Mundo de ficçãoIniciar sessãocapítulo 4
Isso, por algum motivo, irritou Mia ainda mais. Ela deu dois passos. Dante veio atrás, mas sem invadir seu espaço. — Eu passei do limite? A pergunta mudou o tom. Sem provocação. Mia olhou para ele. A expressão continuava calma, mas a diversão havia desaparecido. Ela respirou fundo. — Não. Dante esperou. — Só não gosto de homens que acham que sabem tudo. — Eu não sei tudo. — Ótimo. — Só sei que você olhou para minha boca três vezes nos últimos dois minutos. Mia sentiu o rosto esquentar. — Eu não fiz isso. — Quatro. — Dante. — Cinco. Ela ergueu a mão como se fosse bater no braço dele. Dante segurou seu pulso antes do toque. Não com força. Apenas rápido. Os dois congelaram. A mão dele envolvia quase completamente o pulso dela. Mia baixou os olhos para o contato. Dante também. O sorriso havia sumido. O polegar dele estava sobre a parte interna de seu pulso. Exatamente onde a pulsação dela provavelmente entregava tudo. — Vai me bater? — ele perguntou. A voz saiu mais rouca. — Estou considerando. — Com essa força? Mia olhou para ele. — Quer testar? Dante se inclinou um pouco. — Talvez. A palavra foi baixa. Quase perdida sob a música. Mia sentiu a respiração prender. Por um instante, nenhum dos dois falou. O barulho da festa pareceu se afastar. Os olhos de Dante desceram. Dessa vez, ela viu. Direto para sua boca. Sem disfarce. Mia deveria puxar o pulso. Não puxou. — Você está fazendo isso de propósito — disse. — O quê? — Me deixando nervosa. — Achei que você não estava nervosa. Droga. Mia puxou o pulso. Dante soltou imediatamente. — Eu vou pegar outra bebida. — A sua ainda está cheia. Mia olhou para a taça que havia deixado numa mesa próxima. — Água. — Posso buscar. — Eu consigo andar. Dante baixou os olhos para os saltos dela. Mia apontou um dedo. — Nem pense. Ele ergueu as mãos. — Não disse nada. — Seus olhos disseram. — Parece que estamos quites. Mia virou-se. Dessa vez, ele não a seguiu. Dante observou Mia atravessar o salão. Deveria ter deixado aquilo terminar ali. Uma mulher bonita. Algumas provocações. Nada extraordinário. Ainda assim, seu olhar acompanhou cada passo dela até o bar. Rafael surgiu ao seu lado. — Isso está ficando divertido. Dante nem virou. — Vá embora. — Você está há quanto tempo falando com ela? — Não sei. — Você sabe. Dante olhou o relógio. 23h06. Quase cinquenta minutos. Estranho. — Não é seu tipo — Rafael comentou. Dante finalmente o encarou. — Desde quando eu tenho um tipo? — Desde sempre. — Ilumine-me. Rafael apontou discretamente com o copo. — Mulheres que sabem exatamente o que querem de você. Dante voltou os olhos para Mia. Ela conversava com o bartender. Gesticulava. Provavelmente reclamando de alguma coisa. — Talvez eu esteja mudando. Rafael riu. — Aí sim eu começaria a me preocupar. Dante ignorou. Havia algo nela. Não inocência exatamente. Era outra coisa. Mia parecia não calcular cada movimento. Não havia aquela avaliação comum. Quem é você? Quanto vale? O que pode oferecer? Ela sequer perguntara seu sobrenome. Aquilo o divertia. Muito mais do que deveria. — Eu vou embora — Rafael disse. — Parabéns. — Você vai? Dante olhou novamente para Mia. — Ainda não. Rafael sorriu. — Foi o que imaginei. Mia bebeu metade do copo de água em poucos segundos. — Está tudo bem? — perguntou o bartender. — Perfeitamente. Ele olhou por cima do ombro dela. Mia nem precisou virar. — Não fale nada. — Eu não disse nada. — Seu rosto disse. — Isso parece estar acontecendo muito com você hoje. Mia estreitou os olhos. — Engraçadinho. O bartender riu e se afastou. Mia respirou fundo. Ela não era uma adolescente. Não havia motivo para agir daquela maneira por causa de um homem bonito. Muito bonito. Irritantemente bonito. Ela pegou o celular. Três mensagens. Uma de sua mãe. Uma do grupo do trabalho antigo. Uma de Alice. ALICE: Você está conversando com ELE??? Mia respondeu. MIA: Quem? A resposta veio imediatamente. ALICE: Não se faça de idiota. MIA: Dante? Os três pontinhos apareceram. Sumiram. Voltaram. ALICE: VOCÊ NÃO SABE QUEM ELE É??? Mia franziu a testa. Antes que pudesse responder, alguém tocou seu ombro. Ela se virou. Não era Dante. Era Alice. — Você precisa me contar. — Contar o quê? Alice olhou ao redor. — Onde ele está? — Quem? — Dante. — Por que todo mundo age como se ele fosse o presidente? Alice piscou. — Você realmente não sabe. — Sei o primeiro nome. Isso costuma bastar numa festa. Alice começou a rir. — O que foi? — Nada. — Alice. — Depois eu conto. — Por que depois? — Porque agora eu quero aproveitar isso. — Aproveitar o quê? Alice tomou o copo da mão dela. — Sua ignorância. — Você é uma péssima amiga. — Eu sou uma amiga maravilhosa. — Não parece. Alice colocou um novo drinque na mão dela. Mia olhou desconfiada. — O que tem aqui? — Quase nada. — Essa frase não significa nada. — Um pouco de álcool. — Alice. — É meu aniversário. — Você está abusando dessa condição. — Bebe. Mia tomou um gole pequeno. Doce. Perigoso. — Só um. — Claro. — Estou falando sério. Alice sorriu. Mia deveria ter reconhecido aquele sorriso. Não reconheceu. Talvez porque, do outro lado do salão, Dante estivesse olhando para ela outra vez. Ele levantou a própria taça numa espécie de cumprimento silencioso. Mia olhou para a bebida em sua mão. Depois para ele. Ergueu a taça também. Dante sorriu. Alice acompanhou a troca de olhares. — Ah, isso vai dar problema. Mia tomou outro gole. — Não vai dar nada. — Tem certeza? — Absoluta. Alice riu. — É assim que começam as melhores decisões ruins. Mia abriu a boca para responder. Não conseguiu. Dante vinha em sua direção. E, dessa vez, quando ele parou diante dela, seus olhos passaram pela nova bebida antes de voltarem ao rosto de Mia. — Achei que ia beber água. — Mudei de ideia. — Percebi. Mia ergueu o queixo. — Algum problema? — Nenhum. Dante se aproximou um pouco. — Só estou me perguntando quantas ideias você pretende mudar esta noite. Mia sustentou o olhar. — Talvez dependa de quem estiver tentando mudá-las. Os olhos dele escureceram. Alice observou os dois por um segundo. Então sorriu para si mesma. — Vou dançar. Mia virou-se rápido. — Alice. — Divirtam-se. — Alice! Tarde demais. Ela desapareceu. Mia ficou sozinha com Dante novamente. Ele inclinou-se para perto de seu ouvido, apenas o necessário para ser ouvido acima da música. — Sua amiga parece gostar de mim. Mia sentiu a barba dele roçar de leve perto de sua têmpora. A respiração falhou. — Ela gosta de problemas. Dante recuou apenas o suficiente para olhar para ela. — Então talvez esteja certa. — Sobre você ser um problema? — Sobre você se divertir. Mia olhou para a boca dele. Uma vez. Dante percebeu. Dessa vez não comentou. Apenas estendeu a mão. — Vem. Mia observou a mão. — Para onde? — Descobrir se você consegue passar cinco minutos sem discutir comigo. — Impossível. — Eu gosto de desafios. Ela deveria recusar. Em vez disso, colocou a mão na dele. Dante entrelaçou os dedos nos seus e a conduziu para longe do bar. Mia o seguiu. Sem saber ainda para onde. E, naquele instante, também sem se importar muito.






