Condenada Paixão
Condenada Paixão
Por: AutoraSfanneBR
Capítulo 1

LEXIE

Meu turno de 12 horas finalmente chegou ao fim. Estou tão cansada que preciso me esforçar para manter os olhos abertos. 

A emergência, enfim, está vazia.

Me recosto às prateleiras de suprimentos médicos e fecho os olhos por uma fração de segundos. Poderia finalmente me render a exaustão ali mesmo, no entanto meu telefone toca e acaba por me despertar rapidamente.

— Alô? — Balbucio, a voz sonolenta, meio hesitante.

— Querida, sou eu. — A voz de minha mãe soa maviosa no outro lado da linha.

Difícil despertar com essa voz que é tão suave e serena. Sorrio.

— Oi, mãe.

— Tudo bem, querida? — estou prestes a responder, mas ela prossegue antes disso: — Evan está aqui. Vai te buscar no hospital.

— Eu ficaria imensamente grata. Estou cansada demais para dirigir.

— Oh, querida. Isso me corta o coração.

Solto uma risada baixa. Mamãe é tão preocupada comigo. Parece que ainda sou a mesma garotinha de dez anos de idade. Ela esquece que a garotinha tem vinte e três anos e está crescida agora.

— Mamãe, só estou cansada. Nada que uma boa noite de sono não resolva.

— Te amo, Lexie. — ela suspira no outro lado da linha. Um longo suspiro. Parece preocupada. — Quando for mãe, vai saber exatamente como me sinto. Fico preocupada assim que põe seus pés fora de casa e isso só parece sossegar quanto te vejo com os pés em casa novamente.

— Mamãe, eu te amo. — digo com sinceridade. — E quanto aos filhos... talvez em um futuro um pouco distante.

Filhos não estão nos meus planos, muito embora casar esteja. Não porque é meu sonho ou algo do tipo, mas porque Evan, meu noivo, simplesmente me colocou na cabeça isso e eu não poderia negar, já que estamos juntos há longos quatro anos.

Nos casaremos no meio do ano. A meu pedido. Porque, de sua parte, nos casaríamos amanhã. Ele me ama, eu tenho certeza. E eu...

— Lexie, estava procurando você...

Afasto o telefone do rosto rapidamente e vejo Victoria no espaço entreaberto da porta.

Ergo o cenho.

— Tem um paciente. Dois, na verdade. Estou cuidando de um deles. Será que você poderia...?!

Exceder meu plantão mais uma vez? Digo a mim mesma, me contorcendo por dentro.

Por fora, tudo que faço é apenas balançar a cabeça em afirmação.

Victoria agradece e depois sai sem esperar por mim.

Me volto para a ligação, mamãe ainda está na linha.

— Lexie, tudo bem?

— Sim. — suspiro fraco. — Avise ao Evan, por favor, que acabou de surgir  um novo paciente. Deve demorar um pouco, então...

— Mas, querida, seu turno já acabou, estou certa?

— Tecnicamente. — digo, com pouco entusiasmo. — Enfim. Eu tenho que ir.

— Amo você, Lexie.

E a ligação é finalizada. Ando pelo pronto socorro e vejo um homem maduro, alto e bronzeado. Victoria está cuidando dele. Parece ter sido ferido no rosto. Está com um corte na testa, aparentemente profundo. Vic me olha, parece tensa, com os olhos, ela me assinala o leito 1, que está fechado pelas cortinas esverdeadas.

Assinto. Pego meus suprimentos e afasto a cortina com ligeireza.

O que encontro me deixa meio sem fala. É um homem, bem mais novo do que o cara que Vic está cuidando. Ele tem a mão ensanguentada. Toda a cama que ele está sentada está coberta por sangue. Quando nossos olhos se esbarram, não sei o que noto primeiro:  seus olhos castanhos claros tão vibrantes ou o corte abaixo dos olhos que está disforme.

Sua camiseta branca está suja, partes por sangue e outras acinzentadas de sujeira.

Me aproximo e coloco as luvas, ele fixa os olhos castanhos nos meus e eu fico meio desconcertada.

— Eu... sou... vou cuidar de você. — digo.

— Não preciso de cuidados. Só preciso que limpe para não infeccionar.

Não sei dizer se ele me parece rude ou apenas muito frio e distante. Acho que fico com as três coisas, porque é isso que ele aparenta ser.

— Uma limpeza com certeza não é o suficiente. Você vai precisar levar alguns pontos na mão e farei um curativo em sua testa.

— Não acho que seja necessário...

— Desculpe, mas a enfermeira sou eu. Então, eu decido o melhor para o meu paciente.

Ele fica calado. Parece não ter gostado do meu comentário. Mas eu realmente não me importo com isso.

Com tenuidade, retiro o pano envolto em sua mão e começo a fazer uma limpeza. Comprimo o local com as minhas mãos para que o sangue suspenda. Insuspeitamente aterrisso meus olhos no homem. Ele está de olhos fechados, mas em momento algum parece estar sentindo dor.

Volto meus olhos para a sua mão e, quando o faço, percebo seus olhos em mim. Em cada parte do meu rosto, para ser franca. Mas o local que seu olhar mais me incomoda são os lábios, porque me parece que esse local em específico acabou por fisgar toda a sua atenção.

— Vou suturar agora. Pode doer um pouco.

— Acho que dou conta disso. — diz ele, mas para si do que para mim.

Dou de ombros.

Dou o primeiro ponto. Olho para ele, está imóvel, nenhuma expressãozinha que me dê uma luz do que ele esteja sentindo. Deve ser qualquer coisa menos dor. Segundo ponto. Ele continua firme e forte. Terceiro ponto. Nada. De novo. E, por fim, o quarto ponto. Corro meus olhos quase que desesperadamente para seu rosto. Não é possível que ele não sinta algum vestígio de dor.

Fico com meus olhos em seu rosto por longos segundos. Ele finalmente abre os olhos e parece surpreso em me ver o encarando.

Arrisco dizer que um sorriso começa a surgir no canto de seus lábios.

Merda.

Por que ele está sorrindo? Esse cara é um homem ou uma máquina?

— Pronto. — pisco os olhos meio atordoada. Coloco suas mãos com cuidado sob a cama depois de colocar um curativo no local ponteado.

Levanto-me da cadeira, retiro as luvas que estão sujas com resquícios de seu sangue.

Respiro fundo. Porque agora tenho que ir para seu rosto.

Coloco luvas limpas. Me aproximo dele. Tenho que me esforçar para não fraquejar a cada passo que dou em sua direção.

— Vou cuidar... — Encaro seus olhos. A ferida está abaixo, mas só consigo olhar para seus olhos.

Merda.

Merda.

Merda.

— Acha que vai precisar de pontos?

Ele diz. Sinto um indícoo de medo em sua voz.

Mordo os lábios. Tenho que focar apenas no ferimento.

Foco no ferimento, Lexie.

Foco no ferimento.

Foco no...

— Não. — me afasto de um jeito veloz. — Não será necessário. Farei uma limpeza, farei um curativo e já estará liberado.

Ele assente.

— Tudo bem, enfermeira.

Por que sinto um arrepio percorrer minha espinha quando ouço ele me chamar de enfermeira? Isso é tão comum, porque é o que sou. Mas ouvir isso dele. Ouvir a palavra enfermeira saindo de seus lábios, seus lábios se movendo para cima e para baixo. Para cima e para baixo. Para cima...

Mas que inferno está acontecendo comigo?

Horas sem dormir. É isso que está acontecendo comigo.

Apenas se concentre, Lexie.

Encaro o homem à minha frente. Agora tenho que estar bem mais próxima a ele, porque o ferimento é um pouco abaixo de seus olhos. Maldito local. Abaixo dos olhos, pouco acima dos lábios.

Pego o algodão com álcool e ergo minhas mãos até a altura do ferimento. Meu corpo está próximo dele. E isso me deixa desconcentrada. Mas eu preciso ter foco. O rapaz está sentado no leito, ele abre um pouco as pernas e eu estou quase no espaço entreaberto de suas pernas. Meus olhos tentam focar apenas no ferimento, mas algum maldito lado do meu ser quer apenas olhar em seus olhos, focalizar em seus lábios e...

Algo segura fortemente minhas mãos. Pisco os olhos algumas frenéticas vezes. Ele está segurando minha mão e agora está fazendo uma careta. E eu estou simplesmente assustada com seu toque inesperado.

— Au! — ele resmunga.

— Me desculpe... eu...

O mesmo sorriso de minutos atrás volta a aparecer no canto de seus lábios e eu agora suponho que esse sorriso seja por minha causa.

Quer dizer... não por minha causa, mas eu sou o motivo. Acho que ele aprecia meu jeito atrapalhado, minha vergonha de encará-lo.

— Tudo bem. Apenas... continue.

Assinto com a cabeça.

Vou continuar. E farei isso o mais rápido o possível. Digo a mim mesma para correr.

Durante todo o tempo em que faço a limpeza e coloco o curativo, todo esse tempo tenho seus olhos vidrados em mim. E deveria ser tudo bem, porque tenho os olhos da maioria dos pacientes em mim enquanto realizo algum procedimento, mas desta vez... desta vez me parece diferente, porque me incomoda. E, ao mesmo tempo, me agrada.

É uma sensação esquisita. Nem boa, nem ruim.

Finalizo tudo e me afasto dele tão rápido que até eu me assusto com a velocidade.

Jogo as luvas no lixo e fico de costas para ele. Não sei se quero encará-lo. Não sei se consigo. Ele me intimida, tenho que admitir que ninguém jamais me intimidou como ele o faz.

— Em sete dias você pode voltar para tirar os pontos da mão. E... eu recomendo apenas que tenha cuidado, não tente fazer movimentos bruscos e...

Ainda estou de costas, percebo que estou de olhos fechados, me espremendo para continuar meus dizeres sem falhar, mas sinto um arrepio percorrer toda a minha espinha e eu nem preciso me arriscar em dizer que ele está parado, bem atrás de mim, esperando Deus sabe o quê.

— Devo procurar você em sete dias? — ele sussurra.

Aperto mais os olhos.

— Não necessariamente... — sopro.

Se estivesse virada o encarando, arriscaria a dizer que aquele maldito sorriso de canto de boca está de novo lá, em seus lábios, fazendo morada.

— A não ser que eu queira, certo?

— Se fizer mesmo tanta questão... — digo, e agora quem está sentindo uma vontade gritante de sorrir sou eu. Inferno. Que estou fazendo?

— Então, enfermeira...

Enfermeira. Não. Não me chame assim. Não.

— Como você se chama mesmo?

Pode me chamar de enfermeira. Isso parece perfeito para mim.

Me viro de uma só vez. Rapidamente. Meus olhos arregalados. Estamos quase colados um no outro. E, só agora que ele está em pé, percebo o quanto sou uma miniatura de mulher perto dele.

— Lexie. — digo.

Dessa vez seu sorriso é largo. E eu sinto que gosto mais desse sorriso do que do sorriso de canto de boca.

— Lexie. — ele repete. — Certo, Lexie. Estarei aqui em sete dias.

Mordo os lábios e assinto.

Ficamos ali, naquele impasse, nos encarando, até que ele estende os braços - que são fortes, vale ressaltar - que passam por mim sem dificuldade para puxar a cortina verde que nos mantém ali, sozinhos, longe de todo o hospital.

Me afasto e dou espaço para que ele passe por mim. Ele o faz.

Me olha mais uma ou duas vezes até se encontrar com o cara que Vic estava cuidando. Eles realmente se parecem, percebo quando saem pela porta lado a lado.

Estou hipnotizada, olhando não para a porta, mas para quem acabou de passar por ela.

Victoria para do meu lado e me traz de volta a realidade.

— Tudo bem?

Eu crispo a testa, sorrio fraco e assinto.

— Tudo... tudo bem.

Ela assente.

— É cada uma, não é? É cada história de vida que nos deparamos!

Ela ri, eu franzo a testa, confusa.

— Não entendi. Como assim?

— Pai e filho quebram um ao outro e saem do hospital como dois bons amigos. Isso não é hilário?

— Está se referindo...

— Aos nossos pacientes. — ela me corta. — O senhor Oliver meio que me contou tudo. Eles se desentenderam e por pouco não se mataram. Mas ele disse que isso é normal entre eles.

Vic gargalha fraco, mas eu fico boquiaberta.

— Também fiquei espantada. Agora quando os vi saindo, apenas gargalhei. É cada uma...

— É...

Eu finalmente fecho a boca.

Balanço a cabeça e Vic ri de mim.

— Você já vai? — ela ainda está com um meio sorriso.

Rolo os olhos.

— Vou esperar o Evan. Ele vem me buscar hoje.

Victoria abre um sorriso malicioso nos lábios.

Eu fico corada.

— Você é tão sortuda, Lexie.

— Por quê?

Realmente fico curiosa. Por que sou tão sortuda aos seus olhos?

— Ah, você sabe... — ela solta os cabelos dourados. — Nem todo mundo tem a sorte de encontrar o grande amor da sua vida tão jovem assim.

Vic parece pensativa. Ela ri, em seguida.

— Mas, você, Lexie Sant, teve. E eu a invejo por isso.

Faço uma leve careta.

— Você também vai encontrar. — eu asseguro. — Se até eu encontrei, não é?

Victoria gargalha mais uma vez. É o que ela faz de melhor. Sorrir.

Depois, ela sai andando e eu fico ali. Pensando se sou mesmo sortuda. Pensando além disso. Pensando em...

Pego a ficha que está no leito do homem que cuidei.

— Stephan Oliver. — digo em voz alta, na medida que um sorriso involuntário surge em meus lábios. — Então é esse o seu nome... — pondero.

Mordo os lábios e fecho os olhos. Sinto duas mãos segurarem firme minha cintura, abro um sorriso largo, me viro e é ele...

— Evan?! — digo, surpresa.

Meu namorado me beija os lábios me tomando despreparada. Arregalo os olhos e sorrio.

— Sim, eu. Sua mãe me intimou a vir te buscar. Disse para eu te levar de qualquer jeito.

Solto uma risada baixa.

— Mamãe...

Ele ri.

— Meu Deus, você está...

Evan diz, e eu fecho os olhos, suspirando fundo.

— Eu sei. Estou horrível. Mas não dormi, então é aceitável....

Ele me interrompe, beijando meus lábios.

Crispo a testa.

— Eu ia dizer que você está sexy. Linda também, mas isso eu nem preciso dizer...

Sorrio sem mostrar os dentes.

— Mentiroso.

— Não, não. Sou verdadeiro. Você é linda de qualquer jeito, Lex.

— Continuo te achando um grande mentiroso.

Evans ri.

— Certo. Podemos ir?

— Sim. Vou pegar minhas coisas e nós vamos, tudo bem?

Ele balança a cabeça, faz uma leve careta e acaba me fazendo rir.

— Você não pede, minha senhora. Você manda.

Evan entrelaça suas mãos às minhas e saímos para buscar minhas coisas.

Olho para trás e ainda posso vislumbrar aquele homem perfeitamente alto saindo pela porta e olhando em minha direção.

Balanço a cabeça.

O que está acontecendo comigo?

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