Capítulo 2

Assenti em silêncio. A saudade era uma linguagem que todos ali falávamos fluentemente.

No canto da prisão, um homem de cabelos grisalhos começou a falar, sua voz rouca atraindo a atenção de todos.

— A Noite é uma maldição que caiu sobre Mandland — ele disse, olhando para o teto de metal. — Meu pai me contou que tudo começou com um homem ambicioso que traiu uma estrangeira. Ele se tornou um monstro, um bêbado que agredia a própria esposa. Uma noite, ela o seguiu e viu que ele estava prestes a matar uma mulher grávida e uma criança. Ela tentou impedi-lo, mas ele não tinha mais alma. Ele era um fantoche da própria maldade. No fim, ele a matou, mas antes de partir, ela lançou o feitiço: Enquanto não houver o amor verdadeiro e puro, não existirá dia nesta terra.

— E como saber se o amor é a chave? — uma mulher questionou.

— Talvez seja o amor de um pai, de um irmão... — o velho divagou.

— Bobagem! — um dos homens de branco interrompeu, batendo na grade. — O Chefe tentou encontrar esse tal amor há anos. É apenas uma lenda para consolar os fracos. Silêncio!

Dormi sob o peso daquela lenda, e meus sonhos foram povoados por vilas em chamas e o cheiro podre de carne queimada. Acordei gritando, o suor frio colando a camisa ao corpo. Julie estava lá, cantando uma melodia antiga para me acalmar. Ela me apresentou a Breno, um rapaz por quem nutria um amor silencioso e óbvio.

— O coração não escolhe — pensei, lembrando-me do motivo de estar ali. Meu pai e Marcos também tinham sido levados. Eu não estava ali por destino, mas por busca.

A viagem terminou com o som metálico de portões se abrindo. Fomos expulsos para fora, sob o sol escaldante, em uma terra de areia, cactos e pedras coloridas. O oceano estendia-se até o horizonte, uma vastidão azul que contrastava com a falta de vida do complexo à nossa frente. Fui empurrada, caí de joelhos na areia áspera, sentindo o sangue escorrer. Não houve piedade.

— Levantem! O Chefe quer vê-los à noite — gritou um homem barbudo.

Fomos levados para um celeiro, lavados como gado e vestidos com túnicas vermelhas — a cor do sangue, a cor do sacrifício. Na manhã seguinte, o verdadeiro horror começou. Fomos arrastados para uma sala repleta de armas e pessoas ricas que nos olhavam como se fôssemos entretenimento.

Um homem jovem de cabelos dourados, Jorge, sugeriu nos levar para um "campo de caça". Sua irmã, Rute, preferia escravas. A tensão era insuportável até que uma senhora de idade, cuja aura de poder fazia o ar parecer pesado, entrou no recinto. Ela era a autoridade máxima ali.

— Hoje irei apenas assistir — disse ela, acomodando-se em sua cadeira como uma rainha em seu trono.

O homem de barba, sentindo o aval da matriarca, sorriu para os guerreiros que aguardavam nas sombras.

— Levem-nas para o campo. Aquela que sobreviver com o maior número de vidas garantirá a promoção de seu padrinho. Que comece a competição.

Olhei para Julie, que tremia ao meu lado. Minha mão buscou o grampo escondido no meu cabelo. Se o amor verdadeiro era a chave para acabar com a noite, eu não sabia. Mas eu sabia que, para encontrar meu pai, eu teria que aprender a matar antes que o sol se pusesse novamente.

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