POV:Estela Os dias que antecederam o evento passaram como um borrão mal recortado. Eu acordava e dormia sem saber exatamente onde um dia terminava e o outro começava. Às vezes, só percebia a passagem do tempo porque Isa estava na mesa do café, porque minha mãe insistia em rezar antes de dormir, porque Catarina aparecia com sacolas, comida pronta ou apenas aquele olhar que dizia eu estou aqui — mesmo quando eu não conseguia dizer nada. Isa tentava agir como se tudo estivesse normal. Ria alto demais. Falava rápido demais. Me observava quando achava que eu não estava vendo. E eu observava de volta. Procurava fissuras. Tremores. Qualquer sinal de que algo tivesse sido quebrado por dentro e não tivesse voltado ao lugar. Mas ela dizia, repetia, insistia: — Eu tô bem, Estela. De verdade. Minha mãe acreditava porque precisava acreditar. Eu… eu queria acreditar. Catarina ficou comigo quase todos os dias. Cozinhava, organizava, reclamava quando eu esquecia de comer. Em algum momento,
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