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Emmanuele

                Eu não esperava que Guilherme fosse jovem, estava imaginando um idoso relativamente parecido com o advogado que havia encontrado mais cedo, mas ele devia ter mais ou menos a minha idade, era alto, com cabelos castanhos volumosos e olhos tão escuros que pareciam pretos.

                - Emanuele? – sua voz soou antes que eu pudesse cumprimentar.

                - Sim. – confirmei me aproximando.

                - Guilherme. – ele estendeu a mão para mim, e a apertei, observando o quanto era grande perto da minha.

                Sorrimos, um pouco sem jeito, mas antes que qualquer outra palavra fosse dita, Ana apareceu e disse que o jantar estava posto. Satisfeitos em ter com o que nos ocupar, a seguimos até a sala de jantar e nos sentamos frente a frente.

                Era impossível não lançar olhares para Guilherme enquanto comíamos em silêncio, e notei que ele estava fazendo a mesma coisa. Será que ele esperava alguém diferente ou estava um pouco mais bem informado sobre a história de nossa família?

                - Preciso perguntar, Emanuele. – ele disse depois de alguns minutos, passando um guardanapo pelos lábios – Por que o interesse em conhecer a casa depois de tanto tempo?

                - Preciso me explicar. – apoiei os talheres no prato – Eu só fiquei sabendo ontem sobre esse lugar. E apenas poucos dias atrás, quando o homem que acreditei ser meu pai a vida toda morreu, descobri que na verdade sou filha de outra pessoa.

                - Queria ficar um pouco mais surpreso. – ele deu um meio sorriso.

                - Como assim? – franzi a testa, confusa.

                - Acho que nossa família tem uma tendência para confusão. – ele me encarou por alguns instantes, divertido.

                - Eu devia me sentir um pouco menos estranha com tudo isso, então? – não pude deixar de rir.

                - Acho que sim, porque eu estou. – ele me acompanhou na risada.

                - Já esteve aqui várias vezes? – peguei novamente meus talheres.

                - Apenas uma vez. – ele também recomeçou a comer, com uma expressão muito mais leve do que antes.

                O resto do jantar aconteceu em silêncio e, quando Ana nos ofereceu alguma bebida, aceitamos um chá. A convite de Guilherme, fomos até a varanda com nossas xícaras e observamos a paisagem escura.

                - Conheceu meu pai? – perguntei por fim, sem conseguir mais adiar.

                - Na verdade, não. Foi uma surpresa herdar essa casa também. – havia certo humor em suas palavras.

                - Não acredito! – exclamei me virando para olhá-lo.

                - Eu juro. – ele riu, relaxado.

                - O que sabe da história? – insisti, mais curiosa do que já estivera antes.

                - Tudo que sei é que o homem que nos deixou a casa se chama Heitor. – ele encostou o quadril na cerca da varanda – Segundo o advogado, ele vivia sozinho aqui e morreu, dois anos atrás, deixando instruções para que nos encontrassem.

                - O que somos, então? Que parentesco temos?

                - Sinceramente não sei. – ele me observou atentamente – Pensei que fosse encontrar alguém parecido comigo, mas você não poderia ser mais diferente.

                O observei também, entendendo o que ele queria dizer. Eu tinha um cabelo em tom de mel, olhos verdes e uma pele um pouco pálida – o que era reforçado pela minha aversão em ficar ao sol -, e ele tinha cabelos e olhos escuros, e uma pele um pouco mais bronzeada.

                Não que isso quisesse de fato dizer alguma coisa, mas percebi que eu talvez também não estivesse esperando algo assim.

                - Pelo menos você sabe que Heitor era seu pai. – Guilherme sorriu, tentando me dar algum consolo.

                - Mas ele deveria ser algo seu também. – emendei – Senão não deixaria a casa para você. Não tem a quem perguntar?

                - Infelizmente não. – ele suspirou, depois bebeu um gole de chá – Meus pais já faleceram.

                - Sinto muito. – meu coração se apertou um pouco.

                Guilherme sorriu, mas não pareceu encontrar mais nenhuma palavra e o assunto morreu. De repente éramos apenas dois estranhos numa casa grande demais, com algum possível parentesco e um drama familiar pairando sobre nossas cabeças.

                - Acho melhor ir dormir. – comecei a voltar para dentro da casa.

                - Eu também. – ele me seguiu.

                Depois de apoiarmos as xicaras na mesa, subimos juntos pela escadaria.

                - Boa noite, Emanuele. – ele desejou, indo para o lado oposto ao do meu quarto.

                - Boa noite. – respondi observando suas costas se afastando.

                Aquela noite de sono foi realmente restauradora. Quando abri os olhos, por alguns instantes eu nem mesmo me lembrava de onde estava. Precisei esperar até que as lembranças fossem retornando.

                Quando desci, havia apenas Ana no andar de baixo, pronta para me servir.

                - Onde está Guilherme?

                - Ele saiu mais cedo, acho que está explorando a propriedade.

                Parte de mim ficou chateada por ele não me esperar, mas resolvi ignorar. Nós éramos apenas desconhecidos com algum laço sanguíneo pouco significativo, não tínhamos nenhuma obrigação um com o outro.

                Mesmo certa disso, assim que acabei de comer, fui para o lado de fora para explorar mais o local apenas porque ele tinha feito isso. Estava um belo dia de sol, mas não muito quente, e uma brisa suave tocava minha pele.

                Explorei a capela, testando sua porta, mas ainda estava trancada. Andei até os fundos, onde encontrei, para minha surpresa, Guilherme sentado no chão comendo uma fruta com as mãos.

                - Bom dia. – me cumprimentou com um sorriso.

                Vacilei, perdida por um momento em seus movimentos com as mãos.

                - Bom dia. – respondi um pouco baixo demais, mas ele não pareceu notar.

                Fiquei parada, sem saber se deveria me aproximar mais.

                - Está tudo bem? – ele me observou com cuidado.

                - Está sim. – eu estava um pouco agitada, sem saber bem o motivo – Dormiu bem?

                - Perfeitamente. – Guilherme ficou em pé e se aproximou.

                Seu cheiro me atingiu, forte e marcante, e não sei o que me aconteceu, mas não parecia muito certa a nossa proximidade.

                Resolvi voltar pelo mesmo caminho por onde tinha vindo, então me virei, mas na pressa torci o tornozelo e balancei perigosamente. Antes que eu caísse, Guilherme passou os braços ao meu redor.

                Senti a dor no tornozelo, mas também o arrepio que percorreu meu corpo quando nossas peles se tocaram. Incapaz de me conter, ergui os olhos para seu rosto, e, para minha surpresa, ele me olhava como se tivesse sentido a mesma coisa.

                - Você está bem? – Guilherme rapidamente mirou meu pé.

                - Está doendo um pouco. – virei o rosto para a mesma direção – Acho que vou pegar um pouco de gelo.

                - Eu levo você.

                Em segundos, ele me ergueu do chão e encaixou em seus braços como se eu não pesasse mais do que uma pena. Tentei ignorar outra onda de arrepios, mas assim tão perto e com seu cheiro invadindo minhas narinas, estava um pouco mais difícil.

                Fui colocada em um sofá na sala com muito cuidado, depois ele sumiu pela porta que dava acesso a cozinha e voltou com o gelo.

                - Está um pouco inchado. – observou enquanto colocava o gelo na região – Mas não deve ser algo muito grave. Quer que eu arranje um médico?

                - Não é necessário. – me esforcei para a voz sair natural.

                Por alguns minutos ele ficou ali ao meu lado, concentrado no machucado e evitando meus olhos. Eu estava hipnotizada, sem conseguir pensar em outra coisa enquanto sentia o frio contra a minha pele e observava seus movimentos.

                - Melhor? – Guilherme finalmente ergueu o rosto.

                - Sim. Obrigada. – eu tinha vaga consciência de que o estava encarando.

                Nossos olhares se prenderam um ao outro, e dessa vez ele não conseguiu evitar. Era como se estivéssemos sendo atraídos um pelo outro, como imãs. Notei vagamente quando ele se aproximou ainda mais, com meu coração batendo desesperadamente acelerado contra minhas costelas, mas um som de porta se abrindo nos repeliu.

                - Os senhores querem algo de especial para o almoço? – Ana surgiu, ocupada com alguma tarefa e sem perceber o que estávamos fazendo.

                - Não. – respondemos ao mesmo tempo, completamente constrangidos.

                - Preciso ver umas coisas. – Guilherme se afastou, levando o resto do gelo com ele.

                - Eu também. – concordei, apoiando os pés no chão.

                Ignorando uma pontada leve de dor, subi as escadas quase correndo e me tranquei no quarto. Com o coração ainda descompassado e a respiração alterada, me perguntei porque eu tinha ido até ali e o que estava pensando que estava fazendo.

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