Júlia Cavalcante O crepúsculo de São Paulo, geralmente cinzento e apressado, decidiu abrir uma exceção para nós naquele sábado. O céu não era apenas um teto sobre nossas cabeças; era uma tela pintada à mão, onde tons de pêssego, lavanda e ouro se fundiam em uma promessa de que a beleza, afinal, sempre encontra uma maneira de romper as nuvens.Eu estava no andar de cima da mansão que Lian havia, com tanta determinação, recuperado do passado. O espelho de corpo inteiro diante de mim refletia uma mulher que eu mal reconhecia, mas que amava profundamente. O vestido de noiva era de uma simplicidade elegante, de seda pura, caindo suavemente pelas minhas curvas, mas o seu verdadeiro poder residia nas costas. Ali, bordado com fios de prata e pérolas discretas, estava o brasão da minha família.Eu fechei os olhos por um momento, tocando o bordado com a ponta dos dedos. Minha memória deles, de papai e mamãe que era uma névoa suave, feita mais de sensações do que de imagens nítidas. Eu me lembr
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