Capítulo 3

                                                        Daniel

Após a morte do velho amigo, Daniel encontrava-se perdido naquele laboratório. A presença dele entre aquelas paredes era esmagadora; e saber que nunca mais o veria entrando por aquela porta, o deixava deprimido. As coisas haviam mudado depois que ele se fora. Havia rumores de que alguém o substituiria, e que esse alguém talvez não desse a devida importância ao trabalho que eles haviam desenvolvido juntos. Sentia-se preocupado diante da possibilidade de ver todo o seu trabalho escorrendo pelas mãos, como as substâncias despejadas em um béquer.

- Ei Dan! Chegou cedo! – disse seu amigo, Renan, vendo-o fechar rapidamente o caderno que sempre mantinha a seu lado, e guardá-lo na mochila, ao mesmo tempo em que encerrava o cantarolar que saía de sua boca – coisa que sempre fazia quando estava concentrado em algo.

- E aí cara?

- Sabe em que vamos trabalhar hoje? Parece que a Fosfoetanolamina vai ser enterrada para sempre nesse laboratório.

- Por que diz isso? – sentiu o coração pular dentro do peito, sentindo-se um tanto enfastiado.

- Por que o nosso novo orientador vai começar novas pesquisas e não quer nem ouvir falar na Fosfo.

- Quem te disse isso? - perguntou ríspido, sentindo uma pontada na têmpora.

- correndo solto por todo o Campus. Acho que ele não quer correr o risco de comprar nossa briga com a ANVISA e os laboratórios.

- Mais um cretino!

- Se for verdade, o que vamos fazer?

- Não sei. Preciso pensar. - concluiu passando a mão pelos cabelos, encarando Renan com cara de poucos amigos.

- Acho que não podemos fazer nada. A patente pertencia ao Professor Cavendish, e com sua morte...

- Então vai ser assim? Ele morreu e todo o projeto morre com ele?

- Acho que suspiraram aliviados com sua morte – disse Renan, erguendo as sobrancelhas e mordendo o lábio inferior.

- Pode ter certeza que estão aliviados, mas, se depender de mim, não continuarão por muito tempo.

- O que pretende fazer, Dan?

- Ainda não sei. Mas, você está comigo? - perscrutou a face do amigo, sem perceber que havia prendido a respiração.

- Com certeza. Não quero passar a estudar plantas da Amazônia para fazer cosméticos.

- Era isso que eu precisava ouvir, cara. - um meio sorriso desprendido aliviara um pouco a tensão que sentia.

– Se pelo menos os familiares dele continuassem sua luta, poderíamos entrar com uma liminar e continuar produzindo as cápsulas.

- Talvez isso seja possível. Quem sabe?

                                                              ******

Poucas horas depois desse diálogo, todos os pesquisadores do IQ[1] e os bolsistas da FAPESP[2] foram chamados ao Anfiteatro da USP.

- Boa tarde a todos – disse a jovem de saia e blusa plissadas, enquanto ajeitava os óculos, de aros grossos e vermelhos, no nariz empinado. – Gostaria que ouvissem com atenção o nosso renomado Dr. Schiavon. Ele estará assumindo o Laboratório de Química no lugar do nosso querido Professor Alberto. – afastou-se do pódio dando lugar ao referido doutor, mantendo a sala em absoluto silêncio.

- Boa tarde a todos – cumprimentou o homem baixo e magro, com um cavanhaque pontudo, tão grisalho quanto seus cabelos – como explanou com perfeição nossa colega Dra. Lídia, estou aqui para continuar o belíssimo trabalho do Professor Alberto.

Suspiros aliviados foram proferidos, quebrando o silêncio do anfiteatro, arrancando um sorriso discreto da boca do Dr. Schiavon.

- Vejo que estão aliviados. – todos sorriram de forma acolhedora – porém, sinto-me no dever de informá-los que teremos um vasto campo de pesquisa, que tenho certeza, agradará a todos vocês. – Seus olhos percorreram o anfiteatro, enquanto seus braços permaneciam estendidos, apoiando as mãos de dedos finos no pódio, salientando as grossas veias azuis.

- Beleza, professor – alguém gritou do meio do anfiteatro, assobiando em seguida.

- E quanto a Fosfoetanolamina Sintética? – outro aluno se manifestou aflito.

- Eu ia deixar essa questão para o final, porém, como o senhor se adiantou... – continuou com um sorriso discreto nos lábios – Devo informá-los que seguiremos a determinação da Justiça e da Universidade.

- Isso quer dizer que não poderemos mais fabricá-la? Não vamos continuar lutando na Justiça?

- Meu jovem, temos outros grandes projetos para serem pesquisados e tenho certeza de que contaremos com o seu entusiasmo e determinação.

- Mas o que acontecerá ao nosso laboratório? – perguntou Renan, levantando-se inflamado da poltrona. – Todos esses anos de pesquisas e contribuição às pessoas ficarão arquivados?

- Esse foi o excelente trabalho do Professor Alberto, porém, como deve saber, temos normas a seguir. Enquanto a justiça não determinar como serão os testes, se é que vai determinar algum dia, manteremos o projeto suspenso.

- Mas isso é errado. Milhares de pessoas devem ser beneficiadas com essa descoberta. – continuou Renan, enquanto Daniel permanecia calado ao seu lado.

- Senhor... – esperou o Doutor Schiavon.

- Meu nome é Renan. Eu era assistente direto do professor Alberto junto com meu colega aqui – apontou desafiadoramente para o amigo – Daniel. Trabalhamos com afinco na Fosfo e estamos dispostos a continuar a luta do Cavendish, custe o que custar.

- Isso não será mais possível, como já deve saber – falou de forma impetuosa, encerrando o assunto – Começaremos na próxima semana. Até lá desejo a todos um ótimo final de semana.

O Doutor Schiavon deixou o anfiteatro junto com a Doutora Lídia, debaixo do clangor de vozes alteradas.

- Eu sabia que isso ia acontecer, Dan.

- Você deveria ter se mantido calado, véio. Agora ele vai tornar sua vida um inferno.

- Você deveria ter me ajudado, e não ficar sentado e mudo, como ficou.

- Eu disse a você que estou pensando no que fazer. Somos apenas dois contra todos. Se quisermos sucesso em nossa empreitada deveremos usar a cabeça e não nossas emoções.

- Não sei como pode se manter tão frio.

- Como disse, Renan, preciso manter as emoções de lado e usar somente a razão. Vamos embora daqui. - declarou, embora sentisse o sangue ferver em suas veias.

- Merda, cara! Eu devia ter ficado de boca fechada.

- Não esquenta. Vamo toma uma no bar do Escobar.

- Não, cara! Eu acho que vou pra casa. Preciso esfriar a cabeça.

- E tem algo melhor do que uma cerveja gelada? – sorriu Daniel, apertando o ombro do amigo cabisbaixo. – Vão bora, cara. Eu pago.

[1] Instituto de Química da USP São Carlos.

[2] Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

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