Capítulo 1

Sexta-feira

Dia de animação para adultos exaustos e adolescentes inconsequêntes. Era o início de compensação do estresse que os dias úteis da semana proporcionavam.

Meu entusiasmo ficava explícito em tudo o que fazia, motivado pela autorização que meus pais me tinham dado para que fosse a tão esperada festa do mês, alusiva ao soprar do vento. 

Na aula de filosofia, vários pensamentos me tiravam a concentração, dentre os quais se destacava a promessa que Weben, meu namorado, me tinha feito. Sussurou no meu ouvido palavras de arrepiar o corpo e de torturar de ansiedade. Se tinha como, eu não sabia. Mas eu não resistia a voz daquela relíquia da estética. Seu sorriso enfeitava suas palavras tão cheias de segundas intenções e fazia com que a curiosidade me pipocasse pelo corpo todo de tal forma que me esgotavam as possíveis ilustrações da "noite inesquecível". Palavras ditas por ele eram música na minha mente, fazendo com que brotassem sorrisos bobos nos meus lábios frequentemente.

Weben era um rapaz de pele do mais claro dos chocolates e olhos cor-de-café. Tinha o rosto angular e detalhado; o maxilar quadrado e trincado; lábios carnudos e levemente rosados. Era alto e másculo, extrutura visivelmente herdada de seu pai. Entoava as palavras com voz que só ele possuía e para completar a perdição, tinha duas covinhas e uma fileira perfeita de dentes que formavam um sorriso lindo de doer. Podia-se afirmar com convicção que foi desenhado sem pressa nem pressão. Era um moço de lábia, que falava sempre algo que me arrepiava o útero e sabia exactamente como deixar minha pele negra com tom ruborizado.

— Evie! — o grito da minha professora me arrancou dos meus pensamentos com susto — Está em condições de responder a pergunta dele? — referiu-se a um colega em pé na minha frente.

— Pode repetir? — cutuquei seu cotovelo.

— É bom que prestes mais atenção caso queiras continuar a assistir as minhas aulas. — ganhou minha atenção novamente. Coloquei meus óculos no lugar com o indicador — Estamos entendidas?

— Sim, professora. — limpei minha garganta e me endireitei na cadeira enquanto a observava andar de volta para o quadro, explicando algo sobre definição de conceito ou conceito de definição. Sei lá...

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Como era de costume, depois das aulas eu caminhava de volta para casa na companhia de Cleyton e Tânia, meus amigos desde o ensino primário.

Não tinha contado para eles sobre a "conversa" que tive com Weben, por isso que no lugar de conversar, eu andava sempre aérea e com dentes cravados nos lábios para minimizar cada sorriso bobo que eu dava. 

— Como vai o teu namoro? — Cleyton cortou minhas asas e me trouxe de volta ao solo.

Olhei para os dois, que aguardavam por uma resposta, e soltei um suspiro. Não estava nos meus planos contar para eles sobre a festa, mas eu realmente precisava falar para alguém, pois minha falta de experiência me remetia a aquela situação. Precisava ouvir deles como achavam que as coisas seriam.

— Posso vos contar algo? — perguntei e segurei um sorriso quando limpava as lentes dos meus óculos com a borda da camisa.

— Claro! — Cleyton.

— Oque vai aprontar desta vez? — perguntou Tânia. 

Ela tinha um detector de merda incrível. Talvez fosse pela experiência própria.

— Bem, eu vou para uma festa hoje anoite. É uma festa para maiores de dezoito, então já devem ter uma noção do tipo de ambiente ao qual me refiro. — recebi olhares atentos das duas partes e ri de suas reações — Acalmem-se! Eu tenho permissão para ir...— revirei os olhos e prossegui — ...porém, meus pais não sabem desse detalhe. Mas eu vou com o Weben e parece que vai...sei lá...vocês sabem...

— Rolar sexo! — Cleyton completou impaciente.

— Um momento! Quando disse "mas vou com Weben", era para tentar justificar o facto de teres mentido para teus pais e fazer parecer que as coisas melhoraram? — Tânia arqueou sua sobrancelha com seu olhar fixo em seus pés.

— Sim, não e talvez. — distribuí respostas para os dois com a voz 3 vezes mais fina. Coloquei minhas mãos no rosto, deixando explícita minha vergonha. — O que vocês acham?

— Vai fazer porque está pronta ou porque estamos a lidar com um insistente? 

Paramos no meio da rua e os dois me olharam, aguardando impacientes por uma resposta que satisfizesse a pergunta de Tânia.

— Eu não sei. — na verdade eu sabia sim — Eu quero, mas sei lá...

— Evie, se te sentes pronta, faça. Só não faça isso por pressão. Faça porque realmente quer. O único conselho que te dou é que te protejas de todas as formas possíveis. — disse Cleyton.

— Com "todas as formas possíveis", ele quer dizer usar preservativo, etc. — Tânia me olhou séria e continuou — Ou simplesmente seguir meu exemplo e não fazer. — sua forma de ser era irritante, as vezes.

Cleyton recebeu meu olhar inseguro e receoso.

— É Tânia. Ignora. 

Apenas suspirei e segurei as mãos dos dois como forma de incentivá-los a andar novamente.

__________|→♥←|__________

Eram dezassete horas e alguns minutos e eu não achava nenhuma peça de roupa que combinasse com a ocasião. Minha primeira festa noturna e estava de frente para uma cama repleta de roupas desorganizadas e espalhadas, tentando fazer combinações absurdas, mas nenhuma me parecia perfeita.

Era engraçado, pois eu tentava achar algo "ousado" num monte de roupas de uma menina de apenas 16 anos.

Apesar da idade, podia-se dizer que eu estava bem mais  evoluída que o normal: seios redondos e normais, cintura fina e um quadril levemente largo. A bunda não era lá grande coisa, mas diziam para me conformar. O corpo extruturado de uma mulher surgia aos poucos. Mais alguns anos e eu estaria exactamente como minha mãe: com curvas perigosamente capotáveis.

Depois de tanto esforço, finalmente me apareceu a roupa ideal na mente. Nada digno de muita atenção, mas era bem bonito, simples e encaixaria em qualquer ocasião. Optei por um vestido cinzento de pano, todo solto, que ia até acima dos meus joelhos e um par de sandálias pretas. Como não era chegada à maquiagem, passei meu Labello de cereja nos lábios e caprichei no cheiro de vanilla—Hidratar devidamente minha pele, me fazer cheirosa e arrumada sempre, viraram meu vício desde o início da minha menstruação.

Meu cabelo crespo estava solto e enfeitado por três ganchos de três diferentes tons de cinza. Por fim meus óculos, aquelas esferas enormes e redondas combinavam com tudo o que fosse roupa.

Quando me senti pronta, rodopiei sobre meus pés perante o espelho e suspirei de satisfação.

— Perfeita! — disse e sorri largamente para meu reflexo.

Combinei de me encontrar com Weben no fim da minha rua. Como certamente estaria de carro, não queria correr riscos de ser vista por algum dos meus tão sossegados vizinhos.

Pendurei minha camisola de algodão no ombro, mandei um beijo para meu reflexo e saí do meu quarto em direção a sala, onde estava minha mãe, meu irmão mais novo e meu pai, que enrugou sua testa assim que me viu.

— Não sente frio? — perguntou com um ar que me devia intimidar, mas não o fez.

— Não, mas levei uma camisola. Não precisa se preocupar. — sorri e dirigi minhas palavras a todos eles — Já vou!

Minha mãe me analisou como se eu fosse a coisa mais linda que existia e a secção de avisos, alertas e lembretes iniciou:

— Juízo e tomem muito cuidado! Não esqueça de mandar mensagem quando chegar.

— Te quero em casa na hora que combinamos, sem atrasos! — meu pai disse sem tirar os olhos da TV.

— Fique sempre perto de Cleyton e Tânia! Quando estiverem de volta, me liga. — o semblante sério se fez notável em seu rosto.

E sobre o "fique sempre perto de Cleyton e Tânia"...bem, não faz mal mentir só algumas vezes...

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