Escute-me
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Por: stbeiker
Eu

Chata e tediosa como sempre, talvez minha vida seja assim ou apenas não sou o melhor protagonista, porém, para alguns às vezes uma história simples ou entediante, vale a pena.

Há uma escola perto de onde moro, na verdade, é na outra rua que cruza a rua da minha casa. A escola chamada Aglae Kehl. Nesse dia algo diferente aconteceu, uma mulher com sua filha estavam na diretória.

— Você tem certeza de que essa escola é ideal para minha filha? Eu preciso saber se ela pode ser adaptada para o problema dela. — diz a mãe segurando a mão da sua filha.

A diretora, uma mulher muito acima do peso, loira, por volta de seus quarenta anos ou mais, a respondeu com uma expressão feliz, para acalmar a mãe preocupada.

— Sim, nossa escola será perfeita para sua filha. Iremos incluir até um curso para facilitar a comunicação dos alunos e professores com a sua filha, ela será bem tratada e recebida como todos os alunos.

— Geralmente não confio quando os diretores falam isso. Eles nunca realmente fazem o que falam, mas vou acreditar em suas palavras.

A diretora sorri e agradece.

— Quando minha filha pode começar?

— Amanhã as aulas dela começam. E não se preocupe mocinha, enviarei hoje para vocês todas as informações que precisam sobre qual será a turma, turno etc.

— Muito obrigada!

Elas saem e vão para casa. No caminho, a mãe vira para a garota e diz: “Vai ser bom minha filha, amanhã tudo vai ser melhor”.

O dia começou... Eram 6h30min, eu acordei com o despertador do meu celular, me vesti rápido, peguei minha mochila onde já estavam os cadernos que eu iria precisar. Tudo estava organizado. Fui para a sala, deixei a mochila no sofá e logo em seguida fui ao banheiro lavar o rosto. Me olho no espelho e vejo o meu rosto triste. Sim, eu sou triste.

Por que continuo lutando? Por que levanto todos os dias? Por que estou tão cansado sempre? Suspiro e continuo.

Aliás, quem eu sou? Bom, meu nome é Tiago, tenho 18 anos, estou no último ano do ensino médio. Moro em Guaíba, uma cidade pequena onde tudo é igual, quase como uma cidade do interior, perto da capital de Porto Alegre. Vivo com minha mãe e dois irmãos. A Rafaela, a filha do meio com quinze anos e o mais novo, Henrique, com dez anos. E eu sou o mais velho.

Após lavar o rosto, fui preparar o meu café. O servi na mesma xícara que sempre o bebo, uma xícara com um desenho de um skate. Preparei um pão e o comi. Depois fui escovar os meus dentes e arrumar o cabelo, após isso, me sentei no sofá, coloquei os fones e fiquei escutando música, até chegar a hora de ir para a escola.

Sai de casa e fechei o portão com minha chave. Quando cheguei na escola, me sentei em um banco no pátio. Aqui é tudo aberto, de onde estava, dava para observar os muros todos pichados, com um ar de descuido. Se bem que toda a escola é assim, sempre foi.

O horário que eu chegava era muito cedo. Porque os professores se atrasavam muito ou chegavam cedo demais, e apenas se destinavam para as salas antes do sinal sem chamar ninguém, então eu me precavia chegando uns 20 minutos antes do sinal tocar.

Por falar em tempo, não demorou muito para meus dois amigos chegarem. O Guilherme tem dezoito anos e é o mais alto entre nós, ele é bem branco, o que rendeu o apelido de “Alemão”. Logo atrás, veio Vinícius que tem dezenove anos, o mais velho de nós e o mais moreno.

Eles me cumprimentaram e se sentaram o meu lado.

— Como vocês estão? Estão preparados para voltar às aulas depois desse feriado? — pergunto a eles.

— Estou cagando para isso, eu peguei tanta mulher, que estou me sentindo o fodão. — responde Guilherme.

— E você Tiago? O que fez nesse feriadão?

— Nada, como sempre. — falo de maneira fria e desanimada, enquanto olhava para baixo.

— ...

É... Eu sei, sou o dito “chato”, por estar sempre desanimado, com cara de triste, mesmo com as coisas dando minimamente certo. Mas, é que... Como posso explicar? Me sinto consumido pela solidão, angústia, cansaço e monotonia. Ou então posso ser o esquisito e depressivo da turma.

A professora chega, então subimos para a sala e nos juntamos aos outros colegas. Me sentei no mesmo lugar e sozinho como de costume, atrás de mim se sentaram o Vinícius e o Guilherme. A minha turma é chata, têm poucas pessoas, são todos arrogantes em sua maioria, falsos e gostam de menosprezar os outros. A líder é a pior entre todos.

Agora falando da aula, até que foi boa, a professora é legal, tenho aula com ela desde a quinta série.

Atrás de mim, só ouvia Guilherme e Vinícius conversarem sem parar.

— Cara, você tinha que ver a mina que eu peguei, ela é muito linda. Me senti gostoso quando peguei ela, nem acreditei.

— Dá para parar de falar disso?! Eu já tenho namorada, não quero ficar sabendo quem você pegou ou não pegou!

— Ok.

— Valeu.

— Mudando de assunto, você viu o show que a banda Starset vai fazer no Brasil?

— Não, não vi. Vai ser onde? — pergunta Vinícius.

Fiquei animado em escutar isso, essa é uma das minhas bandas de rock atuais favoritas.

— Vai ser em Porto alegre, acho que em outubro.

— Vamos juntos?

— Claro, vamos nós três.

Guilherme se estica em minha direção e me pergunta:

— E aí Tiago, vai querer ir conosco?

Eu poderia e queria ir, mas, por algum motivo respondi outra coisa. O porquê? Eu não sei. Mas, sempre fazia, era algo inconsciente.

— Hum... Obrigado, mas não poderei ir, estarei ocupado.

— Que pena, sua companhia seria legal.

— É.

Eles voltaram a conversar.

O tempo passou e os períodos de cada matéria também. Quando chegou o intervalo, todos nós descemos para o pátio. Mas, antes de ir, os três fomos para o refeitório lanchar, que no caso era sanduíche com suco de uva. Algo muito raro, porque na maioria das vezes é apenas biscoito.

Após pegar o lanche, vou para uma mesa do local, me sento lá e os meus amigos se sentam ao meu lado.

— Ei Tiago, quem você pegou no feriadão?

— Não fala isso cara. – fala Guilherme.

— Por que não?

— Tudo bem, Vinícius. Eu digo. Eu fui iludido por nossa colega.

— Quem? A Monike?

— Sim, conversamos bastante no feriadão, ela disse que gostava de mim e que queria ter algo comigo. Então, comecei a gostar muito dela e quando tentei ter algo com ela, apenas parou de falar comigo e está namorando.

— Caramba, não sabia disso Tiago!

— Tudo bem, Guilherme.

O Vinícius se levantou e foi para o pátio para beber água.

— Cara você vai conseguir outra, tenho certeza.

— Não, eu não vou. Essa já é a sétima que faz isso, que diz gostar de mim, e afirma querer ter algo comigo. Ela até me disse que eu era um cara diferente, raro, bonito, do tipo que não se encontra fácil. Mas, era tudo mentira pelo jeito.

— Eu sinto muito, cara.

— Tudo bem, não é culpa sua que eu tenho azar em relacionamentos.

— É...

— Agora vai lá, eu sei que quer jogar futebol com as outras turmas que estão jogando.

— Valeu!

Ele foi jogar e eu fui para o pátio. Me sentei em um banco e fiquei sozinho escutando música, como sempre faço.

Eu prefiro ficar sozinho, não sei o porquê. Acho que já me acostumei com a solidão, mesmo não gostando. Se bem que ninguém realmente gosta de ser sozinho. Estar do jeito que estou, como um espectador observando aos outros, me faz ter alguns devaneios e acabo viajando em meus pensamentos, como sempre. É... Monotonia, essa é a palavra que define bem meus últimos anos, uma monotonia que não acaba. Como um ciclo infinito que, ao mesmo tempo que me traz segurança e conforto, também piora o que já está ruim.

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