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Capítulo 6: Peço demissão
Abri os olhos devagar, como se minhas pálpebras pesassem toneladas.

Por um segundo não soube onde estava. Só vi uma luz branca, branca demais, quase dolorosa. Aquela cor me deu frio na hora — um frio que entrou pela pele, apertou meu peito e me lembrou que eu não estava em casa.

Pisquei várias vezes até as formas ficarem mais nítidas. Uma cama rígida. Um lençol áspero.

Cheiro de desinfetante impregnando o ar. Hospital.

Estava deitada com uma bata azul-claro que deixava meus braços expostos. Me sentia vulnerável. Tão frágil. Como se qualquer coisa pudesse me quebrar de novo. Vi minha mão enfaixada.

E então o vi.

Azkarion D'Argent estava de pé, apoiado na moldura da janela.

Sua figura alta projetava uma sombra alongada que contrastava com a claridade branca do quarto.

Por um instante pensei que estava imaginando, que talvez o trauma estivesse me pregando uma peça. Mas não. Ele estava lá. Imóvel. Silencioso. Como uma estátua esculpida em pedra escura.

— Chefe? — minha voz foi um sussurro fraco, rouco, quase irreconhecível.

Ele se virou devagar. Seus olhos encontraram os meus.

Aquele olhar intenso, penetrante, me percorreu como uma lâmina fria de metal. Não conseguia acreditar que ele estava ali, num hospital, me acompanhando.

Minha cabeça latejava e eu me sentia estranha, como se minha mente ainda estivesse presa no eco do horror da noite anterior.

Azkarion me observou em silêncio por alguns segundos.

Vi o cansaço no rosto dele. As olheiras marcadas. A tensão no maxilar.

E sobretudo, suas mãos. Seus nós de dedo estavam machucados, avermelhados, com a pele partida. Parecia que tinha socado algo com toda a força do mundo. Ou alguém.

— Como você está? — perguntou com aquela voz baixa que eu nunca conseguia decifrar.

— Eu… ontem… — tentei falar, mas as palavras não saíram. Era como se minha garganta se fechasse a cada tentativa.

E então me lembrei de tudo. Cada detalhe. Cada segundo.

Senti o ar me abandonar de repente. Me sentei de leve, levando a mão à boca. Um soluço escapou sem permissão.

— Meu Deus…! O que eu fiz?

Azkarion expirou devagar, como se tivesse esperado aquela pergunta.

— O que aconteceu ontem… não devia ter acontecido — disse, sem suavizar o tom. — Mas o que foi feito, foi feito. Você sabe o que fez, Verena?

Fiquei paralisada. A pele arrepiou. Minha respiração tremeu. Balancei a cabeça devagar, sentindo um nó na garganta.

— Eu… fiz sim… — engoli saliva. — Eu o matei?

Ele desviou o olhar por um momento, como se procurasse as palavras certas. Depois suspirou.

— Não está morto. Mas acho que preferia estar. Está grave. Vão tentar salvar o… — parou, e sua expressão se endureceu. — Talvez não consigam. Resumindo, você vai transformá-lo num eunuco.

Senti meu coração dar um salto violento.

Me faltou o ar. Fiquei olhando para minhas mãos, como se ainda segurassem o pedaço de vidro.

— Ele… ele tentou me machucar — murmurei com um fio de voz. — Eu só… precisava me defender…

— Tudo bem — me interrompeu com frieza. — Não precisa se justificar. O que foi feito, foi feito.

Aquele tom… aquela distância. Por um momento me perguntei se esse homem tinha sangue nas veias ou gelo.

Nada o afetava? Nada realmente importava para ele?

Não sabia. E naquele instante, também não me importei.

Minhas lágrimas começaram a cair — silenciosas, ardentes.

Não soube se chorava pelo que fiz, pelo que quase me fizeram, ou pela forma como minha vida tinha acabado de se partir em pedaços.

A porta se abriu sem aviso.

O médico entrou com uma pasta na mão. Sua expressão era profissional, neutra, alheia às minhas emoções.

— Você está bem, Verena Hills — disse, revisando uns papéis. — Já assinei sua alta. E seu chefe pagou a conta. Pode ir hoje mesmo.

Concordei com a cabeça sem falar. Olhei para Azkarion, procurando algo no rosto dele. Não sabia o quê. Talvez um mínimo gesto de empatia. Algo humano.

O médico saiu.

Olhei para meu chefe. Ele ajeitou o paletó e disse com uma naturalidade mortal:

— Vou pagar uma boa indenização a Alexander Merchant pelo que você fez. Agora se acalme… e volte para casa.

Suas palavras foram um golpe seco no meu peito. Como se tudo se reduzisse a dinheiro. A trâmites. A silêncio.

Me levantei devagar da cama, sentindo as pernas instáveis. O encarei direto nos olhos, mesmo com o coração tremendo.

— Peço demissão.

Minha voz soou firme — tão firme que até eu me surpreendi. Era como se uma outra versão de mim tivesse falado.

Foi a primeira vez que vi Azkarion D'Argent realmente surpreso. Sua sobrancelha se levantou levemente.

— O que você disse?

— Peço demissão, senhor D'Argent — repeti, sustentando seu olhar. — Quero meus direitos rescisórios. E confio que o senhor pagará a indenização ao senhor Merchant. Afinal… foi o senhor quem me levou àquele lugar perigoso. Certo?

O quarto ficou em silêncio. Ele não disse nada. Mas a falta de objeção já foi suficiente para mim.

Fui até o banheiro do quarto. Fechei a porta, me apoiei por alguns segundos nela e respirei fundo.

Meu corpo ainda tremia. Me sentia tonta.

Como se tudo fosse um pesadelo longo demais.

Me vesti depressa, ainda desajeitada e trêmula. A roupa comum pesava mais que a bata. Era mais real. Mais dolorosa.

Quando saí, Azkarion já não estava.

Na mesa havia um cheque dobrado e um bilhete escrito com sua caligrafia impecável.

"É sua rescisão."

Abri. Quase um milhão de euros.

Um milhão… que jamais poderia comprar minhas noites de paz. Um milhão que não apagaria o que vivi.

Um milhão que para ele provavelmente não significava nada — mas para mim… significava a possibilidade de salvar a vida da minha irmã doente.

Significava seguir em frente. Significava respirar.

Suspirei, apertando o cheque entre os dedos.

Saí do quarto sem olhar para trás. Caminhei pelo corredor sentindo que cada passo me afastava de um pedaço partido de mim — embora soubesse que essa ferida não cicatrizaria facilmente.

Me repeti que ia arrumar um novo emprego. Que ia ficar bem. Que tinha que ficar bem.

Mas assim que cruzei as portas do hospital, o ar gelado da rua me atingiu e um arrepio profundo percorreu minha espinha.

Senti que alguém me seguia.

Só de pensar nisso meu sangue gelou. Minhas mãos suaram. Meu coração voltou a acelerar como na noite anterior.

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