CAPÍTULO 6

Beatrice

Sentei no sofá apesar de conhecer cada ponto do perímetro, o Diretor Miles se encontrava na sua cadeira olhando pra mim como se já até soubesse do que eu vinha falar.

— Tutor?! Sério Diretor Miles, pensei que fossemos amigos — usei meu tom magoado.

— É por isso mesmo que eu decidi, fomos a concelho, a maioria das suas notas  estão abaixo da media e por causa das suas criticas irremediáveis quase foi reprovada por indisciplina, atrasos, e notas más ao longo do ano.

— Não me lembro de ter criticado ninguém — me fiz de desentendida.

— E sua professora de espanhol?

— Ela estava usando um salto verde, néon, é um crime contra a moda — argumentei.

— Seu professor de historia?

— Ele tinha um ninho de gato da cabeça, ele deveria ter penteado o cabelo de manhã — partilhei minhas suspeitas.

— Seu professor de biologia?

— Ele estava de chinelos, numa escola — gesticulei com as mãos mostrando o quão era grave.

— E a sua professora de matemática?

— Já viu o aplique de quinta dela?! — levantei da cadeira e mesmo sinalizou para que eu me voltasse a sentar.

— Você mesmo fez uma petição á dois ano atrás sobre os códigos de vestuário — relembrou e eu tive que me segurar para não revirar os olhos.

— Diretor, meu pai e muitos estudantes pagam horrores para estudarmos aqui, esse tipo de roupa não é adequado para uma escola desse patamar — reclamei e ele suspirou talvez cansado — quando eu fiz a petição foi com intenção de que os estudantes pudessem usar seu estilo, não largado e isso também não se atribuía ao professores.

— Quanto a isso, não há nada que eu possa fazer — finalizou e eu bufei com seu veredito.

[...]

A casa estava completamente vazia, lembro que hoje minha irmã e minha mãe iam ter uma tarde de mulheres junto com outras mães e filhas, elas faziam isso uma vez por mês. Mamãe nunca chegou a me convidar pra ir, eu até gostaria, elas deveriam fazer as unhas, os cabelos, contar fofocas, tudo o que eu gostava, mas nunca cheguei a ser convidada, se bem que não era assim que a coisa funcionava, era uma tradição das famílias da alta sociedade, minha família pertencia á alta sociedade, mas eu não pertencia a isso, não porque não tivesse o sobrenome Connor, mas porque eu não era a escolhida da minha mãe.

— Tilly — chamei a empregada.

— Sim senhorita? — disse ao se aproximar.

— Coloque o almoço na mesa, por favor! — disse e a mesma assentiu.

Sentei na mesa e comecei a comer, olhei para os lados e me vi sozinha, completamente sozinha, papai só chegava depois do seu trabalho e eu até poderia convidar minhas amigas fúteis para virem cá, mas além de ter que estudar com o senhor esquisito daqui a pouco, tenho certeza que elas estariam almoçando com suas mães naquela tarde de mãe e filha. Um dia Chloe até me perguntou porque eu nunca aparecia, eu respondi que eu odiava esse tipo de programa com mães, tinha mais o que fazer, mas na real... eu estava morta de inveja por Genevieve sempre ter participado e eu não, e de tanto pensar nisso, eu nem havia percebido que algumas lágrimas vivas estavam caindo, e por incrível que pareça, não eram lágrimas falsas, eram verdadeiras o que me fazia sentir que essa não era Beatrice.

A campainha tocou e eu limpei o meu rosto rapidamente. Tilly foi abrir a porta e logo apareceu Zack Parker, eu até estranhei sua chegada, supostamente nossos estudos seriam daqui a uma hora.

— Desculpa ter chegado tão cedo, mas eu queria saber se podíamos começar agora, é que eu tinha um compromisso à tarde.

Até Zack Parker tinha o que fazer... e eu não, o que posso fazer? Apesar de ser misterioso eu sabia que ele tinha a vida dele, e eu também tinha a minha, o problema é que às vezes minha vida parecia solitária.

— Eu só vou terminar de comer e já começamos a estudar — disse com um ar de indiferença — quer almoçar? — perguntei torcendo pra que ele dissesse "sim"

Eu não fazia a menor ideia de estar torcendo para que ele aceitasse, afinal, ele era só o esquisitão da minha escola, mas talvez não me sentisse tão sozinha assim. Se bem que vendo de outra forma, parecia que estava implorando por atenção, assim me fez parecer um pobre coitada, o que claramente eu não sou, apenas desviei os meus olhos dos seus, é claro que ele nunca ia querer almoçar comigo, a patricinha da escola, bom... eu não o censuro, eu própria não almoçava comigo se estivesse no lugar do dele.

— Eu adoro risotto de abóbora — comentou se sentando na cadeira e se servindo me deixando completamente surpresa — o que prefere comer? Fast food ou comida japonesa?

Eu quase não comia fast food e não era pela minha barriga se manter intacta era mesmo porque eu não gostava, desde pequena eu sempre preferi um bom prato de salada ao invés de um hambúrguer cheio de molho.

— Eu prefiro mil vezes comida japonesa, na verdade é a minha preferida — respondi sendo sincera.

— O que? Não!! Não pode ser — disse com os olhos arregalados — você tem algum problema de saúde pra não comer fast food? — disse não acreditando em mim.

— Não eu só... não gosto, porque? É proibido não gostar de fast food? — arqueei a sobrancelha.

— De modo algum, mas é que é quase impossível não gostar de fast food — disse enfiando o garfo na boca — hmm, essa comida ta deliciosa, foi sua mãe que fez? — questionou e eu não consegui não rir.

Ele me olhou meio confuso por minha crise de risos repentina, mas a questão era, minha mãe nunca tocou numa panela na vida, digamos que a minha avó achava muito desnecessário aprender a cozinhar sendo que tinha profissionais de culinária à sua disposição, então ela queria ensinar algo de útil como etiqueta.

— Minha mãe passa longe da cozinha, Tilly é que faz a nossa comida — expliquei quando consegui me acalmar — minha mãe meio que acha isso meio fora da etiqueta, nesse ponto eu concordo com ela.

— Então nunca sentiu vontade de cozinhar?

— Bom... eu já senti vontade na minha infância, mas teve uma dia que eu deixei a cozinha um caos por estar tentando fazer o café da manhã para tentar agradar minha mãe, mas a única coisa que consegui foi deixá-la irritada, além de me proibir de chegar perto de uma cozinha novamente — expliquei enquanto ele me ouvia atentamente e até riu comigo — na hora não foi tão engraçado.

— Foi a primeira vez que te vi rir de verdade — comentou e eu sorri de lado.

— Foi a primeira vez que te vi descontraído.

Seus olhos contra os meus parecia até que ele conseguia minha alma, só me olhando, já eu tudo que consegui notar foi os pequenos pontos de cor de mel no seu olho, seu rosto tinha uma pinta bem no cantinho da sua testa próximo ao cabelo, ela quase nem se notava. Os segundos passaram e aquela troca de olhares já estava se tornando constrangedora.

— Enfim, acho que ela só queria o melhor pra mim — dei uma desculpa não querendo aprofundar no assunto.

— Sua mãe não é muito carinhosa não é? — perguntou agora mais sério, eu apenas abaixei minha cabeça.

Muito pelo contrário, minha mãe é carinhosa... Só não comigo.

— E quem faz comida na sua casa? — perguntei mas logo me arrependi.

Esse tipo de assunto deveria incomoda-lo.

— Eu — falou e eu fiquei de queixo caído — bom... é que tal começamos por biologia hoje? — perguntou mudando de assunto.

— Por mim tudo bem.

Perguntar sobre coisas que nos faziam lembrar de certas memórias do passado, era doloroso, não que eu já tivesse passado por isso, mas eu sei que há coisas que a vida não poupa, como a vida dos pais do Zack, eu não sei como é a dor, mas eu não me imagino sem meu pai, ou até mesmo minha mãe, apesar dela ser como é. Saímos da mesa em direção ao meu quarto que se encontrava todo bagunçado, livros espalhados por todo lado e minha cama não estava feita

— Parece que alguém andou estudando — ele se refiria aos livros em cima da cama.

— Ahh isso, bom... Quando não temos nada pra fazer... — disse como se não ligasse.

— Bom, vamos começar logo — Zack puxou sua mochila para pegar seus livros.

O processo foi o mesmo, Parker me explicou a matéria para logo depois me passar alguns exercícios, enfim eu estava entendendo a matéria, e até estava até me sentindo orgulhosa.

— O que se localiza na membrana e a membrana celular? — perguntou me fazendo pensar um pouco — é constituído por muitas membranas.

— É a Retículo endoplásmatico — rebati convencida.

— Uau — sibilou impressionado com minha agilidade — bom... já ta na minha hora — se levantou pegando seus livros.

Olhei para o meu celular que marcava a hora, já eram 06:00 em ponto. Mas já?! O tempo nem pareceu passar para mim, de alguma maneira foi até divertido estudar com Zack Parker.

— O tempo passou rápido dessa vez — comentei meio desanimada.

Se ele fosse embora agora, eu teria que estar por mais algumas horinhas sozinha. Antes de Parker sair porta a fora, ele posicionou a alça da mochila em seu ombro e virou o seu rosto para me fitar.

— Até que pra uma patricinha mimada não está se saindo mal — sua íris verde impenetrável me fascinava, eu queria permanecer o fitando por mais um longo tempo, mas não dava.

O garoto saiu e eu permaneci estática, me sentia na obrigação de responder alguma coisa, sei lá, mas eu não queria deixá-lo ir embora antes de falar alguma coisa. Sai correndo escada a baixo afobada para que ainda o encontrasse antes de ir embora.

— Parker — gritei e o mesmo parou a mão na maçaneta, ele me fitou esperando que eu dissesse algo — eu queria me desculpar pelo dia em que esteve aqui, eu fui grosseira com você, te xinguei de vários nomes.

— Você só que me chamou de idiota.

— Eu também te xinguei na minha cabeça, não pense que eu ia ficar apenas por aquele xingamento — comentei e ele riu.

Não foi um riso forçado, foi um riso aberto o mesmo que deu no almoço, foi descontraído e bonito de se ver. Foi com aquele sorriso que eu me derreti toda, mas, porque raios eu estava tão interessada naquele riso? Talvez porque ninguém além de mim o tinha causado, pelo menos das pessoas da escola, eu era a única.

— Boa noite Parker.

— Boa noite Connor.

Leia este capítulo gratuitamente no aplicativo >

Capítulos relacionados

Último capítulo