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15 anos antes...

                O céu era muito azul, a grama pinicava minhas costas através do tecido da minha roupa e o vento balançava suavemente meu cabelo. Ajeitei a cabeça melhor em cima do meu braço dobrado e bocejei.

                - Entediado, Oliver? – Luzia perguntou.

                - Preguiçoso. – corrigi, me virando para observá-la encostada no muro de casa, virando as páginas de um livro.

                Ela sorriu quando me virei, com as bochechas mais coradas. Já fazia algum tempo que eu vinha sentindo umas ondas diferentes de Luzia para mim. Antigamente ela se contentava em me ignorar completamente e seguir minha irmã para onde fosse, mas agora sempre tentava ficar perto de onde eu estava.

                - Você está aqui fora de novo? – Rebeca surgiu atrás de nós, ligeiramente irritada.

                - Não sei do que está falando. – Luzia se levantou rapidamente, um pouco constrangida.

                - Só estou dizendo que você paira onde meu irmão está. – ela provocou a outra.

                - Ridícula. – Luzia reclamou enquanto se afastava.

                - Você não precisava pegar no pé dela desse jeito. – falei me levantando.

                - E você poderia namorar ela logo. – Rebeca cruzou os braços, impaciente – Luzia é tímida demais para tomar a iniciativa, e não sei o que mais ela poderia fazer para mostrar que está interessada.

                Eu ri, balançando a cabeça. Luzia era uma garota legal, bonita, e todo mundo achava que nós acabaríamos juntos. Em parte, porque até que combinávamos, e em parte porque não havia muitas opções por ali. Na real não era uma escolha tão ruim para mim.

                Escutei Rebeca bufando enquanto eu entrava na sala, onde dei de cara com Luzia escutando nossa conversa. A garota ficou tão vermelha que não consegui conter um sorriso.

                - Não se preocupe. – segurei sua mão delicadamente.

                Ela não respondeu, apenas apertou meus dedos e desviou o olhar. Era engraçado que alguém reagisse desse modo a mim, um garoto tão comum.

                - Finalmente alguma coisa. – Rebeca vibrou, juntando-se a nós.

                - Você é tão inconveniente. – reclamei.

                Soltei a mão de Luzia e fui até meu quarto. Fechei a porta para ter mais privacidade e deitei na cama, ainda sentindo uma preguiça sem fim.

                Os dias ali eram sempre muito iguais, agora que tinham acabado as aulas. O tempo se estendia tão infinito quanto os campos ao redor da nossa casa, Rebeca estava sempre andando de um lado para o outro, exalando impaciência, e Luzia, realmente, pairava onde quer que eu estivesse.

                Naquele dia em particular, estávamos esperando meu pai voltar de uma longa viagem. Era o máximo de novidade que teríamos em muito tempo, então até mesmo minha mãe, sempre tão calma e serena, estava um pouco agitada.

                - Vá tomar banho, Oliver. – ela abriu a porta do quarto sem cerimônia – Seu pai deve estar chegando.

                - Obrigado por bater, Suzie. – reclamei.

                - Quando tiver sua casa, fará suas regras. – ela rebateu se afastando – E é mãe, não Suzie.

                Mamãe odiava que eu a chamasse pelo nome, quase como se fosse uma ofensa pessoal. Particularmente eu não via nada de mais nisso, mas as vezes gostava de cutucá-la.

                Obedeci, tomei o banho e coloquei até uma roupa um pouco melhor. Ninguém estaria lá para reparar, mas se não usasse assim acabaria nunca usando já que nunca havia para onde ir. No entanto, Luzia, que descobri que nos acompanharia no jantar, pareceu bem impressionada pela minha leve arrumação.

                - Está bonito, Oliver. – ela sussurrou na minha direção.

                - Obrigado. – sorri educadamente – Você também está.

                Ela pareceu adorar minha frase, sorrindo abertamente e, outra vez, desviando os olhos dos meus. Talvez Rebeca tivesse razão e eu devesse iniciar essa relação inevitável de uma vez. Pelo menos seria algo novo a ser descoberto, acabando com a sequência de dias repetidos.

                Sentamos lado a lado e notei um olhar de aprovação de Suzie e um sorriso nada discreto de Rebeca. Aparentemente todo mundo estava torcendo por aquilo.

                Meu pai não demorou muito a chegar, e foi recebido com muita alegria. Mamãe sempre agia como se ele tivesse passado um ano fora, algo que ele parecia apreciar muito e nos fazia torcer o nariz um pouco. No entanto, Luzia parecia encantada com o encontro, o que me fez pensar se ela agiria assim quando iniciássemos a relação.

                Dessa vez ele não veio sozinho, havia um homem alto ao seu lado, de aparência muito distinta e um tanto refinada. No entanto, até mesmo esse estranho pareceu se divertir com a recepção acalorada de mamãe.

                - Oh, me desculpe. – ela pediu, passando as mãos pelo cabelo – Que indelicadeza da minha parte. Sou Suzie.

                - Sou Theo. – o homem apertou a mão dela – Arthur teve a gentileza de me chamar para o jantar.

                - Será um prazer. – meu pai apressou-se em dizer – Aqueles são meus filhos, Receba e Oliver, e uma amiga da família, Luzia.

                - Aposto que a namorada desse belo rapaz. – o homem nos cumprimentou com um aceno de cabeça.

                Eles se juntaram a nós na mesa e a refeição se iniciou. Eu não estava prestando muita atenção na conversa, os mais velhos sempre tinham uma interação muito enfadonha, mas fui chamado algumas vezes até perceber que era comigo que falavam.

                - Oliver, seja educado! – meu pai me reprendeu com irritação.

                - Desculpe. – pedi com sinceridade – Eu me distraí.

                - Eu estava dizendo, meu caro rapaz... – Theo sorria na minha direção – Se não gostaria de passar uns dias num lugar diferente.

                - Bom, eu... – olhei para meus pais, em busca de um sinal do que deveria responder, mas os dois pareciam satisfeitos com a proposta.

                - Theo tem um hotel, Oliver. – Arthur começou a dizer – Nós nos conhecemos num bar uma noite dessas. – ele olhou para os outros – Eu estava cansado da viagem, com o carro cheio de compras para a nossa venda e estava determinado a dormir apertado no banco da frente.

                - Algo inaceitável. – o outro lançou um olhar de censura.

                - Ele me ofereceu um quarto e aceitei. O lugar é incrível, acho que vocês vão adorar passar uns dias lá.

                - Nós? – repeti confuso.

                - Nós duas já aceitamos. – Rebeca sorriu para mim, depois piscou um olho enquanto gesticulava em direção a Luzia.

                - Acho que seria ótimo. Obrigado. – respondi sentindo a empolgação crescer dentro de mim.

                Sair de casa, conhecer um lugar novo e longe. Era mais do que eu poderia imaginar fazer durante aquelas férias. É óbvio que eu não deixaria aquela chance escapar.

                - Amanhã está bom para todos? – Theo sorriu, claramente satisfeito.

                - Sim, claro. – meu pai concordou – Vou preparar o quarto de Oliver para você. Ele pode dormir na sala.

                Pronto, agora eu já ia perder meu quarto para esse estranho. Esperava que as férias valessem realmente aquele incômodo, eu odiava que outras pessoas ficassem no meu quarto.

                Meus pais, ao contrário de mim, pareciam terrivelmente satisfeitos em preparar o quarto para o convidado. Assim que o jantar se encerrou, correram para preparar meu despejo para o sofá e deixar a cama agradável o suficiente.

                Minha irmã fugiu para seu próprio quarto, convenientemente, e fiquei a sós com Luzia. Isso não me incomodava, mas a garota parecia esperar alguma coisa de mim que eu ainda não tinha descoberto.

                - Bom, vejo você amanhã. – ela disse, de olhos baixos, na porta da sala.

                - Ah, eu te acompanho até o portão.

                - Ah, não precisa. – negou, mas a expressão era de êxtase.

                Saímos juntos para o quintal escuro e, antes que ela pudesse fazer, peguei sua bicicleta para empurrar até o lado de fora. Esse simples gesto parecia dar uma alegria incompreensível.

                Atravessamos lado a lado na grama, num silêncio confortável. Eu ficava muito à vontade com Luzia, era familiar demais, tranquilo como respirar. Para ela, no entanto, parecia um pouco mais tumultuado, como se minha presença causasse agitação e nervoso.

                Abri o pequeno portão que ficava no muro baixo e atravessei com a bicicleta, que passei para suas mãos logo em seguida. Luzia murmurou um agradecimento enquanto equilibrava a bicicleta, e hesitou em ir embora.

                Haviam várias árvores fazendo sombras em nós, mas eu podia jurar que ela estava esperando alguma coisa pela expressão ansiosa em seu rosto. Naquele momento fiquei um tanto ansioso também, como se estivesse diante de uma prova difícil.

                - Rebeca tem razão... – disse por fim, parecendo lutar muito para as palavras saírem.

                - O que... – franzi a testa, confuso.

                - Você podia mesmo tomar a iniciativa e parar de me deixar tão... – ela hesitou.

                - Nervosa? – sorri inclinando a cabeça.

                - É, na verdade é isso mesmo. – ela sorriu, soando aliviada pela minha receptividade.

                Acreditei que ela tinha razão. Aquela situação estava se arrastando por meses, não era realmente justo. Luzia era uma boa garota, bonita e gentil, e o que via em mim era um mistério, mas...

                Me aproximei de uma vez e juntei nossos lábios num beijo rápido e muito suave. Mal tinha se iniciado e meu rosto já estava na posição anterior, mas ela, depois de recuperada a surpresa, sorriu abertamente.

                - Temos as férias toda. – falei, um pouco preocupado de ter sido horrível naquilo.

                - Te vejo amanhã cedo. – Luzia parecia inacreditavelmente realizada com meu gesto.

                Fiquei a observando pedalar a bicicleta pela estrada de terra até sumir de vista, pensando no momento em que encostei na sua boca. Não tinha sido ruim, longe disso, mas também tinha sido um pouco indiferente. Eu tinha esperado que esse momento fosse ser mais emocionante.

                Quando entrei, Rebeca estava quase pulando no lugar de tanta animação.

                - Ah, finalmente! – ela me segurou pelos ombros – Não acredito que finalmente estão namorando!

                - Você estava espiando? – reclamei.

                - Claro que sim! – ela nem se incomodava em disfarçar – Finalmente! – repetiu me apertando.

                - Foi só um beijo. – fiquei ligeiramente sem graça – Pare de atropelar as coisas.

                - Mas vão namorar, não é? – minha irmã não tinha limites em me pressionar.

                - É, claro. Provavelmente.

                Minha afirmativa gerou outra rodada de gritinhos animados.

                - Finalmente! – repetiu antes de correr para seu quarto.

                Me acomodei no sofá, olhando a noite através da janela. A perspectiva de passar um tempo longe de casa me deixava mais animado do que o que tinha acabado de acontecer com Luzia, mas eu não estava preocupado. Talvez eu só precisasse praticar mais um pouco.

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