Capítulo 4

DAVID

— Merda. Merda. Merda — resmunguei ao tropeçar no tapete do quarto, quando a vi entrar.

Ela estava ali, parada na minha frente, olhando fixamente para mim. Seu porte de executiva era uma novidade para os meus olhos, e o seu aspecto meigo também. Fiquei sem jeito ao perceber que ela me avaliava.

Por que eu estava com vergonha dela?

Merda.

Meu zíper estava aberto.

Que constrangedor.

Fiquei esperando-a para o almoço, mas para minha surpresa um amigo dela chegou. Um cara engomadinho e bem-vestido. Boa pinta, mas não gostei dele assim que o vi. Era o tipo de cara que não se esforçava para ser arrogante, mas se esforçava para parecer educado. A sua postura dizia tudo. Eu tinha passado por poucas e boas, e já sabia, pela minha experiência, que aquele cara era perigoso e manipulador.

Muito manipulador.

— Boa tarde Sra. Cortez — disse ele secamente ao cumprimentar Maria.

— Boa tarde Sr. James. Vou informar que o Senhor chegou... — ela não se importou muito com o comportamento dele — Sem avisar para a Srta. Bartinelle — falou ela ao mostrar o sofá para que ele pudesse se sentar e subiu as escadas.

Não conhecia direito a Sra. Cortez, mas tenho a certeza de que ela não gostava muito desse cara.

Ele, com as mãos dentro do bolso da calça, veio andando na minha direção, com um olhar frio e inexpressivo.

Com arrogância, para ser mais sincero.

— E você quem é? — perguntou desbotando um dos botões do terno, que creio eu, era muito caro.

— Ele é David Sebess... Sr. James — respondeu ela em seu vestido de seda florido ao descer as escadas. Thalía. — Ele é meu namorado — disse simplesmente, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.

Como assim, eu me tornei o namorado dela? Eu era outra coisa, menos namorado, mas não pude deixar de apreciar a cara de babaca do tal James quando escutou aquilo. Sua boca abriu uns noventa graus. Perdeu totalmente a compostura.

— Ele é seu namorado? Mas até um mês atrás, você não tinha ninguém... e não queria ninguém... — questionou ele indignado.

— Eu não queria você James. Foi você quem supôs que eu não tinha ninguém em minha vida e se ofereceu — rebateu Thalía com uma das sobrancelhas arqueadas e com o ar de superioridade que só ela poderia empregar naquele olhar.

— Ele parece ser... — me olhou com desdém — completamente diferente de você... Tão... nem sei o que dizer — deu de ombros.

— E qual é o problema de eu ser o namorado dela? — Ele me ofendeu. Será que eu não estava à altura dela? E não estava mesmo, mas não poderia deixar ele me humilhar.

— Você não faz o tipo social dela... Você é rústico demais para a vida que ela leva — O filho da mãe agora estava me chamando de pobre mesmo.

— Não vejo problema algum em ele ser rústico. E sei bem o que você quis dizer com isso James. Peço que, por favor, não continue a ser mal educado com David — ela o repreendeu segurando meu braço. A corrente elétrica foi ativada assim que as nossas peles se tocaram. O calor foi automático e os pelos eriçaram.

Não aguentei.

Tive que pegá-la de jeito e puxá-la para mais perto de mim e mostrar para aquele riquinho de merda quem era o rústico. Peguei a sua nuca com uma das minhas mãos, enquanto a outra segurava sua cintura até deixar ela na ponta dos pés, e a beijei com força e sem pressa. Sua boca era quente e macia.

Difícil não gostar do seu beijo... Do seu cheiro.

Difícil não se apaixonar por sua pele cheirosa e delicada.

Quando nos separamos, ficamos sem ar.

Um olhando para o outro, com intensidade.

E tudo aconteceu do mesmo jeito. Nos beijamos de novo.

— Não vou ficar para ver isso... — resmungou ele, passando a mão em seus cabelos, enquanto se dirigia até a porta da saída.

O beijo estava muito bom, e confesso que não liguei para nada.

Nem o acordo e nem o tal James me fariam soltá-la naquele momento. Mas, para minha tristeza, ela recuou assim que percebeu que James havia ido. Nós dois ofegantes e olhos vidrados, novamente. Seu peito subia e descia em velocidade recorde. Minha boca queria mais de sua boca e do seu beijo fora do comum. Nem com toda experiência que adquiri durante o tempo de trabalho com variadas mulheres achei alguém assim com um beijo, uma pele e um cheiro tão gostoso quanto o dela. Nós nos afastamos sem jeito, e eu principalmente, por tê-la beijado daquela forma.

— Me desculpe por isso... Lía.

— Sem problemas David. Vamos almoçar — falou ela virando rapidamente em direção à sala de jantar — não sei o que James queria, mas agora não tem mais importância.

Depois do almoço silencioso que tivemos, o dia pareceu uma eternidade. Ao chegar à noite dormimos na mesa cama, mas ela não tocou em mim nem por um segundo, e achava que tinha sido pelo ocorrido.

Seria possível uma pessoa se apaixonar com apenas um beijo?

THALÍA

— Menina Lía, O Sr. James está lá em baixo. Eu não gosto do jeito dele. Ele tem algo ruim dentro dele — informou Sra. Cortez me ajudando a fechar o zíper do vestido.

— Como assim ele está lá em baixo? — levei um susto, já que ele quase nunca aparecia no meu apartamento, a não ser quando ele queria me ver...

— Foi o que lhe disse... Ele está lá em baixo com o Sr. Sebess e não gostei do jeito que o Sr. James olhou para ele — era só o que me faltava: James pé no saco.

Ao descer as escadas percebi que James faria o que faz de melhor.

Humilhar.

Não sei o porquê, mas tive que proteger David. No impulso falei que ele era meu namorado. A cara de James estava impagável, se eu pudesse gargalhar naquele momento, morreria de tanto rir.

Desde que me casei com Clifford, ele não parava de dar em cima de mim. Era sempre inoportuno, chegando de surpresa em minha casa. Depois que Clifford morreu ele ficou pior, mas para minha sorte, em nenhum dia do mês em que ocorreu o acidente ele tinha tido a brilhante ideia de aparecer no meu apartamento de surpresa, exceto por aquele momento. Antes, ele apenas ligava diária e irritantemente durante esse período de luto.

O jeito como ele tratou David não me agradou. Chamar David de rústico com aquele tom de voz arrogante era o fim. Ao me aproximar de David, segurei em seu braço e senti como se fosse uma corrente elétrica passando por meu corpo. Foi uma sensação muito gostosa, mas não poderia demonstrar meu delírio ao apenas tocar o braço de David.

Num piscar de olhos, meus lábios estavam grudados no de David, em um beijo frenético e quente. Lembro que tive que ficar na ponta dos pés para poder acompanhar aquele beijo. Sua mão um pouco áspera na minha nuca foi o suficiente para que eu me derretesse em seus braços.

Fechei os olhos e senti o quão bom era o seu beijo.

Senti os olhos de James queimarem ao ver aquilo, mas eu não estava nem aí para o que James pensaria ou não. Eu não era mais eu, era apenas meu corpo, pois minha alma já não estava mais em mim. Minha alma havia sido consumida por aquele beijo. Aqueles braços fortes me segurando era tudo o que eu queria na minha vida. Mas, minha insegurança não deixou que eu saboreasse aquele momento. Deixei a vontade de ser feliz de lado, por medo de ser magoada novamente e afastei-me dele.

Meus olhos nos olhos dele. Aquela sensação de fogo queimando por dentro e consumindo todo o meu ser não sairia tão fácil de mim. O máximo que eu poderia fazer era virar e ir em direção à sala de jantar sem olhar para ele.

Queria sumir daquele lugar, mas não queria ficar longe dele. Meu jeito determinado de querer tudo profissional estava dando certo, mas eu não sabia até quando. Eu não poderia, em tão pouco tempo, já ter sentimentos por ele, mesmo depois de um beijo perfeito. Não ousei falar uma palavra sequer durante o almoço. Não saberia nem mesmo o que dizer para ele, que me encarava sem parar.

Acho que nem piscava os olhos.

O passar do dia foi penoso, mal tínhamos assunto para conversar, então continuamos em nosso silêncio e troca de olhares. À noite, quando fomos dormir, apenas deitei e não olhei para ele. Sabia que se eu o olhasse não resistiria e voltaria a beijá-lo. Os caras com quem transei não eram assim, ou melhor, com Cliff não era assim. Às vezes, eu apenas chorava baixinho, o que aconteceu por muitas noites.

Chegou uma hora em que cansei de ficar chorando sem parar por não me sentir amada. Eu não merecia fazer isso comigo. Mesmo não querendo ser magoada, ou até de ter um relacionamento sério, eu queria David, mesmo que fosse apenas por sexo. Não sei ao certo como foi que isso aconteceu, mas eu o queria junto a mim.

Já era madrugada quando acordei, suada e olhei para ele, que estava lindo ao meu lado. Não resisti. De leve, para não acordá-lo, dei um beijo em sua boca. A sensação de beijá-lo daquele jeito foi incrível. Meus olhos fechados e aproveitando aquele momento, me deixei levar.

Seu cheiro de homem me deixou embriagada.

Entorpecida.

Seu hálito era de um leve toque de hortelã.

Seu cabelo negro, brilhoso e macio.

Sua pele morena e macia.

Seus músculos por baixo da camisa e sua linha firme no maxilar era o que eu queria naquele momento.

Não. Isso não poderia acontecer. Não com ele. Na minha vida, existia um abismo emocional enorme entre nós dois.

Eu não ia me apaixonar por ele.

Eu estava destruída por dentro. Meu coração estava esmagado. Quebrado, com pedaços espalhados pelo chão.

Quando senti que ele iria se mexer, voltei para meu canto e com as mãos cobrindo o meu rosto, chorei. Chorei por querer ser uma pessoa que nunca seria: calculista e sem emoção para as coisas que estavam ocorrendo comigo. A culpa de isso tudo acontecer era minha. Eu era fraca e estava fraquejando por ele, mesmo quando prometi que não ia mais chorar. E ali estava eu, chorando novamente.

Manhattan estava me chamado para uma caminhada de libertação. O sol batia na janela e aquecia o quarto, deixando-o ainda mais confortável. Olhei para o meu lado e o vi, lindo e despreocupado. Era hora de esquecer um pouco e correr pelo parque. Até poderia usar a academia supercompleta que tinha no apartamento, mas o ar fresco me chamava para fora.

Nada de demonstrar que está começando a se apaixonar por ele, até porque era ridículo que em mesmo de vinte e quatro horas eu tivesse me apaixonado por ele. Tomei meu banho e coloquei minha roupa de corrida. Olhei a cama e ele ainda dormia como um anjo. Pare de olhar. Pare de babar, pensei. Ridícula. Playlist pronta e repleta de músicas das minhas cantoras, cantores e bandas favoritas. Beyoncé... Adele... Lana Del Rey... Justin Timberlake... Nirvana... — Sim Nirvana — entre outros cantores que eu amava.

Correndo e curtindo o som. Aquilo estava me fazendo muito bem.

Correndo e sentindo o ar puro da manhã.

Sentindo a música me envolver e me fazer viajar.

Beyoncé cantava “Listen”. O vento batia no meu rosto quando as lágrimas começaram a escorrer, e quanto mais rápido eu corria, querendo que tudo que eu tinha passado fosse esquecido, mais as lágrimas saiam. Meu fôlego já estava sumindo. Soluços e mais lágrimas. Parei com minhas mãos apoiadas nos joelhos e olhando para cima, não aguentei mais e desabei em mais lágrimas. A voz dela ecoava na minha cabeça. Eu estava perdida. De repente o tempo começou a ficar frio. Nublado. Sem vida. Queria me abraçar mentalmente, mas não conseguia nem pensar direito na possibilidade disso acontecer. Escutei trovões e a chuva começou a cair. Como poderia já estar daquele jeito?

Quando a voz dela chegou à parte mais alta da música, eu já não sabia mesmo o que fazer ou para onde ir. Os sentimentos tomaram conta de mim por completo...

“I am alone in a crossroads”....

Eu realmente me sentia assim. Perdida. Sozinha. Sem rumo. Passei a mão em meus cabelos em um meio de pedir ajuda, perdida em meu desespero. Olhei para os lados e graças a Deus ninguém estava ali para ver o que acontecia. Aquilo me sufocava. Estava sem ar. Estava como se estivesse perdendo minha vida. Estava tudo turvo. A chuva que molhava meu corpo lavava minha alma. Queria me livrar daquele sofrimento. A música me levou para um lugar que eu ainda não tinha ido. Para o desespero e a dor. E tudo, de uma única vez, explodiu dentro de mim. E o que antes era importante, já não passava de poeira ao vento.

Voltei para o meu apartamento. Jack me olhou preocupado e com ternura, mas não queria parar para dar bom dia. No elevador tentei, sem sucesso, enxugar minhas lágrimas que ainda desciam timidamente por meu rosto. Minha roupa estava encharcada de água. Meu iPod já era. Meu cabelo estava um bagaço completo, mas minha alma estava nitidamente limpa. Meu coração estava limpo e aliviado.

Chorar tinha me feito muito bem.

Maria estava na sala arrumando os quadros da parede quando entrei. Seus olhos ternos e calorosos encontraram os meus. Ela era o mais próximo que eu tinha de um exemplo de mãe. Ela largou tudo que estava fazendo e abriu seus braços. Como resistir a um carinho em um momento tão volátil da minha vida? Ela me envolveu em seus braços ternos e quentes. Sempre foi carinhosa e amável comigo. Eu a respeitava. Apenas respirei fundo e aproveitei aquele momento de carinho e afeto mútuo. Ela afagava meu cabelo, pondo minha cabeça em seu ombro.

— Estarei sempre ao seu lado minha menina. — a sua voz me acalmava. — Mas se você não tirar essa roupa molhada... Vou me atrever a lhe dar umas palmadas. — aquilo me faz rir.

— Atchin! — espirei logo em seguida. Eu sentia que iria gripar e me sair mal nessa história. Comecei a fungar, me sentindo quente. Ela passou a mão em minha testa e me olhou com jeito preocupado. — Eu estou bem Maria... — falhei na minha tentativa de afirmar que estava realmente bem.

— Vou chamar o Dr. Patterson, e sem reclamações...

— Onde está David? — perguntei tentando parecer casual. Falhei de novo.

— O Sr. Sebess saiu...

— Ah... — senti uma pontada de tristeza.

— Ande. Tire longo essa roupa molhada. — falou ela de maneira autoritária. Ela era a única pessoa no mundo que poderia falar daquela forma comigo.

A única.

Logo o Dr. Patterson chegou e me examinou. Estava apenas resfriada e com trinta e nove e meio de febre, mais um pouco e entrava em convulsão. Meu peito já estava congestionado. Eu tinha que ficar de molho na cama por no máximo sete dias. A empresa tinha que esperar a minha recuperação.

Minha vida sexual, que mal tinha começado, tinha que esperar também.

Ainda tinha três semanas de contrato com ele, e mesmo assim, não seria o suficiente. O tempo estava passando rápido. E eu estava ali, deitada em cima de uma cama e gripada. Enrolada em um edredom, com a ponta do nariz vermelha e o corpo quente, mas não era o quente que eu queria. Queria meu corpo quente de outra maneira. Acho que ficar doente estava me deixando um pouco sem juízo. Com certeza tinha perdido o pouco de juízo que ainda me restava.

Dr. Patterson deixou as instruções sobre os horários dos remédios com Maria e foi embora.

Quando passou do meio dia, escutei no fundo sua voz macia e grossa. Os remédios que tomei não estavam fazendo efeito, pois tinha escutado sua voz ao longe, com um tom de preocupação. Meus olhos estavam pesados. A danada da gripe tinha me pegado de jeito e a minha garganta ardia.

A gripe tinha me deixado sonolenta e aos poucos fui fechando os olhos.

Da próxima vez que eu fosse correr, iria olhar a previsão do tempo primeiro.

Senti sua mão em meu rosto.

Era realmente um sonho. Alguém, além de Maria, se preocupava comigo.

Aproveitei a sensação do seu toque e das suas mãos firmes e carinhosas afagando meu rosto.

Adormeci, sentindo-o beijar minha testa.

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