Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu havia comprado aquele apartamento algum tempo atrás. Havia algo naquele lugar que me pareceu certo desde o primeiro instante, mesmo quando Frederick não conseguiu enxergar valor algum ali.
E, assim que cruzei a porta do apartamento pela primeira vez sozinha, compreendi o motivo.
Aquele lugar tinha algo que a mansão nunca conseguiu me oferecer.
Liberdade.
Um sorriso leve surgiu em meus lábios enquanto observava o ambiente silencioso ao meu redor.
Não havia empregados circulando. Não havia olhares. Não havia tensão.
Apenas paz.
Servi uma taça do meu Cabernet Sauvignon-Malbec, caminhei lentamente até a varanda e respirei fundo. O vento do final da tarde tocou meu rosto com suavidade.
Por alguns segundos, apenas fiquei ali, sentindo uma estranha sensação de recomeço crescer silenciosamente dentro do peito.
Ergui a taça em um brinde solitário.
— À minha vida de verdade… — murmurei baixinho, como se estivesse selando um pacto comigo mesma.
Foi nesse instante que meu celular começou a tocar.
Ao olhar para a tela e encontrar o nome da minha filha, atendi imediatamente.
— Oi, meu amor!
Minha voz saiu carregada de saudade.
— Mãe… — a voz suave de Eduarda atravessou a linha. — Eu vi a notícia. Você está bem?
Meu peito se apertou na mesma hora. A humilhação ainda doía. Mais do que eu gostaria de admitir.
Eduarda sempre fora perceptiva demais. Talvez exatamente por isso tivesse escolhido sair de casa tão cedo.
— Estou, meu amor… ou pelo menos tentando ficar.
Respirei fundo antes de continuar.
— Eu pedi o divórcio ao seu pai.
Houve alguns segundos de silêncio do outro lado da linha. Então um suspiro baixo atravessou a ligação. Mas não parecia surpresa.
Parecia alívio.
— Até que enfim, mãe… — a emoção na voz de Eduarda apertou meu peito. — Eu só queria que a senhora tivesse feito isso antes… por você.
Um sorriso pequeno surgiu em meus lábios.
Pela primeira vez desde que tudo acontecera, não senti culpa ao ouvir aquelas palavras.
— Eu sei, filha. Mas ainda não estava pronta.
— A senhora acredita que tudo isso seja verdade? — perguntou depois de um instante. — Que o papai vai ter outro herdeiro?
A pergunta me pegou completamente de surpresa.
Meu sorriso desapareceu imediatamente.
Outro herdeiro?
Aquilo era novidade para mim.
— Duda… eu realmente não sei o que é verdade ou não — respondi com calma, tentando controlar o desconforto que voltou a crescer dentro de mim. — Tenho evitado acompanhar as notícias ao máximo.
Soltei um pequeno suspiro antes de continuar.
— E, se posso te dar um conselho… faça o mesmo.
Do outro lado da linha, houve um breve silêncio antes de Eduarda responder.
— A senhora está certa, mamãe. E… eu estou muito orgulhosa da sua atitude. Apesar de ele ser meu pai, é impossível não ficar decepcionada com tudo o que fez a senhora passar durante todos esses anos.
Fechei os olhos por um instante.
Durante muito tempo, tentei proteger minha filha daquela realidade. Mas, no fundo, talvez ela sempre tivesse enxergado tudo com muito mais clareza do que eu imaginava.
— Supere isso, meu amor — murmurei com suavidade. — A única coisa com que você precisa se preocupar agora é a sua carreira… e a sua felicidade.
— Vou fazer isso, mamãe. Amo a senhora.
— Também amo muito você, minha filha.
Desliguei a ligação sentindo o coração um pouco mais leve, apesar do turbilhão que ainda cercava minha vida.
Naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, consegui deitar sem sentir o peso sufocante do casamento que havia deixado para trás.
Não houve espaço para culpa. Nem para medo. Nem para arrependimento.
Apenas a certeza silenciosa de que eu finalmente havia dado o primeiro passo em direção à vida que sempre quis.
Mas a paz durou pouco.
Já passava da metade da noite quando o celular voltou a tocar.
O número não era local. E também não era de Eduarda. Um pressentimento estranho atravessou meu peito.
Atendi imediatamente — só então percebendo que havia prendido a respiração.
— Senhora Helena Vaughn?
— Sim…
A voz do outro lado da linha era formal.
— Aqui é a polícia de Milão. Precisamos falar sobre sua filha.
Eduarda havia sofrido um grave acidente de carro. Disseram que o carro capotou várias vezes antes de parar completamente destruído à margem da estrada.
Mas foram as palavras seguintes que realmente me dilaceraram — minha filha lutava pela vida em um hospital.
Mal consegui respirar depois que a ligação terminou.
As lágrimas nublavam minha visão, mas eu sabia que não tinha tempo para desmoronar. Precisava chegar até ela imediatamente.
Peguei o celular e tentei ligar para Frederick, mas todas as minhas chamadas foram encaminhadas para caixa postal. Uma após a outra.
Desesperada, abri o MacBook e providenciei um jatinho particular. Naquele momento, pela primeira vez em muitos anos, o sobrenome Vaughn realmente pareceu útil.
Durante o voo, cada minuto se arrastou como uma eternidade. O silêncio elegante da cabine contrastava brutalmente com o caos dentro da minha cabeça.
Eu não conseguia pensar em nada além de Eduarda. Na última ligação. No “eu te amo” que ela havia dito poucas horas antes. E senti medo de verdade.
Quando cheguei ao Hospital San Marco di Milano, meu coração parecia prestes a escapar do peito.
O táxi mal havia parado na entrada quando saltei para fora. Vários jornalistas já se aglomeravam diante do hospital, e bastou um deles me reconhecer para que eu fosse imediatamente cercada.
— Senhora Vaughn! Como está sua filha?
— O acidente foi causado por excesso de velocidade?
— O senhor Frederick Vaughn já chegou à Itália?
Baixei a cabeça e continuei andando sem responder. Perguntas vinham de todos os lados enquanto microfones eram empurrados diante do meu rosto e flashes explodiam ao redor.
Assim que atravessei as portas automáticas do hospital, o barulho ficou para trás. Ainda assim, os olhares curiosos continuaram me acompanhando — mas nada daquilo importava.
Só existia uma coisa que eu precisava naquele momento: saber notícias de minha filha.
Respirando fundo, aproximei-me da recepção e tentei controlar a tremedeira nas mãos antes de me identificar.
— Bom dia, meu nome é Helena Vaughn. Sou mãe de Eduarda Vaughn… preciso falar imediatamente com o médico responsável pelo caso dela.
A atendente lançou-me um olhar carregado de pesar. Talvez soubesse quem eu era. Ou tivesse visto as notícias. Naquele momento, porém, eu já não me importava com nada disso.
Depois de alguns minutos, fui conduzida até um consultório.
Assim que entrei, um homem de cabelos escuros e expressão séria levantou-se para me receber.
— Bom dia, Sra. Vaughn. Sou o médico responsável pelo caso de sua filha, Dr. Luca Moretti.
Assenti rapidamente.
— Dr. Moretti, agradeço por me receber — falei, tentando manter a voz firme apesar da ansiedade que me consumia por dentro. — Qual é a real situação da minha filha? Sou médica, então preciso que o senhor seja completamente honesto comigo.
O médico sustentou meu olhar por alguns segundos antes de responder.
— O acidente de Eduarda foi extremamente grave. A verdade é que foi quase um milagre ela ter sido encontrada com vida.







