Capítulo 3

A noite chegava lentamente em Belo Horizonte. Algumas ruas ficavam numa penumbra, o céu escurecia rapidamente e as lâmpadas dos postes se ascendiam. Algumas pessoas vagavam silenciosamente pelo caminho. O clima estava ameno e o ar levava para todos os lados o cheiro de pães frescos e café moído. Era quase impossível passar por aquelas ruas naquele horário e não parar em uma padaria ou em uma lanchonete para provar um pouco do café amargo, mas muito saboroso e, é claro, os pães frescos com o queijo mineiro tradicional.

Catarina passava pela rua, indo em direção à igreja, o ambiente do qual passara um período sem visitar. Um misto de ansiedade cobria a garota, ela não podia evitar, a dança era a sua paixão. Entrou em uma ruazinha, algumas pessoas estavam em frente às suas casas, conversando distraidamente com algum vizinho ou alguém conhecido.

Ela trajava roupas leves e calçava uma sapatilha branca, levando uma meia para vestir assim que chegasse. Seus cabelos estavam presos em coque frouxo e alguns fios caíam em sua testa.

A igreja estava entreaberta e uma luz fraca saía pela entrada. Cat deixou suas sandálias em um canto e fechou a porta assim que adentrou o ambiente. O espaço era grande, algumas cadeiras se espalhavam, mas lá na frente havia um espaço vazio onde três meninas estavam em um círculo, com as mãos dadas. Sussurros eram ouvidos e ela pôde facilmente deduzir que estavam fazendo uma oração e aquele não seria seu forte, então, sentou-se na última cadeira e observou as meninas ao longe.

— Tu és excelentíssimo, Senhor, nosso Pai. Agradecemos mais uma vez pela oportunidade de nos reunirmos aqui hoje, em seu nome e que toda honra e toda a glória seja dada somente para ti. Dirija esse ensaio da forma mais prazerosa possível e que venhamos te adorar com nossos passos. Amém! 

— Você deve ser Catarina. Jéssica falou que viria a amiga dela para o ensaio, venha, se junte a nós — anunciou a garota de cabelos curtos que antes orava. Ela se apressou em apresentar as outras duas meninas e elas tentaram demonstrar atenciosidade.

— Onde está a Jéssica? Ela não vem? — disse e abriu um sorriso fraco.

— Seria uma loucura se ela não viesse, não acha? Ela mora longe daqui, o pai dela trará ela de carro então ela não demorará tanto. 

Realmente não demorou muito até Jéssica surgir na porta e logo dar pulinhos ao ver sua amiguinha loira. Correu na direção dela e a abraçou.

— Catarina! — Exclamou ela, ofegante. — Estava em dúvida de que você viria, mas ainda bem que você veio, não consigo conter a minha felicidade. 

Ela realmente não conseguia. Seu olhar brilhava e ela estava eufórica. Sua franja se agitava a cada movimento que ela, inquieta, dava. Porém, elas não fizeram questão de demorar mais para iniciar de fato aquele ensaio.

Jéssica explicou sobre para quando seria aquela apresentação da qual iriam ensaiar e pediu que Catarina observasse os passos que elas já tinham feito até o momento.

Cat estava encantada, a filha do pastor, a garota de cabelos curtos, aparentava saber mesmo liderar um grupo de dança, apesar de sempre ficar bem quieta no seu canto, até onde se lembrava. Ela estava na igreja a mais tempo que Catarina, as outras meninas é que eram novatas. 

Um passo delicado, levanta as mãos para os céus, rodopia, dá dois passos para a frente e vira para trás, eram passos súteis de balé clássico com algo mais espontâneo e a música dizia "até tocar o céu". Elas pareciam mesmo tocar o céu, ou ao menos caminhar entre as nuvens com passos delicados e determinados. 

Jéssica pediu a opinião da amiga que observava atentamente todos os passos.

— Quem sou eu pra apontar defeitos? Cada passo está uma perfeição e dá pra sentir muito mais a música e o que diz a letra. Vocês farão uma apresentação perfeita. 

— Nós vamos sim, você também vai, eu já falei com o pas... — ela começou, mas foi interrompida pelo burburinho das meninas que falavam algo com ar de desaprovação.

— Meninas, eu não aprovo isso aqui e vocês sabem, o que tem contra Cat? — perguntou Júlia, a líder.

— Por que teremos de dançar com uma garota que está afastada?

— Se ela está afastada, então deve estar imunda — alfinetou uma com cabelos lisos e longos, cruzando os braços. — Eu me recuso a ficar com alguém que nem vai à igreja e nem serve a Deus direito, eu prefiro não dançar.

— Já chega! Me desculpe, Catarina, não liga para o que elas estão falando, eu suponho que os discipulados não estão ajudando, elas não aprenderam a não julgar. Vocês não são melhores que ninguém, mocinhas.

Catarina abaixou a cabeça e não conseguiu dizer mais nada. Mas também não conseguiu ficar mais naquele ambiente. A chance que ela estava dando para aquela "casa de Deus" fora arruinada. Aproveitando a distração das garotas, ela saiu silenciosamente, sem ser notada.

A noite já estava facilmente notável. O movimento nas ruas era um pouco fraco, mas ainda haviam pessoas a caminhar. Cat se sentia muito mal e insegura, ela sabia que todas aquelas acusações eram a mais pura verdade e se fechou em si mesma. Naquele momento ela se achava a pior pessoa.

Cada rua que ela entrava causava um arrepio em seu corpo. Sua blusa tinha uma fina alça e os pelos de seus braços se eriçavam com o vento frio que roçava em sua pele.

Chutando uma pedra no caminho, suspirou com o pensamento de que nunca mais pisaria os pés em um ambiente como aquele.

Ela passou por uma rua, de forma rápida e silenciosa, para não ser notada, mas, não fora veloz o suficiente para se livrar de seus olhos atentos. 

Na frente de uma casa pintada de branco, um casal sorridente se abraçava e conversava com os rostos próximos um do outro. Eles conversavam distraidamente, mas logo ela subiu nas costas dele e ficou brincando intimamente. Eles pareciam ter a mesma idade, pareciam se conhecer a bastante tempo e aparentavam ser namorados ou algo mais íntimo, não dava para saber só os observando.

Ele a colocou novamente sentada no muro que estava inicialmente e beijou o topo da testa dela, que resmungou um "amor, queria ficar mais um pouco". Ao qual ele respondeu com um riso e com uma voz firme que deu para ouvir-se de onde Cat estava.

"Docinho, me desculpe ter me atrasado pra te encontrar. Prometo que amanhã te levarei para um lugar legal e compensarei."

Catarina limpou a garganta, desfazendo o imenso nó que se formou em sua garganta e estreitou os olhos, focando nos cabelos negros e lisos que se ajuntavam e assumiam formas pontudas ao redor de sua cabeça. 

A voz extremamente conhecida, chamando a garota de docinho e de amor repetidas vezes. As mãos a acariciar o rosto delicado e quase angelical e imaginou que a menina de cabelos longos estaria a aproveitar bem os abraços aquecedores daquele g aroto.

Aquele garoto, que se chamava Vinícius.

  ҉  

Leia este capítulo gratuitamente no aplicativo >

Capítulos relacionados

Último capítulo