Mundo de ficçãoIniciar sessão— Você.
Foi tudo o que consegui dizer antes de puxá-lo pela nuca e beijá-lo pela segunda vez naquela noite.
Desta vez, não houve hesitação. Se no bar eu tinha sido desajeitada, agora eu estava movida por uma mistura perigosa de uísque, dor e pura audácia. E, para o meu delírio, o estranho correspondeu com uma fome que me pegou totalmente de surpresa.
O som da porta se fechando atrás de mim ecoou no corredor, mas eu honestamente não saberia dizer se fui eu quem a empurrou ou se foram as mãos dele que nos trancaram ali dentro.
Ele soltou um rosnado baixo contra a minha boca, e suas mãos grandes e quentes desceram pelas minhas costas até alcançarem a minha bunda. Num impulso firme e perfeitamente coordenado, ele me levantou do chão. Instintivamente, cruzei minhas pernas ao redor da cintura dele, entrelaçando meus tornozelos atrás de suas costas para não cair.
Sem romper o beijo por um único segundo, ele caminhou a passos largos e me pressionou contra a parede do quarto. O impacto suave das minhas costas contra a superfície sólida me fez arfar, abrindo espaço para que a língua dele dominasse a minha com ainda mais profundidade.
A boca dele deixou a minha, descendo em uma trilha ardente pelo meu maxilar até alcançar o meu pescoço. Ele beijava, mordiscava e sugava a minha pele sensível com uma intensidade que fez meu corpo inteiro vibrar.
Joguei a cabeça para trás contra a parede, apertando os ombros musculosos dele enquanto recebia aquelas carícias vorazes, esquecendo completamente quem eu era, de onde tinha vindo ou o inferno que tinha deixado para trás.
Sem dizer uma única palavra, me mantendo presa ao seu corpo, ele caminhou até a cama de casal enorme. Com cuidado, mas sem perder o ritmo, ele me jogou no colchão macio e deitou-se logo em cima de mim, prendendo meu corpo com o peso do seu.
No segundo em que senti o membro dele, já rigidamente duro, roçando contra a intimidade das minhas pernas por cima do tecido das roupas, um gemido alto e sôfrego escapou da minha garganta.
O som pareceu um estalo de realidade.
No mesmo instante, o homem parou. O movimento dele congelou. Ele travou os braços ao lado da minha cabeça, erguendo o tronco devagar enquanto me encarava de cima. O peito dele subia e descia com força, a respiração tão desalinhada quanto a minha, mas os olhos cinzas pareciam ter recuperado uma frieza analítica.
Era como se só naquele momento ele tivesse realmente entendido o que estava prestes a acontecer entre nós dois.
Ainda ofegante, sentindo meus lábios quentes e visivelmente inchados pela intensidade dos beijos dele, o olhei de volta, completamente confusa.
— O que foi? — perguntei, a voz saindo em um sussurro falho.
Ele fechou os olhos por um segundo, passando a mão espalmada pelos cabelos escuros, parecendo buscar forças em algum lugar profundo para se controlar. Com um suspiro pesado, ele se levantou da cama por completo, afastando-se do meu corpo e me olhando de cima com uma seriedade gélida que me causou um calafrio.
— É melhor você voltar para o seu quarto, menina — ele disse, a voz barítona soando firme e distante.
Me sentei no colchão, ajeitando a minha roupa desalinhada, sentindo meu coração martelar dolorosamente contra as minhas costelas. A rejeição abrupta operou como um soco no estômago.
— Há algum problema? — perguntei, tentando manter a voz firme, mas falhando miseravelmente.
— Sim, há — ele respondeu, cruzando os braços e mantendo a distância. — Eu não posso fazer isso. Nós não podemos.
— Mas por quê? — Insisti, a humilhação cutucando o fundo da minha mente. — Há poucos segundos você parecia querer tanto quanto eu. Por que parar agora?
Ele me encarou, e suas próximas palavras foram proferidas em um tom tão duro e ríspido que me fez encolher fisicamente na cama.
— Porque eu não fico com mulheres como você.
Mulheres como eu.
A frase ecoou nas paredes do quarto, mas, na minha mente nublada pelo álcool e pelo trauma, as palavras dele se transformaram em outras. Em segundos, a voz desdenhosa de Adam invadiu a minha cabeça, ecoando com uma clareza cruel:
“Você só pensa em trabalho. Vive trancada naquela agência com esses terninhos sem graça, não é feminina, não se arruma direito... Você é sonsa na cama, Kat. Uma parede. A Ester é completamente o oposto. Ela sabe como fazer um homem se sentir homem.”
Pisquei os olhos repetidamente, tentando desesperadamente afastar a queimação que subia pelos meus olhos, mas foi impossível conter. O dique quebrou. As lágrimas transbordaram quentes e pesadas pelo meu rosto, e o primeiro soluço escapou antes que eu pudesse sufocá-lo.
Me levantei correndo da cama, o desespero e a vergonha me consumindo por inteiro.
— Desculpe... meu Deus, me desculpe — comecei a falar atropeladamente, limpando o rosto com as mãos trêmulas enquanto tentava achar a minha bolsa. — Eu sou uma idiota. Eu não deveria ter vindo aqui, eu não sei o que deu em mim... me desculpe mesmo.
O homem franziu o cenho, a postura rígida desmoronando ligeiramente ao me ver chorar daquele jeito. Ele deu dois passos na minha direção, erguendo as mãos.
— Ei, espere. Por que você está chorando? — ele perguntou, o tom visivelmente mais brando, quase preocupado. — Se eu te ofendi, saiba que não foi a minha intenção. Eu apenas achei que...
— Não! Você está certo! — Eu desabei. O peso de doze anos de rejeição, somado à cena chocante de hoje à tarde e ao ultimato do meu pai, simplesmente explodiu de dentro de mim. Desviei do caminho dele, andando de um lado para o outro no quarto enquanto despejava todo o desastre da minha vida em cima daquele completo estranho.
— Você está totalmente certo em me mandar embora! O meu noivo tem razão! Eu acabei de pegar ele na cama com a minha própria irmã, usando o meu vestido de noiva, e ele jogou na minha cara que eu sou sonsa! Que eu sou uma parede na cama, que eu não sou feminina e que eu não sei fazer um homem se sentir homem! E agora eu entro aqui, me atiro em cima de você como uma desesperada, e você me rejeita... o que só prova que ele está coberto de razão! Eu sou um fiasco!
Parei perto da porta, soluçando alto, a dor no meu peito tão física que eu precisei pressionar a mão contra as costelas para conseguir respirar.
— Como pode no mundo existir alguém tão desprezível como eu…
— Menina, o que eu quis dizer foi… — ele tentou se justificar mas eu o interrompi.
— Está tudo bem, olha me desculpe. Meu dia foi uma verdadeira merda, depois de toda essa traição do meu noivo… — soltei o ar entre o choro. — Eu vou perder tudo, vou perder a empresa da minha mãe. Tudo o que ela construiu, tudo pelo que eu sangrei a minha vida inteira para proteger... eu vou perder tudo em uma semana se eu... se eu não me casar!
Olhei para ele através da cortina de lágrimas. A vergonha e a humilhação me esmagavam tanto que eu sentia que ia sufocar. O homem me encarava em um silêncio absoluto, a expressão completamente paralisada, processando cada palavra do meu surto.
Soltei o ar com força, derrotada.
— No que eu estava pensando… um homem como você, com uma sonsa como eu… — sequei mais uma vez as lágrimas. — Sinto muito por tudo isso. Por despejar meus problemas em você, acho que eu… que eu só precisava desabafar com alguém que não fosse eu mesma. Vou deixá-lo em paz. Boa noite.
Girei o corpo e caminhei rapidamente até a saída. Mas, assim que meus dedos tocaram a maçaneta fria da porta, senti uma mão firme e implacável se fechar ao redor do meu pulso.
Me virei num sobressalto para olhá-lo, e ele não me deu tempo de reagir. Num movimento único e vigoroso, ele me puxou com tudo em sua direção, fazendo meu corpo bater com força contra o seu peito nu e robusto. O impacto me tirou o fôlego, e ergui os olhos, assustada.
— O-o que você está fazendo? — gaguejei.
O estranho não respondeu de imediato. Ele subiu a mão espalhada até a minha nuca, enterrando os dedos longos no meu cabelo e segurando a minha cabeça com uma firmeza possessiva, me forçando a encarar as suas íris cinzentas, que agora estavam completamente escuras, carregadas de um desejo primitivo e absoluto.
— Vou te provar o quão babaca e errado o seu noivo está — ele sussurrou, a voz barítona vibrando direto contra a minha pele, densa e rouca de luxúria.
E, antes que eu pudesse processar o significado daquelas palavras, ele colou seus lábios nos meus e me beijou.







