CAPÍTULO 2

25 anos depois.

Alcatéia dos Savages. 

O ataque aconteceu por todos os lados, indefensável. O odor da putrefação, da carne queimada, do sangue, das vísceras. Não devia ter sido um massacre, mas elas vinheram na calada da noite, queimando e destruindo tudo que encontravam no caminho, espalhando o caos, semeando o medo. Nem mesmo o olfato de Fenris e seus sentidos sensoriais, conseguiram impedir a invasão das bruxas em seu bando.

 Um feitiço muito forte fora usado para confundir os sentidos do poderoso alfa da alcatéia Savage, e todos os seus semelhantes agora lutavam para salvar o pequeno grupo que conseguiu escapar daquela chacina.

— Alfa, precisamos sair daqui. Elas são muitas e estão brotando feito erva daninha — gritava seu beta Estefano, em sua forma de um enorme lobo branco, enquanto arrancava a cabeça de mais uma bruxa. Seu beta não conseguia se proteger dos ataques. A cabeça de seu lobo estava coberta por carne empalidecida e magra, e seu pelo era uma juba branca em putrefação.

Os gritos e lamúrias daqueles que não conseguiam abandonar os corpos de seus entes queridos estavam ali. Mulheres e crianças, homens, lobos, corpos estendidos até onde os olhos pudessem alcançar, uma visão macabra, algo para ser esquecido, uma história para nunca ser contada nos milhares de anos que se seguissem depois. 

Entretanto não havia tempo para choros e lamentações, eles precisavam correr para que pudessem a todo custo salvar suas vidas, eles precisavam sobreviver a esse ataque. Revidar, vingar os seus. Todavia, Fenris estava em choque, a cada novo membro assassinado ele sentia sua alma sendo apartada de seus protegidos, era uma dor imensurável. 

A sensação era penosa, cada vez mais desagradável e prejudicial às suas almas, humana e Lycan, pois Fenris e Hukassa nunca haviam sentido o baque do desligamento brutal.

Na alcatéia, mulheres e crianças tentavam se proteger e aguardavam a ordem do alfa, ele era, acima de tudo, a lei daquele bando. Dante já havia matado muitas, mas a cada vez que abatia uma, duas apareciam, e como seu beta havia dito, brotavam como erva daninha.

— Alfa, eu sei que é difícil, mas se concentre no agora. Esqueça a sua dor, pelo bem do nosso povo. —  Este que o aconselhava em sua mente era seu pai, Ettore Savage, o antigo alfa e agora seu conselheiro.

Fenris parou um minuto e olhou para os lados, as poucas crianças sobreviventes corriam tentando se proteger; algumas casas queimavam e junto com elas, algumas bruxas no processo. O lar deles estava destruído. Em sua cabeça, Fenris havia falhado como líder.

— Fenris — Mais uma vez seu pai trazendo-o de volta à realidade.

Avançando, Fenris viu logo a frente um grande lobo marrom, seu irmão, Set, que lutava com maestria, cravando seus caninos pontiagudos em mais uma bruxa, matando-a. 

— Preparem-se todos, eu irei dar cobertura. Ao meu sinal, sigam em frente, iremos bater em retirada. Em hipótese alguma eu quero que voltem a minha procura — avisou Fenris pela ligação para cada membro da alcateia — Isso vale principalmente para vocês, Estefano e Set, é uma ordem. — Os dois mencionados assentiram mesmo a contragosto, assim como os demais. Não podiam fazer muito, era uma ordem direta do alfa, e a ordem dele era absoluta.

Os olhos de Fenris agora estavam vermelhos por tamanha raiva. De repente, um manto de fogo cobriu todo o seu corpo, rodeando-o pelo escuro. As bruxas se afastaram amedrontadas, já tinham ouvido falar no manto e o quão destrutivo ele era, principalmente para as bruxas que praticavam a magia negra, cujo as labaredas de cor peculiar queimavam-nas com o mínimo toque.

Fenris avançou em uma velocidade que nem mesmo o olho Lycan era capaz de acompanhar, levando tudo e qualquer bruxa que havia em seu caminho, esse era o sinal que eles precisavam.

Set e Adriel, um lobo de cor cinza azulado, ajudavam as crianças e mulheres da matilha que sobraram a se reunirem e juntarem tudo que precisavam para partir, não tinham tempo, precisavam ser rápidos. Um círculo ao redor dos menores fora montado, eles tentavam cobrir a retaguarda, impedindo toda e qualquer bruxa de se aproximar.

Um lobo branco fora lançado sem piedade em uma das árvores ali presente, o barulho dos seus ossos estalando fora ouvido e o cordão de isolamento para proteger os indefesos fora comprometido.

Era uma matilha diferente, onde humanos conviviam com lobos, e alguns chegavam até a serem marcados por eles, como era o caso de Cilene Savage, mãe do alfa e esposa de Ettore, e Oysis Savage, mulher de Set. 

Com a proteção em aberto, Oysis fora pega por uma das bruxas; ela, que estava grávida de oito meses e meio, fora arrancada dos braços de Cilene, sua sogra.

Carmenta — uma bruxa marcada por Estefano Savage , o beta — lançava feitiços para neutralizar o expurgo de bruxas, enquanto segurava o pequeno Caleb de três anos no colo, mas mesmo com todos os esforços, nada parecia surtir efeito, elas eram muitas e cada vez apareciam mais. Estavam os vencendo pelo cansaço. Carmenta analisou bem as faces das bruxas e viu que todas elas tinham o mesmo rosto.

"Feitiço de multiplicação ", pensou já contactando o alfa e os demais.

— Alfa, é inútil! Estão usando feitiços de multiplicação, olhe bem suas feições, elas são iguais. A cada bruxa morta, mais aparecerão. — Carmenta alertou ofegante pela ligação.

— Tem como desfazer o feitiço? — Fora seu marido, Stefano que perguntou. Todos estavam esperançosos, aguardando a resposta da bruxa.

Carmenta suspirou, sentindo-se inútil.

— Desculpe, o feitiço é forte demais para mim, só uma bruxa forte o bastante ou a mesma que o lançou pode desfazê-lo. — respondeu cabisbaixa por não poder ajudar.

— Se estiverem todos reunidos, vão, vão. — Deu a ordem o alfa, mas antes de continuarem, ouviram a voz de Cilene desesperada em suas cabeças.

— Elas levaram Oysis, elas a levaram, eu tentei eu...

O coração de Set parou, seus olhos se arregalaram e sua respiração ficou entrecortada, só conseguia pensar no seu filho e na sua mulher. Ia sair em disparada quando o alfa e seu brilhante manto o impediu.

— Proteja os outros, eu irei encontrá-la, vá! — O lobo marrom olhava para o lobo de pelagem negra parecendo exitar — Eu prometo trazê-la de volta para você.

— Traga ela para mim, Fenris, traga ela bem — Fenris assentiu antes de ver seu irmão sumir entre a floresta, sendo seguido pelos outros que escoltavam os mais indefesos: um Lobo branco ferido, sendo carregado por Estevan, e junto deles as fêmeas que carregavam nas costas seus filhotes.

Fenris voltou para a luta, vendo as bruxas tentarem se embrenhar em meio a mata para alcançar sua matilha. No entanto, antes que ele pudesse agir e impedi-las alguém o fez um lobo de pelagem também negra apareceu, estraçalhando-as.

Estou aqui, você não está sozinho. — Deimos Savage disse, aparecendo em meio ao emaranhado de fogo e sangue.

Fenris queria poder expressar a felicidade de vê-lo, mas não naquelas circunstâncias, a dor o corroía, estava cansado, logo seu manto de magia branca iria se dissolver. Tanto poder o deixará desgastado quando se esvair, mas antes disso, Fenris tinha que cumprir a promessa que fez para o irmão e levar Oysis para ele.

— Fique aqui e me dê cobertura. Preciso encontrar Oysis — O grande lobo, negro como a noite, concordou, e Fenris sumiu de suas vistas ziguezagueando em meio ao amontoado de casas e corpos mutilados.

O cheiro de Oysis se manifestou mais forte na casa principal, e Fenris o seguiu com a sua boca completamente manchada pela cor escarlate, o sangue amargo das bruxas que tiveram seus pescoços rasgados por seus caninos.

 Antes de chegar na casa onde viveu toda sua vida e que agora jazia maculada, uma força magnética fez com que flutuasse e fosse arremessado para longe, suas costas bateram com força no chão e um galho atravessou seu abdômen.

A bruxa que o atingiu continha cabelos rubros e olhos na mesma tonalidade, em suas costas, asas que pareciam serem feitas de folhas secas e sangue a suspendiam no ar, era uma visão grotesca e contraditória, se levar em conta a beleza angelical daquela mulher. O olhar dela enquanto aterrissava no entanto exalava soberba, nojo, deboche e tantos outros sentimentos vis que causavam repulsa a alguém tão íntegro como o alfa.

— Parece que o grande alfa dos Savages não é tão grande assim — ela disse enquanto o via, já em forma humana, remover a estaca antes cravada em seu corpo.

— Quem é você? E por que está nós atacando? — A raiva do alfa transpassava em sua voz, seus olhos vermelhos como sangue não haviam mudado mesmo depois de voltar a forma humana, fazendo os pelos da mulher se arrepiarem e a mesma tremer diante de sua presença — Onde está Oysis? — ele perguntou novamente, sem resposta.

Fenris avançou, os olhos vermelhos se arregalaram, ela nem havia conseguido acompanhar seu movimento, só sentiu seu pescoço sendo apertado e as unhas do alfa pressionando sua jugular, ela não esperava que em sua forma humana ele fosse tentar um ataque, e muito menos, que o mesmo tivesse essa força e velocidade sobre as duas pernas. 

A mulher tentou se soltar, lançando um feitiço contra o mesmo, mas novamente o manto de fogo cobrindo toda a palma da mão de Fenris surgiu, queimando o pescoço da mulher e as mãos que seguravam seu braço, sem sucesso ela tentava aliviar o aperto.

Dificilmente lobos conseguiam lutar com bruxas de igual para igual, devido a seus feitiços que podiam ser lançados a uma certa distância, os lobos só conseguiam lutar em uma distância curta, pois seu alcance de ataque os deixavam praticamente colados ao inimigo.

O manto é um privilégio dos Savages, ao ser tocada por ele, a bruxa, não só é queimada, como o manto também bloqueia qualquer golpe desferido contra o usuário. Revestido por magia branca e pura, o poder só é dado ao alfa Savage digno para que proteja os seus, o mesmo também bloqueia toda e qualquer magia negra,deixando a bruxa fraca e a sua mercê,assim como a bruxa estava naquele momento.

Ela sabia que não podia ir contra o Savage naquele momento ,que precisava jogar sujo se quisesse vencer. Com seu trunfo, ela invocou, no topo da mansão ao qual consistia em dois andares, uma Oysis amarrada pelas mãos enquanto uma corda a suspendia, o barrigão estava visível assim como seus olhos que expressavam desespero. A mulher era uma bruxa bastante poderosa e mesmo com o manto a impedindo, ainda conseguia efetuar pequenos feitiços, mas que se concretizado, possuíam grande magnitude. Fenris conseguia se proteger contra os ataques, mas ao mesmo tempo não conseguia proteger com seu manto aqueles que estavam ao seu redor, fazendo-o se sentir incapaz.

— Se me matar, ela também morre — A bruxa disse com dificuldade, seu pescoço já sangrava.

— O que você quer afinal? — Fenris vociferou, estava ficando sem opção.

— O que eu quero é simples: quero limpar as impurezas deste mundo. Uma bruxa e um lobo não podem se misturar, assim como humanos não podem atravessar a linha entre os mundos, o nosso sangue não pode e não deve se misturar a sangues impuros como o de vocês.

Mas que droga ela estava falando?”, Fenris se perguntava.

— Quero que mande os malditos humanos de volta para o lugar que nunca deveriam ter saído, melhor, eu quero que mate-os... — Seus dentes trincaram em uma reação involuntária, ela tentava se proteger da força que o lobo exercia sobre si; suas próximas palavras haviam sido proferidas com muita raiva e esforço, mas nada a impediria de expressar sua odiosa e desprezível face, nem mesmo ele.  — Mas principalmente, eu quero a bruxa e o filho dela, quero impedir que seu sangue traidor se prolifere por aí, ela tem que morrer assim como seu bastardo.

— Nunca! — gritou Fenris, ele estava pronto para quebrar o pescoço da bruxa, o sangue jorrava da ferida aberta por ele, era hipnotizante, ele só precisava exercer mais força, mais pressão, tudo estaria acabado. O grito de Oysis ao alcançar seus ouvidos havia sido seu único impedimento. A corda aos poucos estava sendo solta, a vida de Oysis estava atrelada a da bruxa por um feitiço, se a mulher morresse, a mulher de seu irmão também morreria.

Fenris olhou para Oysis, que implorava em súplica. Suas garras aumentaram e em um momento de raiva que não pode conter, passou as garras pelo lado esquerdo do rosto da mulher, desfigurando-a, mas um grito fora ouvido por Fenris: a corda de Oysis estava cedendo.

— Não seja tolo, ela vai morrer se me matar — A bruxa gritou quando Fenris se pôs por cima dela, uma perna em cada lado do corpo, seria uma cena cômica se não fosse aquela situação: Fenris completamente nu, em cima de uma mulher, e segurando mais uma vez, o seu pescoço. 

— Eu a pegarei antes que caia — "Era mesmo o certo a se Fazer? Eu a pegaria a tempo?”, novamente os questionamentos.

— Tolo! Ela está enfeitiçada, você pode até salvá-la, mas antes que ela chegue em seus braços, o bebê já estará morto.

Aquela informação o desnorteou, precisava pensar, precisava de tempo.

— A troca é justa na minha opinião, duas mães e dois bebês, você nem precisa matar os malditos humanos, é só mandá-los para o outro lado da barreira. — ela disse raivosa. 

Em um movimento rápido, Fenris puxou a camisa da bruxa, que se encontrava banhada no próprio sangue, e arrancou um tufo de seu cabelo, o seu DNA, saltando para trás e a soltando logo em seguida.

A bruxa não se atentou a isso, já liberta e com seus poderes, ela emitiu uma bolha,uma espécie de domo ao redor das terras dos Savages, bloqueando tudo e todos. Fenris e Deimos — que ainda lutava com as bruxas — foram jogados longe. 

Já do outro lado, Fenris tentava socar o campo de força, tendo seus ossos esmagados no processo.

— Você sabe o que eu quero Savage, traga-me o oráculo e seu bastardo imundo e expulse os humanos deste lado, é preciso apagar as impurezas deste mundo. Só assim terá a mulher do seu irmão de volta, sem nenhum arranhão para que possa mandá-la embora. — A bruxa disse do lado de dentro ao se aproximar do domo.

— Como vou ter certeza que não irá machucá-la? — Deimos pela primeira vez ao entender tudo se pronunciou, seu peito apertado, lembrando-se de sua amada, sua mulher, sua marcada, uma bruxa muito habilidosa, que fora brutalmente assassinada em nome do expurgo.

 — Tem a minha palavra — ela o respondeu.

— Sua palavra não vale de nada para mim — Levantando as mãos Fenris mostrou o pedaço da roupa com o seu sangue e o tufo de cabelos ruivos, a bruxa arregalou os olhos e mais uma vez naquela noite, tremeu ao encará-lo. — Eu tenho o seu sangue, bruxa, e o seu cabelo, todo seu DNA está aqui. Nós temos uma bruxa, ela saberá o que fazer com isso. Se encostar um fio no cabelo de Oysis ou do bebê, imagine as possibilidades.

O olhar da mulher vacilou diante da expressão do alfa e sua figura devastadora. O Savage era um homem deveras perigoso e a mulher estava nesse momento comprovando isso, seus machucados doíam assim como todo o seu rosto e pescoço, iludiu-se ao achar que um homem como Fenris Savage sairia por baixo. Agora os dois tinham um trunfo, definitivamente.

Ela havia usurpado suas terras, suas casas, e estava a mercê de sua cunhada e seu sobrinho, mas em troca, tinha sua vida nas mãos de Fenris Savage, o sangue e o cabelo de uma bruxa usado em rituais de magia profana, poderia ser fatal, e ela sabia disso.

Muito pior do que a morte para ela, seria ter seus poderes tomados.

 Nem mesmo o feitiço que entrelaçava sua alma com a da criança a livraria de seu destino; um erro, um mísero erro, e ela teria sua alma arrancada e sua vida ceifada, precisava ter cautela, pois sabia principalmente que mesmo Carmenta não sendo extremamente poderosa, tinha habilidades.

Ela não esperava por isso, confessava para si mesma que o havia subestimado, mas não podia recuar, tinha um objetivo e o cumpriria, mesmo que os olhos que a olhavam agora, em uma promessa sanguinária de uma morte lenta e extremamente dolorosa a intimidassem tanto.

— Vamos, meu alfa, precisamos nos encontrar com os outros, nos certificar que estão todos bem. No momento não podemos fazer nada. —  Deimos soou em sua mente.

Sem tirar os olhos da mulher, Fenris deu um passo para trás, se virou e já iria se transformar, quando a voz dela irrompeu em seus tímpanos.

— A Propósito... eu me chamo Eris — Ela debochou.

Com uma última olhada para as terras em que cresceu, Fenris se transformou e correu entre a floresta, sendo seguido por Deimos, rastreando o cheiro da matilha. Precisava encarar seu irmão e contar que não havia cumprido sua promessa.

Leia este capítulo gratuitamente no aplicativo >

Capítulos relacionados

Último capítulo