Carmem trocou de roupa três vezes. Na quarta, irritou-se consigo mesma.— É um jantar.Disse isso olhando para o espelho. O problema era justamente aquele. Não era apenas um jantar. Era Rafael. Era o garoto do portão. O homem do tribunal. O beijo que ficara guardado por anos em algum lugar da memória. Escolheu um vestido preto elegante, de corte simples, que acompanhava seu corpo sem revelar demais. O tecido macio marcava a cintura e se movia com leveza quando ela caminhava. Carmem escolheu brincos pequenos, um perfume floral de fundo amadeirado e sandálias de salto médio — elegantes o suficiente para fazê-la sentir-se bonita, confortáveis o bastante para que ainda se reconhecesse no espelho. Prendeu os cabelos. Soltou. Prendeu novamente.No fim, deixou-os soltos. Quando o interfone tocou, seu coração respondeu antes dela. Rafael estava esperando no térreo. Não subira. Carmem gostou disso. Quando saiu do elevador, ele se levantou. Por alguns segundos, apenas a olhou.— Não diga nada —
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