos.
Mas se eu me atrasasse um pouco por causa do trabalho ou do trânsito, só me restavam pratos frios e sobras.
A indiferença de Leonardo perante a minha mágoa era absoluta:
— A Norah tem o estômago sensível, ela comeu primeiro. Esfriou um pouco, mas o gosto continua o mesmo. Não começa a complicar as coisas.
Quando o cano do meu apartamento estourou e a casa virou um caos, eu liguei para ele.
A resposta foi a mesma: — Onde é que eu vou arrumar tempo para ver isso? Chama um encanador e não seja tão exigente.
Então, eu mesma lavei as cortinas, troquei a lâmpada e, aos poucos, aprendi a não depender dele.
Mas, com Norah, a atitude era completamente oposta:
— Você é mulher, não precisa ser tão durona. Se precisar de algo, eu te ajudo. Afinal, você mora tão perto da Fausta, já viemos até aqui, é fácil ajudar.
Eu não entendia por que, quando o assunto era ajudar.
Para mim, sua namorada, pedir ajuda era ser exigente e complicada, mas para Norah era apenas um favorzinho de passagem.
Engoli a acidez que queimava na minha garganta e digitei para Leonardo: [Podem comer. Tenho coisas para resolver.]
Muito tempo depois, ele respondeu:
[Tá fazendo birra de novo? Fausta, olha a sua idade, para com isso.]
Eu já tinha feito birra antes.
No inverno do ano passado, eu estava com trinta e nove graus de febre, tremendo de frio, e liguei pedindo que ele me trouxesse remédio.
Ele disse que estava na casa da Norah, porque ela estava com cólica e não conseguia levantar, então ele estava massageando a barriga dela.
Eu disse que também estava me sentindo muito mal, e ele ficou em silêncio por dois segundos antes de soltar: — Você não está com força para ligar? Quão grave pode ser? Pede na farmácia pelo aplicativo, chega em vinte minutos. Aguenta firme aí.
Foi a primeira vez que senti que não dava mais para suportar.
Eu era a namorada dele, mas nunca tinha prioridade na sua vida.
Eu pedi para terminar.
Mas ele não disse uma única palavra e simplesmente me bloqueou primeiro.
Ele sabia que eu o amava demais, que não conseguia viver sem ele.
Então me deixou chorando por dois dias, até minhas lágrimas secarem.
Só então pediu para Norah me chamar para jantar.
E eu, patética, escolhi reatar.
Desde aquele dia, eu nunca mais tinha feito birra.
Mas dessa vez era diferente.
Não era uma birra. Eu estava falando sério.