CAPITULO 02 PASSADO SOMBRIO

AVA ALLEN

Quando entrei no consultório naquele dia, pensei muito, eu olhava as outras meninas da minha idade, muitas ainda brincavam de boneca, e eu com apenas treze anos tinha uma compreensão da vida que nenhuma menina deveria ter, todo esse tempo de sofrimento me fez amadurecer de uma forma sombria, eu queria ser livre e deixar tudo isso para trás, e talvez hoje fosse o primeiro passo para isso.

Ava:- Quero falar do meu passado-Antes que Mariana dissesse mais alguma coisa, comecei a falar antes de perder a coragem

Ava:-Fugi da casa do homem com quem morei por três longos e angustiantes anos, mas não antes de abrir sua cabeça com um martelo, ele estava bêbado sentado no sofá, depois peguei minha mochila e fugi, andei pelas ruas sem rumo por muito tempo, comi lixo, dormi em marquises, apanhei e bati, a vida nas ruas não era fácil, eu já não me sentia mais humana, eu era um bicho que brigava por um pedaço de pão mofado e a noite chorava deitada no chão sujo e frio, eu tinha apenas doze anos.

Aos treze, encontrei Emily e Mia, eu estava dormindo quando fui abordada por elas, não foi fácil confiar, demorou dias, quase um mês para que me convencessem a ir com ela, eu tinha medo de confiar, elas me deram o endereço do instituto e fui lá visitar, quando vi aquele lugar, falei com as pessoas, pela primeira vez em muito tempo senti que talvez, só talvez eu tivesse um lugar seguro por algumas noites e fiquei, os dias se tornaram semanas e as semanas se tornaram meses, e aqui estou anos depois.

Minha vida foi um desastre desde pequena, daquele tipo que não se conta, não se pensa, apenas se tenta esquecer, mas eu não esqueci, eu queria vingança, queria fazer Eduardo sentir a dor que me fez sentir, queria que ele ajoelha-se em desespero por tudo que me fez passar.

Meu pai Eduardo Allen nunca gostou de mim de verdade, ele sempre me ignorou e me excluiu, mas fazia minha mãe feliz, na frente dela ele fingia, e eu ficava em silêncio porque minha mãe era boa comigo, ela me amava e cuidava de mim.

Aos oito anos as coisas mudaram, minha mãe precisou viajar a trabalho e precisei ficar uma semana sozinha com meu pai, foi aí que os abusos começaram.

No primeiro dia sozinha com ele, Eduardo me tratou muito bem, eu fiquei feliz, achei que finalmente ele estava me enxergando, e ele estava, mas não da forma que eu gostaria, naquela noite ele foi até o meu quarto, logo entendi o motivo da sua bondade, ele me disse que se eu quisesse ser amada por ele deveria ficar quietinha, e ser boazinha, naquela noite ele dormiu no meu quarto, disse que naquele dia ia apenas me preparar para a noite seguinte, eu chorei a noite toda, naquela semana não fui a escola, ele ligou dizendo que eu estava doente, e pediu uns dias de folga no trabalho, tudo que aconteceu durante aquela semana foi doloroso, eu pensava estar sendo punida por alguma coisa, mas ele me dizia que aquilo era a forma dele demonstrar o amor que sentia por mim, mas que eu não deveria contar a ninguém, as pessoas não entenderiam, e se eu contasse a mamãe sentiria ciúmes e iria embora.

Quando minha mãe voltou eu me calei, fui me tornando uma criança reclusa, não gostava de ser tocada ou de conversar, ele ainda vinha ao meu quarto, pelo menos três vezes na semana, sempre me perguntei como a mamãe nunca acordou, como ela nunca percebeu, isso durou anos, quando minha mãe faleceu ainda fiquei mais um ano com ele.- Fiz uma pausa, as lembranças eram dolorosas demais.

Mariana:- Quer fazer uma pausa?-Balancei a cabeça negativamente, queria colocar tudo para fora.

Ava:- Quero continuar-Respirei fundo e continuei- Um dia meu pai chegou em casa e disse que eu estava ficando velha eu tinha apenas nove anos, um homem estranho e enorme entrou logo atrás dele, ele segurou meu queixo com força virando de um lado ao outro.

Ray:- Vai servir- Eu olhei para o meu pai sem entender 

Eduardo:- Você vai com ele, me cansei de cuidar de você-Ele era um monstro, mas eu não queria ir, o jeito que Ray me olhava me dava arrepios, eu corri e me agarrei na perna

dele, ele era um monstro, mas eu tinha medo do desconhecido-Não adianta chorar, seja boazinha com ele como você é comigo-Meu sangue gelou, eu sabia o que ele estava dizendo, não tive tempo de falar mais, enquanto eu estava em choque, ele desapareceu no corredor e voltou muito rápido, com uma mochila, ele já deveria ter deixado aquilo preparado, jogou a mochila para o homem, que em seguida me ergueu me jogando por cima do ombro, ninguém na rua parecia perceber, mesmo os que viram, não fizeram nada, e assim me vi na casa de Ray, e era muito pior do que com meu pai, ele me trancou em um quarto e ali começou meu novo pesadelo.

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