DESPERTAR DA CARNE A tensão que pairava no ar do quarto não era mais de hesitação, mas de uma eletricidade densa, contida por meses de espera e por uma reverência quase sagrada. Após despir a minha esposa e fitá-la em toda a sua verdade, percebi o quanto aquele momento era inédito para nós. Antes, nos dias que se seguiram ao parto e às cirurgias, eu cuidara dela por dever, por amor e por desespero de vê-la salva — eu lhe dera banho, ajudara com os curativos, limpá-la fora um ato de pura abnegação onde o desejo cedia lugar à urgência médica; eu nunca olhara para ela como mulher naquele estado de fragilidade cirúrgica. Mas agora, ao ver as marcas que os nossos filhos haviam deixado em seu corpo, percebi que aquilo não eram imperfeições. Eram as marcas da nossa perfeição. Ergui-me lentamente da beirada da cama, ficando de pé diante dela, sob o olhar atento e curioso de Mabel. Sem pressa, comecei a desatar os cordões dos meus sapatos e os deixei cair no chão. Em seguida, levei as mão
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