Annelise

O meu novo chefe saiu mais cedo do trabalho para um compromisso. Eu consegui sair às oito, depois de remarcar reuniões e responder alguns e-mails e organizar documentos. O cara era uma máquina!  Em menos de uma semana, tinha conseguido trazer uma conta super importante para a empresa. Susan estava certa. Abby também. Se eu conseguisse superar as outras secretárias, iria garantir o emprego. Aturar Chase não era tão difícil, apesar de ser bastante irritante de vez em quando. 

Quando cheguei em casa, pedi uma pizza e Brad apareceu, pedindo para usar o banheiro. Eu disse que não tinha problema. Cinco minutos depois, ele saiu enrolado numa toalha e eu olhei sua bunda sob o tecido. Até que não era tão mal… ele agradeceu e foi embora. 

O cara com quem eu bati papo ontem, o Sr. Bolas Azuis, mandou uma mensagem: 

Sr. Bolas Azuis: Como foi o dia? 

Eu achei estranho ele perguntar isso. Fiquei pensando nele o resto da noite, quando me enviou a primeira mensagem e batemos papo, mas agora não nos provocamos. Ele estava sendo amigável, e eu respondi: 

A: Bom, apesar de que estou com fome e o entregador de pizza ainda não chegou. 

Conferi o relógio e percebi que era quase nove horas. Revirei os olhos e meu estômago reclamou, faminto. Eu estirei as pernas, descansando-as sobre o puff amarelo. 

Sr. Bolas Azuis: Que pena… pensar em você com fome me deixa mal. O que posso fazer? 

Juntei as sobrancelhas. Ele disse aquilo como se estivesse a meu lado. Mexi os dedinhos dos pés e dei de ombros: 

A: A menos que me alimente e pague um spa, nada. 

Sr. Bolas Azuis: :(  Isso é realmente muito ruim, sabia? Eu não conheço você, mas se conhecesse, diria que está mentindo. 

Pisquei algumas vezes antes de juntar palavras e formar uma frase, mas então, apaguei. A tecla "delete" do notebook afundou e as palavras desapareceram do espaço do chat. Eu escrevi novamente, mas antes de apertar "enviar", outra mensagem explodiu na tela. 

Sr. Bolas Azuis: O que você deseja, A.? 

O que eu desejo? 

Era uma pergunta complexa, no final das contas, porque envolvia muitas coisas. Antes de eu poder responder, fui interrompida. A porta da frente abriu e eu arregalei os olhos e fechei o notebook num baque alto. O tirei de cima da almofada rosa e o coloquei do meu lado, como se estivesse escondendo uma cena de crime. 

Abby entrou, carregando sacolas volumosas. 

— O que está fazendo aqui? — Perguntou ela, aparentemente surpresa por eu estar no meu próprio apartamento. Eu franzi a testa e dei de ombros. — Queria fazer uma surpresa. — A voz tristonha arranhou a garganta. Ela baixou a cabeça e andou direto para a cozinha. 

— Saí mais cedo do trabalho. O sr. Ward teve que sair mais cedo por causa de um compromisso. Ele meio que foi legal comigo hoje… parecia estar de bom humor — levantei e olhei para ela por cima do ombro. Ela depositou as sacolas sobre a bancada. — E eu pedi pizza. 

Ela rosnou. Literalmente. 

— Você fugiu de mim ontem, então pensei em invadir seu apartamento e fazer uma surpresa. Não pensei que iria estar em casa tão cedo. — Me dirigi à cozinha. — O Mike disse que Madeleine está melhor, embora continue na mesma. 

O Mike trabalhava como voluntário de vez em quando na Doce Lar, uma casa de repouso na qual Madeleine, nossa tia, está. Eu pedi a ele para não  falar com Abby sobre ela, mas parece que Mike não entendeu exatamente o que quis dizer com ficar calado. 

Eu reparei no vestido azul que envolvia o corpo dela. Estava sexy. O cabelo estava solto. 

— Está bonita… alguma coisa especial? Não me diga que se arrumou toda para vir me ver, Abby. — Ela deu de ombros, sem se importar. Me aproximei. 

Quando se tratava de Abby Hamilton, eu era especialista. Ela até poderia fingir estar forte o tempo todo, mas a verdade é que era um ser humano igual a todo mundo. Abby tirou os ingredientes de dentro da sacola, e quando me sentei sobre o balcão espalmando as mãos, ela levantou os olhos e notei lágrimas brotando. No fundo, nós éramos idênticas. Abby Hamilton só me procurava quando estava no fundo do poço. Se ela era a sensata, eu deveria ser a expert em problemas amorosos. Em toda a minha vida, namorei apenas três caras: Josh; um cara que conheci no metrô, David; o barman que me deu bebidas grátis por um mês e Jessie; o guitarrista sexy, com quem esqueci minha carteira — essa é uma longa história. Todos eles pareciam acabar pelo mesmo motivo: eles não queriam nada sério. 

— O que foi? — pulei de volta para o chão, contornei a mesa e me coloquei do lado dela. — Abby? 

Ela olhou para mim e não se segurou. Explodiu em lágrimas. Abby me abraçou com força e murmurou baixinho: 

— Acho que o  Mike está me traindo. 

Todo o seu corpo retesou, e eu a confortei, passando os braços ao seu redor e dando  batidinhas nas costas. As lágrimas molharam meu ombro, no qual chorava. Eu a levei para o sofá e sentei primeiro, ela depois, apoiando a cabeça no meu colo. Afaguei seus cabelos louros. 

— Ele está agindo de forma estranha. Chega tarde em casa, foge todas as vezes que tento conversar, não… não me toca mais. — Seus olhos procuraram os meus, notei um brilho errático de tristeza. — Eu não sei o que faço, Anne. — Confessou. 

Abby era decidida e sempre sabia o que fazer. Não importava a situação, sempre arrumava um jeito de resolver. Mas quando conheceu Mike, tornou-se menos atrevida e independente. Engravidou três meses depois do casamento, saiu do emprego para cuidar de Maryah e quando eu perguntava se precisava de ajuda, fugia, dizendo que dava conta. Eu tinha medo de que ela perdesse a espontaneidade que sempre se gabava de ter. Não que eu odiasse Mike, mas por causa dele, Abby praticamente esqueceu de quem é. Ela costumava ser aventureira, gostava de desafios e eu a  admirava. Ela é perfeita, tem uma vida perfeita, mas a sua sensatez também é um empecilho. 

— Você sabe que pode contar comigo, não é? Eu sempre vou estar aqui. Independentemente do que aconteça. — Garanti. Pela primeira vez desde que passou pela porta, um sorriso desenhou seu rosto. 

Ela secou as lágrimas e se sentou, pousando a mão no meu joelho e apertando-o de leve. Eu sorri. 

— Hoje é o nosso aniversário. Ele disse que ia ficar preso no trabalho, porque aparentemente seu chefe o obrigou a cobrir um plantão. O outro enfermeiro se demitiu. O que me deixou furiosa foi que ele nem lembrou que hoje é o nosso aniversário — a voz embargada soou dolorosamente rouca. 

Era ruim vê-la assim, principalmente porque estava acostumada com a Abby inatingível de sempre. Os irmãos mais velhos têm um filtro mágico que os priva de contar tudo o que há errado em suas vidas, como se isso fosse amenizar a verdade. Eu me perguntava, todas as vezes que a via, se o sorriso que ostentava era falso ou forçado. A verdade? Carregar um fardo maior do que o suportável era uma condenação. Havia cinco anos que Mike e Abby se casaram, e eu percebia que a magia do romance diminuía a cada ano. Eu nunca disse nada, porque não queria ser interpretada de maneira equivocada, mas Mike não a tratava como deveria. 

— Eu acho que você deveria conversar com ele. Você deveria saber por qual motivo ele está fugindo e entender a situação em que estão. Talvez possa ser difícil resolver, afinal vocês já se acomodaram um com o outro. É normal esquecer a empolgação do amor, mas também não é justificável — eu disse, encarando seus olhos. Ela assentiu. Abby parecia cansada. Eu a abracei e continuei: — vai dar tudo certo, maninha. 

Ela sorriu. 

Meu coração foi preenchido por uma espécie de alívio. Era bom perceber que ela era alcançável, de vez em quando. Eu lembrava de quando éramos crianças e amávamos armar uma barraca no quintal. Nós nos aconhegávamos lá dentro e costumávamos passar a noite lendo, à luz de lanterna e estrelas. Era o único momento não assombrado por complicações. A separação do papai e da mamãe, o acidente que os matou, a chegada da nossa tia Madeleine. Depois da morte do papai e da mamãe, Abby nunca foi a mesma, mas sempre guardava o brilho no olhar. Eu não queria, de jeito nenhum, que ela se esquecesse que ainda o possuía. 

Abby levantou, voltou à cozinha e preparou um jantar. Eu cancelei o pedido da pizza. Conversamos sobre as meninas e eu contei como o vizinho tinha uma bunda maravilhosa. Ela gargalhou. Depois que terminamos, a babá ligou para ela e Abby saiu apressada. Eu corri até o sofá, peguei o notebook e vi que havia chegado mais uma mensagem do Sr. Bolas Azuis. 

Sr. Bolas Azuis: Está me ignorando? 

Eu sorri e respondi: 

A: Não. Minha irmã apareceu. Ela estava mal. 

Ele respondeu quase que instantaneamente: 

Sr. Bolas Azuis: Sinto muito. 

A: Obrigada. 

Nosso papo durou meia hora. Contei que adorava o inverno, porque adorava usar cachecóis e comprar almofadas coloridas para a minha coleção — o meu maior segredo desde o ensino médio. Ele se surpreendeu quando eu revelei que colecionava almofadas, mas logo reverteu isso, perguntando se eu as utilizava para outra coisa além de juntar poeira. Ligeiramente pervertido… 

Sr. Bolas Azuis: Acho que estou encrencado. 

A: Por quê? 

Sr. Bolas Azuis: Estou gostando de uma garota que nem conheço e que coleciona almofadas. 

Eu ri maliciosamente. 

A: Você ainda não viu nada. 

Sr. Bolas Azuis: Mal posso esperar, então! 

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