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27 chapters
Capítulo 1
 O clima gelado era cada vez mais notável. O velho ônibus bufava uma fumaça acinzentada muito densa e, com certeza, qualquer um que viesse atrás não poderia enxergar um palmo à frente do para-brisa. A vegetação era muito diferente de onde os dois estavam saindo. O que antes era verde-vivo, agora beirava o preto e branco da neve e das folhas murchas. Um sol fraco beijava as copas das árvores que pareciam não se incomodar e só faziam acumular mais neve.Heitor e sua mãe vinham de um país vizinho, um país mais verde e mais quente. Mais aconchegante, talvez. Chamava-se: Brigada e em nada se parecia com o lugar que atravessavam agora. Por mais que fossem vizinhos, os dois países eram totalmente diferentes. Heitor notou que, enquanto saíam de Brigada, a vegetação tornara-se escassa e que o clima desértico perdeu espaço mais à
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Capítulo 2
  O dia clareou, mais frio que o dia anterior e Heitor mal conseguiu abrir os olhos devido à luz do dia que escorregava dentre a janela redonda e pousava sobre suas pálpebras. Coçou o cabelo perfeitamente alinhado que, mesmo depois do sono, acordara com o topete completamente submisso. Ergueu o tronco e notou algumas vozes vindas do andar de baixo onde, provavelmente, Antonella conversava com alguma visita. Meio sem jeito pela sonolência vestiu sua jaqueta de couro-brigiano e sua boina inseparável e partiu degraus abaixo, rumo à cozinha. As vozes foram subitamente ofuscadas pelos ruídos dos degraus e madeira velha, mas logo voltaram à tona quando o garoto surgiu do corredor. — Querido, você tem uma visita. — Antonella, que agora cortava algumas cebolas sobre o balcão, fez um aceno com a cabeça para que Heitor olhasse à volta. — Dona Valentina! — Disse o menino — A senhora está magnífica! E não pude deixar de notar as belas lantejoulas em seu cabe
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Capítulo 3
Os dois outros dias passaram como um sopro forte, Heitor começara a acostumar-se com o frio e, como se o clima tentasse pregar-lhe uma peça, o sol nasceu maior e mais quente que nunca. Ao debruçar-se para ficar sentado em sua cama Heitor notou que o gelo acumulado do lado de fora da janela redonda agora derretia. Um sorriso quase involuntário imprimiu-se em seus lábios. Não precisaria mais andar embrulhado em camadas de panos como fizera desde que chegara.Levantou-se e rumou para a cômoda ao lado da janela, pegou sua velha boina e pôs-se à frente do espelho na porta do guarda roupa.“Não” — Pensou o menino passando as mãos pelos grossos fios de seu cabelo escuro. — “Desculpe, velha amiga.”Posou-a de volta acima da cômoda e vestiu sua velha jaqueta de couro preta. Seguiu, então, para o corredor e desceu os degraus que rangiam como se senti
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Capítulo 4
— Sim? — Disse o garoto, num espanto.— Você vai responder ou só sabe sair por aí quebrando vidraças?Heitor apertou as mãos, era um absurdo o professor falar com ele daquela maneira, sem nunca tê-lo visto antes.— Qual a pergunta?O professor mordeu os lábios, mas pareceu respirar fundo e acalmar-se antes de prosseguir:— Qual o país que tem a maior fronteira com São Havier?— Brigada. — Heitor respondeu voltando os olhares para a garota, que em momento algum tirou os olhos do caderno, ao qual parecia desenhar alguma coisa. O professor ficou calado por alguns segundos, provavelmente incrédulo pela resposta correta.— Um ponto à menos na média.— O quê? Mas eu respondi certo! — Heitor disse, desviando os olhares da menina.— Mas estava babando pela srta. Delamare durant
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Capítulo 5
Os garotos seguiram a pé para o grande lago, não demorou apenas quinze minutos como dissera Ícaro. Heitor teve a impressão de caminhar por no mínimo uma hora, talvez fosse o peso das bebidas em sua mochila, mas dali alguns minutos o garoto não aguentaria mais andar. Logo pode enxergar o azul à frente. O lago parecia calmo, e era realmente muito grande; quase não se via a outra margem, exceto por uma linha finíssima traçada sob o horizonte. — Aqui está ótimo. — Afonso disse, largando a mochila sobre a grama muito verde. — Parece que estamos sozinhos, ótimo! Heitor não conseguiu nem raciocinar, no que pareceram segundos, Marcus havia colocado uma música altíssima para tocar. Algo parecido com punk-rock socou os tímpanos do menino e todos os três largaram as camisetas e calças e se lançaram ao rio. Heitor ficou parado, sem compreender. — Vem, idiota! — Heitor viu as mãos dos garotos chacoalhando para cima e não pensou duas vezes. Deu um último go
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Capítulo 6
O clima quente arrancava toda a energia de Heitor enquanto ele varria toda a padaria. Seu Omar já havia ido embora e sua mãe estava preparando a primeira fornada para entregas. Alguns minutos depois Antonella surgiu atrás do balcão estendendo-lhe a cesta com os pães.— Estes são para seu Héctor, o bibliotecário. Quando voltar tem outra entrega para o sr. Tirante. — O garoto fez uma cara de tédio e ela acrescentou, rapidamente — É aqui do lado.O sorriso da mulher melhorou, de certa forma, o seu dia. Heitor recolheu a cesta de pães e pôs-se à caminhar pela calçada que, sem a neve, parecia menos abandonada. Agora haviam mais pessoas na rua, do outro lado da calçada Heitor viu a velha sra. Joel carregando algumas batatas; andava tão devagar que parecia em câmera lenta. Acenou para Heitor e entrou na pequena casa que morava com sua neta.Heitor seguiu caminhando, a biblioteca não ficava tão perto da padaria de sua mãe. Heitor percebeu isso quando precisou ir pela primeira vez,
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Capítulo 7
Heitor seguiu então para o outro lado, haviam centenas de prateleiras e o garoto começou a pensar o porquê de nunca ter entrado ali. Conseguiu ver títulos de todos os tipos, desde: “Uma viajem com gigantes” à “No pico da neblina” e até alguns livros mais velhos; depois de tirar a espessa camada de poeira pôde ler: “O príncipe Levi e suas estrelas”. Mas uma pessoa sentada em uma das mesas lhe chamou a atenção e, ao aproximar-se um pouco mais, conseguiu reconhece-la.— Quer dizer que a senhorita Áurea passa os intervalos aqui? — Berrou Afonso às costas de Heitor, enquanto corria para sentar-se com ela.— Eu não passo os intervalos aqui. — A menina respondeu com uma voz suave e tímida.— Claro, claro. Que merda você está lendo? — Afonso tentou puxar o livro mas a menina esquivou.Heitor conseguiu ler o título do livro enquanto sentava-se do outro lado da mesa, de frente para os dois.— O que são “Os ideais turcanos”? — O garoto perguntou para a menina e Afonso girou os o
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Capítulo 8
Chegou mais de duas horas atrasado em casa e Antonella já estava dormindo em seu quarto. O menino pôs-se à subir os degraus até seu quarto e largou-se na cama meia iluminada pela luz que aparecia timidamente na janela redonda ao lado da velha cômoda de madeira escura.Quando acordou na manhã seguinte sua mãe não estava em casa, o garoto não se preocupou, sabia que provavelmente a mulher estaria na padaria, adiantando algumas tarefas. Comeu algumas torradas que Antonella deixara para o ele e partiu para o colégio, dessa vez sabia que não chegaria atrasado. Um carro muito bonito; de cor vermelho-azulado atravessou a estrada à toda velocidade, levantando poeira à uns dois metros de altura. Mas Heitor não se deixaria levar por nenhuma distração, chegaria no horário hoje, se não...Mas alguém chamou sua atenção do outro lado da rua
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Capítulo 9
— Engraçado Victória. — Disse Áurea sem olhar para as meninas que soltaram mais risinhos irritantes.— Vim só dar um recadinho. — Liz e Mirela seguraram os risos com a mão e Victória continuou. — Fique longe dele, já tem dona e — Seus olhos pousaram nos cabelos da garota. — você não ficaria contente se essa coisa que você chama de cabelo ficasse... como posso dizer... grudados.As meninas explodiram em risadinhas e Afonso, que se encontrava atrás de Heitor, riu exageradamente alto. Heitor não conseguia suportar, aquelas garotas eram repugnantes e o fato de Afonso gostar daquilo...— Então, estamos entendidas? — Victória disse, agora com um sorriso maléfico.Áurea não respondeu, ainda tentava guardar o livro na mochila, mas a vergonha e a raiva pareciam lhe ter roubado suas capacidades mo
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Capítulo 10
O parque ficava literalmente de frente à biblioteca e hoje estava cheio de pessoas. Muitos do colégio; Heitor conseguiu reconhecer Liz e Mirela que estavam, pela primeira vez, sem Victória Romênia e davam risinhos para um garoto loiro que Heitor lembrava ser um ano mais velho. Reconheceu também Angelina, uma menina de cabelos escuros e olhos castanho-claros muito bonita. A garota deu um sorrisinho para ele quando o viu. E, mais à frente, Áurea sentada em um banquinho ao lado de Icaro que ria feito uma criança que acabara de receber um aviãozinho de brinquedo, ou como Heitor, quando ganhava doces.Um calor subiu pelas pernas de Heitor, Icaro era o tipo de garoto que babava por Victória e Heitor sabia que, se menina estivesse ali, era muito provável que Icaro se juntasse à ela para zombar de Áurea.Sem pensar Heitor seguiu em direção aos dois, os olhos fixos em Icaro e
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