3

por Paula

Ele vai partir mais uma vez, só que agora vai ficar muito tempo longe de mim. Estas sensações eu já conheço bem: vazio, ansiedade, preocupação, saudade. Diversos sentimentos embaralhados e uma vontade louca de pedir que fique.

Descrever a nossa relação é bastante difícil, mas também nunca senti vontade de dar explicação para ninguém. Já acostumei com os olhares e comentários maldosos sobre a nossa suposta promiscuidade. Não adianta explicar. Somos amigos que se amam, simples assim. Não tenho ciúmes dos amores no caminho dele e sei que a mulher da vida dele ainda vai surgir, assim como sabia da chegada dele na minha história.

Lembro perfeitamente de quando meu mentor surgiu pela primeira vez e tive consciência disso. Estava fazendo o dever de casa sentada no chão da sala, quando escutei a voz melódica e carinhosa dele:

– Oi, filha... Feche os olhos.

Obedeci e quase no mesmo instante senti todo o corpo arrepiar e a casa sumir da minha volta. Como em um sonho, em segundos estava em outro lugar, como se estivesse vendo um filme sobre o meu futuro.

A cena do casal era nítida. A moça era eu, mas não conhecia o rapaz. Foi interessante me ver já uma mulher feita, sentada em uma cama espaçosa, sem roupa. Ele, o rapaz belo e atlético, estava deitado com a cabeça em meu colo enquanto eu mexia em seus cabelos. Estávamos nos olhando intensamente. Senti amor e tristeza no meu olhar. Parecia uma despedida. Fiquei por um bom tempo só observando os movimentos daqueles dois, mas não podia ouvi-los. Tinham uma intimidade incrível e encantadora. Mesmo criança eu senti vontade de passar por aquilo que os dois estavam passando.

Olhei para o lado e meu mentor estava ali, sorrindo para mim:

– Filha querida, este moço é um grande amigo nosso de outras vidas. Vocês estão juntos há milênios, mas vai ser nesta vida que vão conseguir viver um amor de verdade. Um amor diferente de todos os outros que irão ter. É aquilo que jamais tiveram e que faltou para se tornarem seres melhores. Desta vez, não permita que sentimentos pequenos destruam os planos de vocês. Estarei ao seu lado sempre. Lembre-se apenas de que a fé é sua aliada, e é através dela que você poderá ajudá-lo. Embora ele prefira ser cético quanto à luz, ele vai ter fé em você.

Voltei para esta realidade com a minha mãe chamando o meu nome e fiquei sem ar por alguns segundos. Nunca mais esqueci aquele rapaz de olhos verdes e não foi surpresa para mim quando, vários anos depois, o vi entrando pela porta do estúdio da rádio no qual eu estava trabalhando.

Quase disse alto:

– Nossa... Você demorou.

Sentei, olhei ao meu redor e reconheci a cena. Lembrei-me daquela tarde em casa. Foi tão nítido que eu quase pude me ver menina observando tudo em um canto. Hoje já sou adulta e, mexendo nos cabelos do Giulio, vejo tudo igual àquela despedida que havia presenciado quando criança. É evidente que esta noite é muito importante, mas ainda não entendi onde cada peça se encaixa. Decidi abrir as cartas.

Eu já tinha quinze anos quando aprendi a ler o tarô com uma amiga da escola. Com o tempo fui me aperfeiçoando e aprendi muito com a cigana que me acompanha do lado de lá. Ela é um dos entes espirituais que me guiam e me ensinam sobre o plano astral.

Minha cigana é linda, tem longos cabelos negros e um sorriso cativante, usa um vestido vermelho e dourado, muitas joias e penduricalhos. Ela dança com tamanha graciosidade que parece não encostar no chão.

Hoje ela me orienta na leitura, na montagem da mesa e em cada elemento usado nesse ritual sagrado.

Existem vários tipos de baralhos, mas escolhi trabalhar com o de Lenormand, o baralho cigano. Ela foi uma conhecida cartomante francesa e a história conta sobre quando a madame previu a ascensão e a queda do imperador Napoleão, além dos segredos da imperatriz Josefina.

Quando qualquer pessoa procura clarividência, faz isso por curiosidade ou pensando em encontrar solução para algum problema, ninguém raciocina sobre o poder das cartas em expor a alma. Eu estava apreensiva em abrir as cartas para o Giulio, mas algo me dizia que seria muito importante fazê-lo... Mesmo sofrendo depois.

***

Pedi para ficar concentrado, mas já sabia que isso seria quase impossível.

Enquanto separava o material, ele andava atrás de mim como um gatinho sorrateiro, pronto para me pregar uma peça. Ele não acredita, mas já me conhece bem e sabe que nestes momentos nada me tira do prumo.

Respirei fundo, liguei o som e coloquei a música que sempre ouço para ler as cartas. Não faz parte do ritual, mas eu gosto.

Alisei o lençol onde tínhamos acabado de nos amar, e dei um pequeno sorriso. Com qualquer outra pessoa eu jamais misturaria as energias do sagrado com o profano, mas entre nós nada era proibido.

Estiquei o pano vermelho de cetim e em seguida borrifei alfazema nos quatro cantos do quarto. A alfazema limpa o ambiente e não permite que nenhuma energia ruim atrapalhe a sessão. Serve como essência de purificação e proteção.

Acendi o incenso de jasmim e deixei que o perfume invadisse o ambiente. O incenso, quando utilizado corretamente, traz equilíbrio e harmonia e assim consigo maior facilidade para atingir meus objetivos. A essência de jasmim acalma e excita ao mesmo tempo, escolha perfeita para aquele momento.

Acendi a vela branca para meu anjo da guarda e pedi permissão para começar o ritual. Sei identificar o sinal positivo. É um arrepio que sobe pela coluna e me deixa em sinal de alerta.

Voltei toda a minha atenção e reverência à Santa Sara Kali, a padroeira dos ciganos, e fiz a oração de costume. Contam que ela foi uma egípcia escrava que venceu os mares através da fé.

– Sara, mãe dos aflitos. A ti imploro proteção para o meu corpo. Luz para meus olhos enxergarem até no escuro, Luz para o meu espírito e amor para todos os meus irmãos: brancos, negros e mulatos, enfim a todos os que me cercam e hoje em especial para meu amigo Giulio Dougan, homem que amo e que desejo proteger.

Foi a presença dela, da cigana, que me fez ter certeza de estar fazendo a coisa certa. Ela me olhou firme e serena como sempre, e começou a dançar. Nós tínhamos companhia, mas só eu sabia disso. Giulio nem imaginava que ela estava ali.

Coloquei os cristais e as moedas em um canto do lenço vermelho. Os cristais têm diversas funções, ativam o amor e a caridade; as moedas simbolizam a fartura.

Acendi a cigarrilha de cravo e comecei a assoprar a fumaça em todo o material. A essência do cravo, misturado ao jasmim e alfazema, tornaram o ambiente esotérico e deixaram o quarto protegido.

Passei o perfume cigano nas mãos, pedi licença e comecei a manipular as cartas. Jamais mexo nas cartas sem esse perfume, assim como ninguém toca no meu baralho sem a minha permissão.

Sentei de pernas cruzadas e pedi para ele sentar-se na minha frente. Era a primeira vez que abria o baralho para o meu amigo. Admito que estava com o coração em saltos e minhas mãos um pouco trêmulas. Por isso, precisei me acalmar primeiro. Deixei meu pensamento seguir livre e pedi ajuda. Aos poucos fui ficando tranquila, e quando me senti pronta, comecei a embaralhar as cartas e focar meus pensamentos apenas no Giulio. Olhei para aqueles olhos verdes que conhecia tão bem e só pensei no que gostaria de ver quando começasse a virar as cartas. Meu maior desejo era que nesta viagem ele encontrasse o que estava procurando, sem dificuldades, sem sofrimento e que depois voltasse para casa; simples assim.

Infelizmente isso não estava ao meu alcance, afinal, o livre arbítrio é dele e o destino também. Se pudesse, o deixaria trancado em uma bolha segura, mas isso seria destruir a personalidade mais encantadora que já conheci.

Pedi para me dar as mãos. Quando elas me tocaram, comecei a sentir toda a energia dele. Coragem, determinação, paixão. Tudo aquilo que ele tinha em exagero dentro de si.  Nestes momentos eu ficava ainda mais sensível e pude reconhecê-lo nestas sensações.

Coloquei o baralho na sua mão esquerda, pedi para embaralhar as cartas e para pensar na viagem.

Enquanto embaralhava, pude observar com nitidez aquelas mãos com cicatrizes e marcas que contam um pouco da sua história. Eu as adorava e não deixava de lembrar que já tinham percorrido todo o meu corpo. Tive que fazer um esforço gigantesco para não misturar as coisas.

– Corte o baralho, e separe em três montes – pedi, quase sussurrando.

– Posso pensar em qualquer coisa enquanto faço isso? – Ele perguntou com aquele olhar de menino que está aprontando alguma coisa.

– Não, você sabe que não... Pense na viagem – respondi com certa impaciência. – Ah... Não tire conclusões com as cartas que virarem, nem sempre o desenho tem o significado direto com a vida real.

– Como assim?

– Por exemplo... Se sair a carta 8, é carta do Caixão de Defunto. Sempre quando ela sai no jogo as pessoas ficam assustadas por que ela lembra morte ou perda. Mas isto só acontece se ela vier seguida de cartas negativas. Em compensação, se estiver ao lado da carta 13, por exemplo, que é a carta da Inocência, pode apenas significar que uma fase de responsabilidades está chegando ao fim.

– Quer dizer que se sair um 6 e depois um 9, é por que vai rolar uma transa bem boa – disse caindo na risada.

– Não seja besta. Isto é assunto sério – respondi indignada.

– Ok... Desculpe. Não resisti à piada.

– Estou te avisando para que não se assuste caso apareça uma carta negativa e você pense em tragédias.

– Você sabe que não me assusto com coisas do além e também não vou pensar em nada, a cartomante aqui é você – afirmou.

– Pense apenas na viagem.

Ele separou e escolheu o monte da direita.

Levei um susto quando virei a primeira carta; fiz exatamente o que pedi para não fazer. O 7 é a carta da Serpente. É uma carta muito negativa que em geral significa traição. Torci para que a próxima carta mudasse as coisas, mas não adiantou, era a carta 18.

– Um cachorro deve ser coisa boa – tentou adivinhar de forma otimista.

– Bem... Na verdade não. O Cão ao lado da Serpente é sinal de que você pode sofrer uma traição de um amigo, de alguém que só aparentava lealdade e parceria.

Fui virando uma carta após a outra e os sobressaltos foram inevitáveis. As cartas viradas em seguida confirmaram essa previsão. A Cegonha da 17, a Torre da 19 e a Montanha da carta 21, finalizaram a primeira fila.

O destino estava colocando o Giulio frente a frente com seus pesadelos. Impedimentos, traições e grandes confusões. Restava torcer para que a segunda fila trouxesse mais respostas para meu amigo com sérias possibilidades de estar bem encrencado.

Ele não precisou conhecer cartomancia para sorrir comigo quando a carta 24 foi virada. O coração sob a Serpente poderia mudar para melhor toda previsão. Para melhorar um pouco, veio em seguida a Dama, carta número 29. Suspirei aliviada; ele não estará sozinho e vai se apaixonar perdidamente. Vi um grande amor, destes que marcam a vida toda. Amor sincero, cheio de desejo e carinho. Infelizmente, não seria fácil, ela também estava envolvida de alguma maneira na confusão. Talvez fosse o motivo de toda a encrenca, ou pelo menos bem próxima das causas.

Vieram os Lírios da 30, o Caminho da 22 e o Jardim da carta 20. Leveza, compromisso, paixão e belos momentos aguardavam o Giulio ao lado dessa jovem. Ela teria certa dificuldade para confiar, mas vou ajudar este cabeça dura a fazer as coisas da maneira certa.

Quando pensei que tudo ficaria bem, virei a penúltima carta, e foi a 36: a morte. Esta não tem muito para explicar. Ele vai enfrentar a perda de alguém importante. Nunca é bom sinal.

A 27 foi a última: um Envelope flutuando. Sinal de que ele seria avisado de muitas formas. Talvez as peças estivessem se encaixando agora. Já havia começado a fazer isto e certamente continuaria a ajudá-lo durante toda a viagem.

Eu precisava falar o que estava vendo e tinha que saber como dizer para ele; como colocar as palavras. Estava claro que seria uma viagem perigosa. Mais uma vez tive vontade de pedir para que desistisse, e mais uma vez voltei atrás. Vi também muito amor, paixão e aos poucos percebi que era exatamente neste amor que existia o perigo. Não teria como evitar.

As cartas não me mostraram se ele superaria as iminentes ameaças e isso me deixou aflita, era preciso fazer alguma coisa. Falsidade, mentiras e armadilhas. Ele estava em um beco sem saída, e eu também.

– Vai ou não me dizer o que está vendo aí? – Percebi certo sarcasmo na voz dele.

– Não vai ser fácil, Giulio, você vai encarar alguns desafios, mas também terá recompensas incríveis. Vou tentar te ajudar a escapar do pior, fazendo alguns rituais conhecidos – respondi, temerosa.

– Paula, quero saber do mar, você viu alguma coisa aí?

– O perigo que te aguarda não está no mar, por isso vou oferendar Oxum e não Iemanjá. O perigo está na paixão, nas relações, nas pessoas que você vai conhecer – respondi com voz triste. – Além disso, você já anda protegido pelo tridente de Exu; o mesmo de Netuno que você usa como símbolo do seu barco.

Levantei devagar e com os olhos marejados, embrulhei todo o material no pano vermelho. O incenso já tinha acabado e apaguei a vela branca. Agora só queria ficar mais tempo na cama, ao lado dele. Nosso tempo estava acabando.

Deitei também e antes de fechar os olhos precisei dizer o quanto ele era importante para mim:

– Estarei sempre ao seu lado, você nunca estará sozinho.

***

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