Mundo de ficçãoIniciar sessãoSebastian
O dia ainda nem tinha clareado direito quando acordei.
Não precisei de despertador. Nunca precisei.
Há anos meu corpo aprendeu que dormir demais é um luxo que homens na minha posição não podem ter.
Levantei da cama e caminhei até a janela do meu apartamento no último andar. A cidade começava a despertar lá embaixo, as luzes dos carros formando linhas intermináveis nas avenidas.
Era estranho pensar que tudo aquilo… de certa forma… fazia parte do meu mundo.
Minha empresa.
Minha responsabilidade.
Minha herança.
Passei a mão pelo rosto e fui até a cozinha pegar café.
A Hale Corporation não começou comigo.
Começou com meu pai.
Um homem que construiu tudo do zero.
Quando ele morreu, alguns anos atrás, eu tinha apenas vinte e três anos. Jovem demais, segundo muita gente, para assumir algo daquele tamanho.
Mas meu pai já tinha pensado nisso.
Desde os meus dezesseis anos ele havia pedido ao seu melhor amigo e padrinho que começasse a me treinar.
Richard Whitmore.
O homem que praticamente me ensinou tudo que sei sobre negócios.
Enquanto muitos garotos da minha idade estavam preocupados com festas ou faculdade… eu estava sentado em salas de reunião aprendendo sobre investimentos, fusões e negociações.
Na época eu odiava.
Hoje eu entendia.
Peguei meu terno no armário e comecei a me arrumar.
Agora, aos vinte e sete anos, a empresa era minha.
E Richard dizia constantemente que meu pai teria orgulho.
Ainda assim, às vezes eu me perguntava se ele realmente teria.
Terminei de ajeitar o nó da gravata e peguei as chaves do carro.
O trânsito da manhã já começava a se formar quando saí da garagem do prédio.
Minha mente estava ocupada com a reunião que teria naquela manhã. Um investimento grande que poderia expandir a empresa para outro estado.
Nada fora do comum.
Era apenas mais um dia.
Até que ela apareceu.
Do nada. Na entrada da empresa.
Uma figura atravessou a rua correndo direto na frente do meu carro.
Pisei no freio com força.
Os pneus chiaram contra o asfalto.
— Merda!
O carro parou a poucos centímetros dela.
Meu coração batia rápido quando abri a porta e desci.
— Você ficou louca?!
A mulher estava parada no meio da rua, claramente assustada.
Ela tinha os olhos vermelhos.
Estava chorando.
— Me desculpa…
Disse rapidamente, passando a mão pelo rosto.
— Eu… eu não estava olhando.
Minha irritação ainda estava ali quando levantei os olhos para o rosto dela.
E então tudo parou.
Por um segundo, eu simplesmente fiquei olhando.
Porque aquilo não fazia sentido.
Não podia fazer.
Meu estômago apertou.
Aquele rosto.
Aquele formato de olhos.
Aquela expressão.
Era impossível.
— Cassandra…?
A palavra escapou da minha boca antes que eu percebesse.
A mulher franziu a testa, confusa.
— Desculpa?
Minha mente levou alguns segundos para voltar ao presente.
Não.
Não era ela.
Claro que não era.
Mas a semelhança era perturbadora.
Cassandra Beaumont.
O nome ecoou na minha cabeça como um fantasma que eu preferia manter enterrado.
A mulher que me deixou anos atrás.
A mulher que decidiu que eu… não tinha futuro suficiente.
Ela trocou nosso relacionamento por outro homem.
Um homem mais rico.
Mais poderoso.
Mais promissor.
Pelo menos segundo ela.
Voltei a olhar para a garota à minha frente.
As roupas eram simples. Gastas.
Nada nela lembrava o mundo de Cassandra.
Ainda assim… havia algo naquele rosto.
Algo que fazia meu peito apertar de uma forma irritante.
— Eu realmente sinto muito.
Ela disse novamente, visivelmente constrangida.
— Eu não queria causar problema.
Então ela simplesmente se virou e começou a andar pela calçada.
Sem pedir dinheiro.
Sem pedir ajuda.
Sem nem olhar para trás.
Fiquei parado ao lado do carro por alguns segundos.
Observando ela se afastar.
Algo naquela cena me incomodava.
Entrei novamente no carro e continuei dirigindo até a empresa.
Mas durante toda a reunião…
Enquanto os executivos falavam…
Enquanto gráficos eram apresentados…
Enquanto Richard discutia números ao meu lado…
Minha mente continuava voltando para a mesma imagem.
Aquela mulher.
Aquele rosto.
E a forma como, por um instante impossível…
ela parecia exatamente com Cassandra.
...







