(KAEL) A cela de Lyra ficava no nível mais profundo da Obsidiana. Não porque eu quisesse teatralidade. Mas porque pedra grossa, metal antigo e pouca luz impedem que certas coisas escapem. Sombras, por exemplo. Narrativas também. Desci sozinho. Não por descuido. Por escolha. Darek insistiu em me acompanhar até a última porta, mas eu o mandei ficar do lado de fora. Se Lyra ainda tinha alguma arma, ela não estaria na lâmina. Estaria na palavra. E palavras, eu sabia suportar. A tocha presa na parede lançava luz suficiente para revelar a cela inteira: pedra negra, chão seco, corrente curta fixada na parede e Lyra sentada no banco de ferro como se estivesse numa sala de espera, não numa prisão. Ela levantou os olhos quando me viu. Não sorriu. Isso me disse mais do que um sorriso diria. Ela estava cansada. Pálida. Mas não quebrada. A marca vermelha na clavícula já não brilhava. Restava nela apenas uma cicatriz escura, irregular, feia. Não havia poder ali. Só
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