2

 Ficaram em silencio, deixando a música tocada no rádio ser tudo o que preenchia seus ouvidos por alguns minutos. A noite aos poucos foi se fazendo mais e mais presente e logo o céu estava escuro com várias estrelas nele, como se fosse uma pintura de uma tela escura com vários pontinhos brancos e brilhantes espalhados pelo quadro. Era uma visão linda, ainda mais em junção com as luzes da cidade. Alana sorriu, deixando a brisa leve tocar seu rosto, mas não pode deixar de sentir um pouco de frio com isso. Notando isso Ian buscou uma jaqueta escura no banco detrás, entregando-a para Alana que sorriu em agradecimento.

— Melhor te levar para casa, já escureceu. — ele disse e estava pronto para girar a chave na ignição quando a mão de Alana alcançou a sua fazendo-o parar e fitá-la. — O que?

— Podemos ficar mais um pouco? — ela pediu, puxando a mão da dele, e envolvendo-se mais na jaqueta escura que lhe cobria. — Por favor?

  Ian estreitou os olhos, mas por fim deu de ombros, voltando a relaxar o corpo no banco recostado. As mãos novamente foram parar atrás da cabeça, enquanto esquadrinhava o céu escuro com os olhos.

— A propósito, obrigada. — Alana falou, o fazendo baixar o olhar para fitá-la. Ela sorriu, mordendo o lábio inferior com timidez e nervosismo. — Você sabe, por estar me ajudando com minha irmã. Ela realmente precisa estudar.

  Ian deu de ombros, como se aquilo não fosse algo importante, mas então um brilho travesso surgiu em seu olhar e um sorriso torto, quase safado, formou-se no canto de seus lábios e foi se esticando até os tomarem por completo.

 — Não sei porque está agradecendo, tudo o que eu faço sempre tem segundas intenções. — ele piscou safado, soltando um riso leve ao ver os olhos de Alana arregalaram-se levemente, e as bochechas dela corarem. — Relaxe, eu estou brincando Steawart. Não vou te beijar ou coisa do tipo, agora.

— Porque não? — Alana tapou a boca com as mãos imediatamente, mas era tarde, ele havia ouvido. Não era para ter dito aquilo em voz, mas o pensamento simplesmente ganhou vida, transpassado por palavras que escapuliram de sua boca sem controle.

  Ian a olhou sério por um instante e então sorriu. Um sorriso convencido, prepotente, mas acima de tudo, satisfeito.

— Ora veja só, parece que não é tão resistente aos meus encantos como eu pensei que fosse. — ele se gabou, divertindo-se com a coloração cada vez mais vermelha que tomava as bochechas dela. — Você quer que eu te beije, não é?

  Alana se irritou. Se irritou com a prepotência dele, com aquele sorrisinho idiota que ele exibia, se irritou com aquele olhar travesso e desejoso dele sobre ela. Simplesmente irritou-se com tamanha audácia, destapando assim a boca pra poder falar.

— Eu não quero que você me beije seu...

  Mas a palavra assim como a intenção de ofendê-lo perdeu-se por completo no instante seguinte, quando Ian levou uma mão a sua nuca, puxando-a mais para perto com delicadeza e agilidade; então tomando não apenas os lábios delas nos seus, como também seu fôlego e lucidez.

  Instintivamente as delicadas mãos de Alana agarram-se ao cabelo loiro, os dedos perdendo-se por entre os fios loiros, enquanto seus lábios eram sugados com suavidade e desejo nítidos.

 Ela resfolegou quando o beijo chegou ao fim, não somente tentando recobrar o fôlego como também a consciência e controle sobre si. Sentiu a testa de Ian juntar-se a sua, assim como a respiração lenta dele batendo em seu rosto e sorriu ainda de olhos fechados. Buscou cegamente o rosto dele, tocando os pontos mais fortes, contornando cada linha daquele rosto perfeitamente esculpido, contornando os lábios com as pontas dos dedos.

— Lembra que você disse para eu não me apaixonar por você? — Alana perguntou com a voz suave baixa, os olhos permaneciam fechados e a respiração saia ora lenta demais, outrora rápida.

— Uhum. — murmurou Ian, entorpecido demais com o carinho singelo que Alana lhe fazia no rosto.

  A Steawart suspirou, parecendo indecisa em prosseguir ou não, o que quase fez com que Ian pensar em abrir os olhos para vê-la, se ela não resolvesse continuar no instante seguinte.

— E se, hipoteticamente falando é claro, já for um pouco tarde para isso?... A-As consequências serão, quero dizer, seriam muito ruins?

  Alana sentiu a respiração de Ian travar, e arrependeu-se instantaneamente por ter feito a pergunta. Hesitante ela se forçou a abrir os olhos, encontrando os de Ian já abertos e fincados a ela como uma águia atenta a qualquer movimento de sua presa. Ele não estava irritado, ou surpreso, ou qualquer outra coisa que fosse. Ele não aparentava nenhuma emoção, nenhuma mesmo, e nem mesmo frieza ela conseguia ver ali. Ele estava indecifrável, e aquilo era ainda mais assustador a Alana, como se ele fosse incapaz de sentir quaisquer emoção que fosse.

 As mãos de Alana pararam os afagos no rosto de Ian, mas permaneceram lá, assim como seus olhos permaneceram fincados nos dele. Aquele silêncio de poucos minutos a estava torturando, parecia uma eternidade, e a cada segundo seu coração batia mais desesperado em seu peito. O que faria? Desculpar-se? Desculpar-se pelo o que? Deus! Estava tão confusa. Era normal aquilo? E o que era exatamente “aquilo”? Alana temia as resposta de todas as perguntas, ao mesmo tempo em que ficava ansiosa por sabê-las – ou seria aceitá-las?

  Ela já estava prestes a dizer, fazer qualquer coisa – a primeira idiotice que lhe passasse a mente, porém não foi necessário. Qualquer intenção de fazer ou falar o que quer que fosse morreu em sua mente quando viu um sorriso surgir no canto dos lábios de Ian, um sorriso curto, um dos seus muitos típicos sorrisos prepotentes mas que, naquela vez, havia algo mais que ela não soube decifrar. Um sorriso que quebrou a expressão indecifrável no seu rosto, devolvendo também aquele brilho sempre divertido e zombeteiro, porém naquela vez também com algo mais, no olhar.

— Eu não sei, mas, vamos descobrir. — ele disse com a voz rouca, o hálito quente batendo contra a face de Alana que sorriu encantadoramente; sorrindo ainda mais quando os lábios foram novamente cobertos pelos dele, levando a ambos a um novo beijo, a um novo momento perfeito que mesmo que não quisessem, ficaria gravado em suas mentes.

                                                                    [...]

Observava a noite da sacada de seu quarto, a lua estava tímida aquela noite, escondendo-se por entre nuvens densas, grossas, iluminando fracamente o céu que não fosse pelas estrelas estaria em completa escuridão.

 Um suspiro cansado escapou dos lábios rosados, enquanto a garota loira levava as mãos a face, enxugando as lágrimas que por ali escorriam. Sentia tudo doer. Seu corpo. Seu coração. Sua alma. Estava exausta, não física mas sim emocionalmente. Cansada. Simples assim.

 Puxou com força o ar para dentro dos pulmões, fechando os olhos e tentando deliciar-se com o vento gélido que lhe atingia a face como um consolo. Não surtiu efeito. A dor, angustia e tristeza continuavam cravadas em seu peito, e mais do que isso a decepção era gigantesca.

 Esfregou os olhos com as costas das mãos, sabendo que estes deveriam estar bem vermelhos pelo choro de horas já. Girou nos calcanhares descalços retornando para dentro do quarto, e após fechar a porta que lhe dava acesso a sacada, estancou com a visão de quem estava em sua cama.

 A boca abriu-se levemente e a surpresa fora mais que nítida. No entanto, não durou muito. Lisandra suspirou e resolvendo que fazer pouco caso era o melhor, caminhou com passos firmes e sem hesitações até onde ele estava, parando a sua frente.

— Como entrou aqui? — ela perguntou ríspida, e David com uma agonia nítida no olhar lhe ergueu uma sobrancelha. Como se alguma vez tivesse sido difícil para ele, ou qualquer outro membro da Trindade, entrar na casa de Lisandra. Eram considerados da família, logo não havia retesarias da parte dos empregados para lhes deixarem entrar. Lisandra suspirou, cruzando os braços e com a voz dura continuou: — O que você veio fazer aqui, David?

— Eu estraguei tudo, não é? — ele perguntou com a voz em seu tom normalmente sério, porém, com uma tristeza e decepção tão grande consigo mesmo que seria impossível para que Lisandra não notasse.

                                                        ====

A Sheroman suspirou, deslizando as mãos pelo cabelo solto, lhe caindo os ombros.

— Sim, você estragou. — ela disse, controlando a vontade que tinha de abraçá-lo, mesmo sabendo que ele não merecia aquilo. — Você sempre estraga tudo David. Quando vai parar com isso? Quando vai parar de se machucar, e nos machucar?

  O Deeper baixou a cabeça, tamanho o conflito e dor que haviam dentro dele naquele momento. Nunca havia se odiado como naquele momento. Estava magoando eles, magoando todos com quem se importava e realmente se importavam consigo. E pior, estava magoando Lisandra. Lisandra! Como ele pode fazer isso?

— Me desculpa. — ele pediu em voz baixa, tornando a olhá-la nos olhos com mais suplica e desespero no olhar que um dia Lisandra fora imaginar capaz de ver.

  Ela se despedaçou ainda mais. Queria dizer que sim, que o desculpava, queria o abraçar e dizer novamente que o amava como se aquilo o fosse fazer se transformar em alguém melhor, alguém que não tentava se destruir, mas não podia. Sabia que não podia. Não enquanto ele não quisesse desculpar a si próprio, não enquanto ele não pedisse por ajuda e não quisesse se ajudar. Desculpá-lo naquele momento seria inútil.

— Não. — a palavra quase não lhe escapou os lábios, e quando escapou Lisandra sentiu um gosto amargo na boca com ela.

— Por favor. — David suplicou pondo-se de pé; Lisandra afastou-se e aquilo doeu como ele jamais pensou possível em seu peito. — Não se afaste de mim.

— Você nos afastou. Desde sempre. Por medo, por ser covarde... E me desculpe David, se não quero ver a pessoa que eu amo se auto-destruir.

 Aquelas palavras doeram mais do que se estivesse levando uma sequência de socos no estômago de um Ian enfurecido, David notou. Tanto notou que sua expressão sempre tão séria e indiferente foi preenchida por uma que denunciava toda a dor no momento. Lisandra quase voltou atrás. Quase. Mas não voltou. Não por ele, mas por ela. Ela não o queria ver se destruir, não estava disposta a assistir aquilo.

— Lisandra...

— Saia. — ela o cortou prontamente, a voz saindo falhada pelas lágrimas que estava segurando e soluços que estava prendendo. David negou, balançando a cabeça e Lisandra suspirou caminhando até a porta aberta e segurando-se na mesma. — Saia. — ela tornou a dizer. — Saia ou pedirei pra que tirem você daqui.

  David hesitou, encarando-a firmemente nos olhos e foi ali que viu que ela não estava brincando. Quase sorriu com aquilo. Era isso que adorava em Lisandra, sua força. Não importava o quão difícil fosse a decisão, ela era forte e destemida o suficiente para tomá-la. Diferente dele que era um covarde jamais assumido.

  Ele suspirou, arrastando-se em passos lentos, como se com a lentidão tivesse a esperança de convencê-la a deixá-lo ali, com ela. Mas não aconteceu. Ele parou quando já estava fora do quarto, olhando-a nos olhos, perguntando-se como pode ter sido tão estúpido por perdê-la antes mesmo de dizer aos quatro cantos que ela era sua.

— Lisandra eu...

— Boa noite, David. — ela fechou a porta, passando a chave.

 Do lado de fora um David surpreso com o ato suspirou, apoiando as mãos na porta, enquanto do lado de dentro Lisandra deslizava as costas pela madeira branca, até estar sentada no chão. Lágrimas banhavam seus olhos, lágrimas que chorava em silencio, temendo que ele ainda estivesse do outro lado e a ouvisse.

— Me desculpe. Eu te amo. — ambos disseram ao mesmo tempo, porém não ouviram a fala do outro; o tom baixo que ambos usaram e a porta que os separava impediu o feito.

  David suspirou, olhando mais uma vez para a porta fechada com atenção, com esperança de que ela fosse se abrir e ele fosse ver aquela que já tinha ganho o coração que ele nem sabia que tinha a muito tempo para si. Porém, não aconteceu. A porta não se abriu e então ele foi embora.

  Eu te amo, Sheroman Lisandra. – ele disse em pensamento.

  Eu te amo, David. – em sua cama e em meio a lágrimas Lisandra pensou.

  Me desculpe. – pensaram ao mesmo tempo, como se um fio conecta-se seus pensamentos. Não, não era um fio. Era o amor que em segredo cresceu em seus peitos, que em segredo se fortificou e fez residência em seus corações. Amor que, em segredo, dizia adeus e chorava.

                   

Leia este capítulo gratuitamente no aplicativo >

Capítulos relacionados

Último capítulo