CAPÍTULO 1

"Don't need reason, don't need rhyme

Ain't nothin' that I'd rather do

Going down, party time

My friends are gonna be there too

...

I'm on the highway to hell."

AC/DC - Highway To Hell

❀══❀❀══❀❀══❀

Walter se viu em uma encruzilhada, então ele planejou algo que pudesse lhe ajudar a tomar sua decisão, armou uma emboscada para o rato sujo, mas não avisou nenhum dos irmãos, ele não queria ter o Wayne ainda mais furioso, ele precisava de mais provas para isso, dito e certo, o rato caiu. Um pequeno lote de drogas iria ser transportado e quem foi o responsável? Sim, o suposto rato, mas mal sabia ele que Walter o seguia na espreita só esperando o momento certo, o carro parou em um beco escuro e fétido, então ele sabia que tudo era verdade.

Walter tirou fotos de toda a movimentação, do carregamento sendo levado, das mãos sendo apertadas por um Hell's Angels e um Mongols sujo, um irmão desonrando seu patch, isso jamais iria ser perdoado, os ratos pagam com a vida, e esse não seria diferente. Assim que ele terminou de fotografar, mandou todas as fotos para o seu e-mail privado por segurança e apagou do aparelho, assim elas estariam seguras e não iriam parar em mãos erradas, quando o Mongols vai embora ele sai do esconderijo e entra no beco.

— Prez. — O rato sujo fala visivelmente atordoado, ele foi pego, ele sabe disso.

— Olha o que encontrei aqui... um rato. — Walter transborda de ironia.

— Walter, eu posso explicar. — Ele tenta se defender, mas nada pode explicar, uma traição no MC é gravíssima. Penalidade máxima.

— Explicar o quê? Que um irmão do clube está trabalhando com nossos inimigos? Roubando de nós e dando a eles? Onde isso se explica? — Walter berra furioso, quando o Wayne souber, irá fazer picadinho desse bastardo.

Enquanto isso ninguém sabia que eles não estavam sozinhos, Rosie era a mais esperta, se camuflar era sua única defesa então viver em becos escuros e sujos era sua única solução durante a noite, assim ninguém iria lhe machucar. Mas nessa noite as coisas não estavam indo como ela sempre planeja, ela passou 6 anos na rua, mas é a primeira vez que está tão perto desse tipo de coisa, escondida do lado de uma caçamba de lixo envolta a plásticos e panos velhos sujos ela se esconde e se aquece, mas vozes que gritam chamam sua atenção.

Entretanto a lei nas ruas é, se meta com suas próprias merdas, então Rosie não faz nada, nem sai do lugar, ao menos até ouvir o som das vozes mais alteradas, até que três disparos são ouvidos, Rosie paralisa no lugar, alguém levou três tiros, seu medo de sair e morrer era grande, não que isso seja viver, mas mesmo assim ela não quer morrer. Walter teve a infeliz ideia de ir sozinho e não esperava que o rato sujo não ia se deixar ser pego, com três tiros à queima roupa em Walter o rato corre, só que alguém estava lá, ela criou coragem e por um buraco no tecido velho viu a silhueta do homem correndo, foi de relance, entretanto foi o bastante para reconhecer a pessoa onde fosse, ele tinha uma caveira no braço esquerdo perto de uma arma em chamas.

— Ahhh... — O homem baleado geme de dor, Rosie tem a sua frente um dilema, socorrer o homem ou ficar escondida se protegendo. — Socorro! Alguém! — Ela estremeceu ao ouvir sua lamúria.

Rosie percebeu que ela não é assim, uma vida estava precisando dela, mesmo que ninguém jamais tenha lhe ajudado, ela não faria isso, ao menos avisar a ambulância talvez? O homem pode ligar, já que ela não fala, saindo do seu esconderijo ela paralisa perto do homem.

— Graças a Hades, alguém. — Ela nota um suspiro vindo do homem.

Pela primeira vez após olhar diversas pessoas ela viu um homem realmente atraente, seu corpo musculoso cheio de tatuagens, sua barba grossa e cheia, Rosie não tinha um tipo, mas tatuado definitivamente a atraia muito. Seu cabelo comprido amarrado em um coque já bagunçado pela atual situação, seus olhos castanhos tão claros quase em um verde, um belo homem, não que Rosie soubesse a diferença já que não teve nenhum.

— Hey cara, me ajuda por favor. — Como ela imaginou, ele pensa que ela é um homem.

Ela tira o capuz e se agacha perto dele para ver o que pode fazer, o homem arregala os olhos assustado ao ver que ela não é ele, mas tosse violentamente antes de falar algo, seu peito está todo banhado em sangue, três tiros, um milagre ele ainda estar falando.

— Porra! Você é uma cadela, uma linda. — Ela estranha sua forma de elogio mas ignora, não pode dizer nada mesmo. — Você não fala? — Walter pergunta curioso, como uma cadela linda dessas está tão suja, descuidada e nesse buraco, por outro lado ela é sua única ajuda.

Quando ela balança a cabeça em negativa ele tem outra surpresa, ela não fala, a garota era muda, muita coisa pode ser explicada com isso, então seria um problema na hora de chamar ajuda, então decidiu que ela não sabe falar mas pode ajudar a chamar alguém de outra forma.

— Ouça, pegue meu celular no bolso direito da minha calça, eu falo com a ajuda. — Rosie suspirou aliviada, ela queria ajudar, mas não sabia como, além de ter suspirado em alívio por ele não a chamar de imprestável já que ela não pode falar. — Certo, ligue para o número com o nome Wayne, você sabe ler não sabe?

Rosie nunca terminou seus estudos, mas sabe o básico do básico, às vezes se atrapalha devido a um outro problema que lhe assombra, dislexia*, entretanto fraca, sempre quando nervosa demais ela não sabe diferenciar as letras, outro motivo de sua mãe lhe desprezar, então ela balança a cabeça incerta.

— Eu te ajudo. — Ele tosse mais uma vez, tão forte e seco que sai sangue da sua boca. — Precisa... ser rápida... — Ele fala já ofegante, Walter sabe que a inconsciência está vindo, precisa agir. — Letra W.

Aflita sem saber ao certo ela respira fundo buscando o que ele diz, W, uma letra só, isso ela pode fazer, um homem precisa dela nesse momento, uma vez na vida ela sente que pode ajudar alguém de verdade, e fará, assim que para no W ela sorri aliviada, conseguiu. Ele olha seu sorriso e sorri junto, como ela é linda, está suja, muito suja, mas é linda, ele queria ter lhe conhecido em outra ocasião, mas logo volta ao foco, sua ajuda.

— Me mostre. — Ela direciona o celular para ele e ele aponta com o dedo ensanguentado para o nome do irmão, sorte que é o primeiro já que tem um A depois do W. — Ligue para mim... por favor. — Sua visão já estava se nublando, isso não era bom, nada bom.

Wayne estava aflito, inquieto e muito incomodado, algo não estava certo, ele não sabia o que, mas sentia desejo de sangue, não como o de sempre, mas mais, muito mais, era como se uma merda grande fosse bater o ventilador.

— Britt perguntou se não quer fazer um ménage conosco brow! — Aaron Cooper, melhor amigo de Wayne pergunta ao se aproximar dele no bar do clube.

— Mesmo que você queira me dar seu cu, eu não quero brow. — Wayne fala seco e direto.

— Você está puto com o que? Sabe que não dou o cu caralho, eu como cu e Britt quer me dar, mas quer animação, eu não sendo comido nem ligo. — Aaron gargalha bebendo um gole do seu whisky e com um aceno dispensa a Britt. — Você sabe que ela gosta de ser comida por você, me chamou porque somos amigos e iria te chamar, o que não ligo também já que tiraria proveito disso.

— Quero saber quem é o rato, só isso, depois fodo essa vagabunda ou outra, não ligo. — Wayne nem olha para os lados, apenas para seu copo que fica cada vez mais vazio, todos ao redor temem esse lado dele, o lado psicopata. Como o pai, psicopata Jenpsen.

— Certo, vamos pegá-lo, sabe disso, somos os Hell's Angels, nenhum fodido nos passa a perna e sai impune irmão. — Ele até tenta, mas Wayne sabe que algo está para acontecer, ele só não sabe o que é, e teme por isso.

— Onde está o Prez? — Com um gole Wayne termina sua bebida.

— Saiu, o que é estranho, ele nunca sai sozinho, nunca. — Então Wayne nota onde está o problema, ele precisa ver Walter. Nunca sentiu tanta necessidade disso na vida.

— Hey! Onde você vai? — Aaron o segue quando Wayne pula do banco em disparada para a saída, quando Wayne fica assim ele precisa ter alguém para lhe acalmar do lado.

Então no terceiro toque Wayne atende.

— Walter, onde você está porra? — Pela voz do irmão Walter nota que ele pressentiu algo. Ele sempre teve essas coisas, e nunca falhou até hoje.

— Irmão... — Ele tosse e Wayne para no lugar sendo trombado pelo Aaron que vem logo atrás. — Preciso de ajuda.

— Merda eu sabia! Onde você está? Estou indo agora! — Sem pensar duas vezes Wayne sobe em sua moto.

— Hey, onde você vai? — Aaron fala preocupado.

— Avise meus irmãos, estou indo para o Walter. — Ele liga a moto e com uma mão dirige enquanto fala. — Onde você está?

— Westside, rua B com a C, em um beco. — Walter tosse forte sentindo ainda mais dor. — Irmão, ouça, eu...

— Não ouse se despedir caralho! — Por mais que seja perigoso Wayne não liga ao falar no celular enquanto dirige à mais de 80 km por hora.

— Não vou babaca, mas se... você sabe, aguente firme, tem uma pessoa que está aqui comigo, ela está me ajudando, quando você chegar aqui não seja um completo babaca.

— Walter! Inferno! — Wayne já sentiu medo diversas vezes na vida, mas quando soube se defender ele jamais sentiu medo de novo, até saber que pode perder o irmão. Umas das poucas pessoas que ama na vida.

A linha ficou muda, Walter estava sem fôlego para falar então desligou, mas Wayne sentiu isso como uma bomba, guardando o celular ele disparou, o máximo que pode desviando dos carros e passando sinais vermelhos, ele só queria chegar no irmão e lhe salvar. Assim que não ouviu mais seu irmão, Walter sentiu que não iria ouvi-lo de novo, ele não conseguia se manter acordado, o cansaço estava forte e ele poderia jurar ver o barqueiro vindo lhe buscar.

— Ouça coisa linda, eu acho que não consigo mais. — Ele suspira e ela balança a cabeça negativamente. — Não se preocupe, você me ajudou muito, muito mesmo, mas preciso que faça outra coisa por mim.

Rosie gostaria de dizer que sim, que ela queria ajudar novamente, ela gostaria de saber falar, então fez tudo o que ele pediu no celular, quando terminou ela o guardou em um dos bolsos do casaco velho que ela conseguiu no abrigo.

— Obrigado, tome cuidado uh? Não deixe o lado mal do Wayne lhe assustar, ele precisa de alguém que o compreenda, espero que ele consiga isso um dia. — Ele tosse mais forte quase não conseguindo respirar. — Fale sobre meu e-mail, quer dizer, ajude ele a ver meu e-mail, a senha, esse áudio é só para meus irmãos, mas lá há informações que ele precisa saber antes que seja tarde.

Rosie não chora há anos, mas ao ver a súplica do homem, ao saber que ele irá morrer ela chora, chora por ele parecer ser uma pessoa melhor do que as que ela já conheceu e está morrendo.

— Faz uma última coisa para mim? — Claro que ela iria fazer, ela assente frenética. — Um beijo, só quero ir sentindo um suave beijo do meu anjo de olhos azuis já que quem eu amo não está aqui agora, nem pude me despedir.

Rosie não sabia o que fazer, beijo? Ela não sabia beijar, nunca beijou ninguém na vida, vendo sua expressão confusa ela abaixa a cabeça envergonhada.

— Foda-se, boca virgem, mas tudo bem. — Walter ri fraco e se sente ainda mais fodido, se ele não fosse morrer ele ia tirar essa garota daqui e fazê-la sua amiga ou algo assim já que seu coração já está ocupado, essa inocência é rara e digna de uma Old Lady para alguém do clube. — Na testa então. — Ela assente e se aproxima dele.

Seu beijo é casto, porém quente, sua pele se aquece na mesma hora e ela se arrepende por não lhe dar esse beijo, mesmo não sabendo beijar, ela até fechou seus olhos em apreciação. Porém quando o abriu Walter já estava com os olhos vidrados para o céu, sem piscar, seu peito não se mexia mais em respiração, sua mão estava inerte em cima da barriga onde antes apertava para não sangrar e pela primeira vez na vida Rosie viu alguém morrer.

Isso jamais sairia da sua mente, uma morte, ela mal conhecia a pessoa, entretanto sente como um buraco no peito, como se ele fosse alguém que ela amasse, mas ela não ama ninguém, nunca mais ousou fazer isso. Em sua mente ela fez a oração do pai nosso, a única que se lembra da época da escola, fez o sinal da cruz e beijou sua testa, ele poderia ir em paz, ao menos era o que ela sabia sobre isso, quando sua mãe lhe dizia que alguém que ela conhecia morria ela fazia isso.

"Dislexia é uma perturbação da aprendizagem caracterizada pela dificuldade de leitura, apesar da inteligência da pessoa ser normal.

A perturbação afeta as pessoas em diferentes graus.

Os principais sintomas são dificuldades em pronunciar corretamente as palavras, em ler rapidamente, em escrever palavras à mão, em subvocalizar palavras, em pronunciar corretamente palavras ao ler em voz alta e em compreender aquilo que se está a ler.

Em muitos casos estas dificuldades começam-se a notar na escola."

Tradução do trecho da música:

"Não preciso de razão, não preciso de rima

Não tem nada que eu preferiria fazer

Descendo, é hora da festa

Meus amigos também vão estar lá

...

Estou na rodovia para o inferno."

Leia este capítulo gratuitamente no aplicativo >

Capítulos relacionados

Último capítulo