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Tire os olhos da minha noiva

POV: Damon

Henrique me acertou contra a parede antes que a porta do corredor terminasse de fechar.

O impacto fez um quadro vibrar atrás da minha cabeça.

Eu poderia ter reagido.

Não reagi.

Apenas olhei para a mão dele agarrada à lapela do meu paletó e depois para seu rosto.

“Terminou?”

“Fique longe dela.”

A música da festa chegava abafada pelas portas duplas. Do outro lado, dezenas de convidados ainda brindavam ao futuro perfeito de Henrique Bastos.

Naquele corredor, a perfeição estava com a mandíbula travada e cheiro de champanhe.

“De quem?”

Ele me empurrou outra vez.

“Não brinque comigo, Damon.”

“Você precisa ser mais específico. Há muitas mulheres nesta festa e, segundo minha reputação, estou interessado em todas.”

“Valentina.”

O nome dela saiu possessivo.

Como se Henrique tivesse comprado o direito de dizê-lo.

A vontade de retirar sua mão do meu paletó aumentou.

“Minha noiva”, ele completou. “Tire os olhos dela.”

Sorri sem humor.

“Você deveria estar mais preocupado com os olhos dela.”

A mão de Henrique apertou o tecido.

“Está insinuando alguma coisa?”

“Estou dizendo que Valentina percebe mais do que você imagina.”

Principalmente quando alguém esconde o telefone depressa demais.

Eu havia visto o movimento no salão. Vira a tensão no rosto dela. A forma como os ombros ficaram rígidos antes de Henrique conduzi-la para a fotografia.

Também vira a tela do aparelho brilhando entre os dedos dele.

Não o conteúdo.

Ainda não.

“Ela está cansada das suas cantadas”, Henrique disse.

“Foi o que ela contou?”

“Eu conheço Valentina.”

Uma risada curta escapou antes que eu pudesse conter.

Henrique me soltou.

“Qual é a graça?”

Ajeitei o paletó devagar.

“Você.”

“Cuidado.”

“Você a conhece tão bem que esqueceu de mencionar o trabalho dela no discurso.”

O golpe encontrou o alvo.

O rosto dele endureceu.

“Esta noite era sobre a empresa.”

“O projeto de Lisboa foi dela.”

“Foi desenvolvido pela equipe.”

“Liderada por Valentina.”

“Por que isso importa tanto para você?”

Porque ela passara duas noites sem dormir revisando aquela proposta.

Porque havia ligado para Aurora às três da manhã depois de o conselho rejeitar sua primeira versão.

Porque, no jantar da semana anterior, Henrique recebera os elogios enquanto Valentina sorria em silêncio.

Eu sabia de tudo isso sem que ela tivesse me contado.

Observei.

Sempre observei.

“Importa porque alguém deveria dizer o nome dela quando usa o trabalho dela para parecer brilhante.”

Henrique deu um passo na minha direção.

“Você está ultrapassando limites.”

“E você está desperdiçando uma mulher que não percebe o próprio valor quando está ao seu lado.”

O silêncio entre nós ficou pesado.

Eu deveria ter parado.

Não parei.

“Cuide melhor do que tem.”

Os olhos dele se estreitaram.

“Ou você vai fazer isso?”

Minha boca quase respondeu antes do bom senso.

Eu faria.

Melhor do que ele.

Veria Valentina. Não o sobrenome, as ações da família ou a imagem que ela oferecia em eventos. Veria a mulher que cruzava os braços quando estava insegura. Que dizia odiar sobremesas e sempre roubava a primeira colher do prato de Aurora. Que permanecia até o fim das reuniões mesmo quando homens menos preparados falavam por cima dela.

Mas admitir qualquer parte daquilo significaria entregar mais do que eu podia.

Então vesti a máscara de sempre.

“Posso cuidar dela durante uma noite, se isso ajudar. Minha agenda está livre depois da meia-noite.”

Henrique avançou.

Eu segurei seu pulso antes que ele me tocasse de novo.

Desta vez, não sorri.

“Não confunda minha paciência com fraqueza.”

Ele tentou se soltar.

Apertei apenas o suficiente para fazê-lo entender.

“E não use esse tom comigo porque não consegue controlar a própria noiva.”

“Valentina não precisa ser controlada.”

“Finalmente concordamos em alguma coisa.”

Soltei-o.

Henrique esfregou o pulso e me encarou com ódio.

“Você acha que pode ter qualquer mulher porque tem dinheiro e um sobrenome famoso.”

“Você acabou de descrever metade dos motivos pelos quais sua família aprovou seu casamento.”

O rosto dele perdeu a cor por um segundo.

Interessante.

Antes que eu pressionasse, a porta se abriu.

Nicolas surgiu no corredor, avaliou a distância entre nós e suspirou.

“Devo buscar gelo ou um advogado?”

“Depende de quem der o primeiro soco”, respondi.

Henrique lançou um olhar cortante para mim.

“Isso acaba hoje.”

“Concordo. Pare de agir como se Valentina fosse um prêmio que você ganhou.”

“Ela me escolheu.”

A frase atingiu mais fundo do que deveria.

Mantive o rosto neutro.

“Então faça por merecer.”

Henrique saiu sem responder.

Nicolas esperou a porta fechar.

“Você tem um talento especial para ameaçar homens sem parecer que está ameaçando.”

“Foi uma conversa civilizada.”

“O quadro torto discorda.”

Ele se aproximou e endireitou a moldura atrás de mim.

“Você quase contou.”

“Contei o quê?”

“A verdade.”

Soltei um suspiro.

“Não comece.”

“Você acabou de defender a carreira, a inteligência e a autonomia da noiva de outro homem.”

“Qualquer pessoa decente faria o mesmo.”

“Serena sabe disso?”

O nome dela me fez olhar para a porta.

Serena desaparecera do salão pouco antes de Henrique me seguir. Talvez estivesse no toalete. Talvez em alguma reunião improvisada.

Talvez eu simplesmente não soubesse onde minha própria noiva estava.

“Ela sabe que não sou ciumento.”

“Isso não foi o que perguntei.”

Ignorei.

Voltamos ao salão.

Valentina posava para fotografias ao lado dos pais de Henrique. Seu sorriso estava perfeito outra vez, mas a mão esquerda apertava a lateral do vestido.

Ela me encontrou entre os convidados.

Seus olhos desceram para minha lapela amassada.

Depois voltaram ao meu rosto.

Pergunta silenciosa.

Respondi com um leve movimento de cabeça.

Estou bem.

Valentina não desviou imediatamente.

Henrique surgiu ao lado dela e colocou uma mão em sua cintura. Desta vez, mais suave. Provavelmente porque eu havia chamado atenção para o gesto.

Ela olhou para ele.

Eu deveria ter feito o mesmo.

Em vez disso, fiquei preso à expressão dela.

Ao modo como seu corpo permanecia rígido sob a mão do homem com quem pretendia se casar.

“Pare de encarar”, Nicolas murmurou.

“Estou observando.”

“É assim que perseguidores chamam isso.”

Meu telefone vibrou, mas não o tirei do bolso.

Henrique fez o contrário.

O aparelho brilhou em sua mão enquanto o fotógrafo reposicionava a família.

Ele leu a mensagem.

Seu rosto mudou.

Não foi uma reação de irritação profissional ou preocupação financeira.

Foi intimidade.

Reconhecimento.

Culpa.

Henrique virou discretamente o corpo para esconder a tela de Valentina.

Não de mim.

Do outro lado do salão, Serena estava perto das portas da varanda, segurando o próprio telefone.

Ela ergueu os olhos.

Encontrou os de Henrique.

E sorriu.

O celular dele ainda estava aceso.

Desta vez, consegui ler o nome no topo da mensagem.

Serena.

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