Olhei para Thiago, quase achando que tinha ouvido errado.
Tinha sido ele quem disse que não aguentava mais me ver grudada nele e dependendo dele para tudo.
E também tinha sido ele quem me mandou aquele aplicativo estranho de IA.
— Por que eu deveria contar para você?
Minha pergunta deixou Thiago sem resposta por alguns segundos.
A expressão dele ficou mais fechada.
— Seus pais vão mesmo deixar você viajar sozinha?
Não sei por quê, mas, naquele instante, me lembrei da IA no meu celular.
— Quem disse que eu vou sozinha?
Thiago soltou uma risada baixa, claramente sem acreditar.
— Eu conheço você. Antes, até para ir ao supermercado aqui perto você precisava que eu fosse junto. Quem mais viajaria com você? Mesmo que seus pais deixem, minha mãe também...
Antes que ele terminasse, o celular tocou.
Era Lívia, mãe dele.
Eu tinha problemas de audição.
Mesmo usando aparelho auditivo, eu não conseguia entender direito o que ela dizia do outro lado da ligação.
Mas, pela expressão cada vez mais irritada de Thiago, não era difícil imaginar.
Lívia queria que ele fosse comigo para a Ilha das Águas Claras.
Na verdade, Thiago poderia simplesmente ter recusado.
Mas, depois de desligar, apenas soltou um suspiro.
— Pelo visto, não vou conseguir me livrar de você.
Fiquei imóvel.
Eu entendia por que Lívia tinha feito aquilo.
Quando éramos crianças, meu problema de audição ainda não era tão grave quanto agora.
Certa vez, Thiago estava brincando com uma cornetinha de festa.
Sem pensar, ele soprou o brinquedo de repente bem ao lado do meu ouvido e ainda gritou meu nome.
Na mesma hora, tampei os ouvidos e comecei a chorar.
Pouco depois, me levaram para o hospital.
O resultado dos exames não foi bom.
Desde então, eu provavelmente teria que usar aparelho auditivo por muitos anos para conseguir levar uma vida normal.
Meus pais não culparam Thiago.
Lívia, porém, ficou furiosa.
Deu uma bronca séria nele e obrigou o filho a fazer uma promessa na minha frente.
— Eu, Thiago, prometo que, vai cuidar bem da Letícia, tratar ela direito e nunca maltratar ela de agora em diante.
Naquela época, Thiago tinha apenas seis anos.
Chorava tanto que os ombros tremiam, sem entender de verdade o peso daquela promessa.
Só que, para surpresa de todos, ele realmente cumpriu.
Dos seis aos dezoito anos, eu me acostumei completamente a depender dele.
Éramos tão próximos que, muitas vezes, nem precisávamos dizer nada para saber o que o outro estava pensando.
Por isso, eu também sempre soube que Thiago tinha começado a gostar de Olívia.
Devia ter começado uns três meses antes do ENEM.
Olívia sempre ficava entre os últimos colocados da turma, mas, de repente, começou a estudar para valer.
Na época, Thiago não levou aquilo muito a sério.
Enquanto descascava um ovo para mim, comentou em voz baixa:
— Só agora resolveu se preocupar? Ela acha mesmo que vai conseguir recuperar o que os outros estudaram durante três anos em apenas três meses? Não suporto gente assim.
Antes disso, ele realmente não gostava de Olívia.
Ela vivia chegando atrasada, faltava às aulas e também costumava causar confusão durante as aulas.
Até que, um dia, Thiago encontrou Olívia na curva de uma escada.
As provas simuladas que ela carregava caíram no chão e se espalharam por toda parte.
Thiago viu que todas estavam cheias de anotações, correções e observações, com praticamente cada espaço em branco aproveitado.
A partir daquele dia, os dois começaram a se aproximar aos poucos.
Um mês antes do ENEM, Thiago chegou a incluir Olívia no nosso grupo de estudos, que até então era formado apenas por nós dois, porque queria ajudar ela a entrar na faculdade.
Foi também a partir daí que ele começou a prestar cada vez menos atenção em mim.
Pensando bem, então, não era difícil entender por que depois ele quis manter distância.
Depois de colocar tudo isso em ordem na cabeça, respirei fundo.
— Você não precisa ir comigo. Eu explico para Lívia.
Thiago ergueu de leve o canto da boca e tirou uma passagem aérea do bolso.
Então virou para Olívia.
— Eu ainda estava pensando se ia com você ou não. Agora, pelo visto, não tenho escolha.
Os dois trocaram um olhar e sorriram.
Em silêncio, abri o aplicativo de IA no celular.
[Por que estou com a sensação de que virei a pessoa sobrando no meio desse clima entre os dois?]
A resposta chegou quase imediatamente.
[Pelo que você contou, realmente não parece uma situação muito boa.]