A chuva caía sobre Seul como um véu escuro, transformando as luzes da cidade em borrões dourados atrás das enormes paredes de vidro da cobertura de Valentina Azevedo.
Lá embaixo, carros atravessavam avenidas iluminadas enquanto pessoas corriam apressadas pelas calçadas molhadas.
Mas, no alto daquele prédio, tudo permanecia silencioso.
Controlado.
Perfeito.
Valentina observava a cidade com uma taça de vinho intacta entre os dedos. O vestido preto de seda moldava seu corpo com elegância perigosa, e o reflexo no vidro mostrava exatamente a imagem que o mundo conhecia:
A empresária impecável.
A modelo da própria marca.
A mulher que havia transformado a BeautyCrown em uma das empresas de cosméticos mais influentes da Ásia.
Milhões de seguidores.
Capas de revistas.
Contratos milionários.
Todos enxergavam a coroa.
Ninguém enxergava o peso dela.
O celular vibrou sobre a bancada da cozinha.
Valentina desviou os olhos lentamente da paisagem antes de pegar o aparelho.
Mais uma notificação.
Mais uma matéria.
“Valentina Azevedo é apontada como a empresária mais influente do ano.”
Ela fechou a notícia sem terminar de ler.
Não sentia mais nada ao ver o próprio nome estampado em manchetes.
O reconhecimento perdera o brilho há muito tempo.
Atrás dela, passos suaves ecoaram pelo apartamento.
— Você deveria descansar um pouco.
A voz de Yuna Park a sua assistente, atravessou o silêncio cuidadosamente.
Valentina tomou um pequeno gole do vinho antes de responder:
— Pessoas descansadas ficam lentas.
Yuna suspirou discretamente.
Trabalhar para Valentina era como tentar acompanhar alguém que nunca desligava a própria mente.
Ela estava sempre pensando.
Sempre observando.
Sempre um passo à frente.
— O evento de amanhã foi confirmado
informou Yuna.
— Toda a imprensa coreana vai estar lá.
Valentina deixou a taça sobre a bancada e caminhou calmamente até a enorme mesa de mármore no centro da cobertura.
Sobre ela, dezenas de fotografias, contratos e protótipos da nova campanha da BeautyCrown estavam perfeitamente organizados.
Nada naquele apartamento ficava fora do lugar.
Nada fora de controle.
— Os investidores japoneses confirmaram presença? — perguntou ela.
— Sim.
— E os americanos?
— Também.
Valentina assentiu lentamente.
Então seus olhos pousaram em uma fotografia específica no meio dos documentos.
Um homem sorrindo para câmeras.
Bonito.
Popular.
Influente.
Lee Hwan.
O principal rosto da nova campanha da marca.
Yuna percebeu imediatamente a mudança sutil na expressão dela.
— Aconteceu alguma coisa?
Valentina pegou a fotografia entre os dedos delicadamente.
— Ele está mentindo para mim.
Yuna franziu a testa.
— Tem certeza?
— Tenho.
A resposta veio imediata demais.
Assustadoramente segura.
Yuna já havia aprendido a não questionar os instintos de Valentina.
Eles quase nunca erravam.
— Quer que eu investigue?
Valentina observou a foto por mais alguns segundos antes de colocá-la de volta sobre a mesa.
— Ainda não.
Ela caminhou até o corredor principal da cobertura sem pressa, os saltos ecoando suavemente pelo piso claro.
Então parou diante de uma porta fechada.
Yuna ficou imóvel atrás dela.
Nunca entrava naquele cômodo.
Ninguém entrava.
Valentina abriu a porta lentamente.
Lá dentro, o ambiente era completamente diferente do restante da cobertura.
Escuro.
Silencioso.
Frio.
Estantes preenchiam as paredes de cima a baixo, organizadas com precisão obsessiva. Pastas, fotografias, documentos e dezenas de cadernos alinhados cuidadosamente.
Memórias.
Segredos.
Pessoas.
Valentina aproximou-se de uma das prateleiras e retirou um caderno preto.
Na capa, uma única frase escrita em dourado:
“Traições.”
Ela abriu lentamente as páginas já preenchidas por nomes, datas e anotações detalhadas.
Ex-funcionários.
Ex-sócios.
Ex-amigos.
Pessoas que tentaram enganá-la.
Pessoas que desapareceram da vida dela depois.
Yuna observava tudo da porta, desconfortável.
Mesmo após anos trabalhando juntas, aquele lado de Valentina ainda a assustava.
Porque não havia raiva nela.
Nem emoção.
Apenas cálculo.
Valentina pegou uma caneta dourada e escreveu calmamente no final da página:
“Lee Seo-jun.”
Depois fechou o caderno.
O movimento suave contrastava perigosamente com o brilho frio em seus olhos.
— Amanhã vai ser um dia importante — murmurou ela.
Yuna hesitou antes de perguntar:
— Importante para a empresa?
Valentina sorriu de leve.
Mas não foi um sorriso bonito.
Foi o tipo de sorriso que surgia antes de uma tempestade.
— Não.
Ela apagou a luz do cômodo lentamente.
— Importante para descobrir quem merece permanecer perto de mim.