3

 Seus passos pelo extenso corredor eram calmos, lentos, não se importando de estar fazendo o caminho sozinha. Estavam todos no refeitório, ela sabia, e como sempre, em sua mania de fazer anotações extras, estava alguns minutos atrasada. Provavelmente Cassandra despejaria um monte de lamúrias sobre sua dedicação exagerada as sandices que o professor, de fato um pouco biruta, de filosofia falava. Um leve sorriso desenhou-se nos lábios da Steawart com o pensamento, mas este logo foi cortado pelo suspiro que lhe escapou.

Algumas semanas haviam passado; semanas em que para ela ora o tempo corria rápido, outras tão lento que a fazia sentir-se sufocar. Mas a verdade, e no fundo ela sabia disso, era que o tempo simplesmente passava; rápido ou lento só dependia da situação que estava vivendo no momento, e com a pessoa que a estava vivendo. Um exemplo de quando as horas pareciam não passar era quando, tarde da noite, estava deitada em sua cama depois de mais um dia, pensando que a qualquer momento a porta de seu quarto seria posta a baixo e por ela passariam policiais, prontos para lhe tirarem a irmã que dormia tranqüila na pequena cama ao lado da sua, recém comprada. E logo atrás destes policias surgiria David Deeper, com aquele mesmo brilho distorcido no olhar, quase como se sorrisse pelos olhos vingativos. Era em momentos como este, quando estava com esse tipo de pensamento, preocupação na mente, que o tempo parecia não passar, que os ponteiros do relógio na pequena mesa de cabeceira pareciam não se mover. Era nesses momentos que o tempo parecia parar, e ela sentia um medo crescente dominar cada célula de seu corpo. A hipótese de perder a irmã era tão aterrorizadora que apenas o pensamento disso era capaz de fazer seu coração acelerar rápido em desespero em pouquíssimos segundos. E o pior de tudo, era saber que essa hipótese não podia ser descartada.

David. O motivo central de sua aflição, de seu medo em perder a irmã, havia sumido. Puf. A última vez que o tinha visto, fora no dia em tudo veio abaixo para o jovem Deeper, no refeitório, onde não somente David havia recebido uns socos de Ian, como também uma declaração seguida de um adeus de Lisandra. Depois disso ele simplesmente desapareceu, não dando as caras na escola desde então, o que estava colocando Vincent em situações tensas com o irmão que, como diretor, tinha de se fazer presente diante do sumiço, muito embora Valério conhecesse bem David para ter uma leve idéia do que se passava. Porém, nenhuma atitude de sua parte podia ser tomada senão comunicar a família do desaparecimento de David da escola. Família. Quando Alana perguntou a Ian sobre a família do Deeper, se esta não estaria procurando por ele, Ian riu secamente, alegando que, enquanto David não se metesse em nenhuma confusão que o levasse a policia e conseqüentemente a ligar para o advogado de sua família, esta nem notaria, se importaria com sua ausência, ainda que fossem avisados dela.

A Steawart respirou fundo, inalando uma grande quantidade de ar para dentro dos pulmões, na esperança de assim fazer com que suas mãos parassem de tremer devido ao pânico que lhe causava aquele tipo de pensamento. O pânico logo foi cortado, porém não por ter respirado fundo ou contado até dez, mas sim pelo sorriso dócil, intruso, que formou-se em seus lábios ao pensar que embora aquelas últimas semanas estivessem sendo das mais agonizantes pela falta de notícia do jovem Deeper que poderia querer vingança a qualquer momento, estavam também sendo semanas em que em alguns momentos era preenchida de alegria e paz. O irônico era que o motivo disso, a pessoa causadora de tanta alegria e paz, era a pessoa que mais lhe era capaz de tirar do sério e lhe fazer querer arrancar os fios de cabelo.

Norton, Ian Norton.

Ela sorriu, passando dois dedos pelos lábios de maneira distraída, como se pudesse sentir ali ainda o sabor da boca dele sob a sua. Exalou o ar com força, mal dando-se conta de que fechara os olhos por dois segundos, apenas para mergulhar nas lembranças dos lábios dele cobrindo os seus. A verdade era que, desde que estiveram nas montanhas – uma lembrança tão vivida em sua memória ainda, que Alana sentia como se tivesse acontecido a horas atrás e não pequenas semanas – já estavam acontecendo mais de um encontro entre os dois. Encontros. Alana se repreendeu mentalmente pelo uso da palavra em sua mente. Eles não tinham encontros, não mesmo e aquilo a incomodava mais do que ela admitiria. O que eles tinham eram momentos roubados, momentos em que ele, Norton Ian, o mais perfeito e imperfeito ser que Alana já botara os olhos, surgia de surpresa a sua frente ou suas costas com um de seus muitos sorrisos cínicos, e ainda assim sinceros. Ele era completamente imprevisível, Alana nunca podia saber quando ele aparecia ou se ele aparecia, e aquilo a deixava louca. Uma loucura facilmente contida quando ele simplesmente a puxava de maneira sorrateira e silenciosa para longe de todos, levando-a a primeira sala vazia, de qualquer lugar em que se encontrassem, fosse escola ou a empresa, para lhe tomar o fôlego num beijo sempre mais explosivo que o outro.

Não era encontros. Eram pequenos momentos roubados. Momentos em que o coração da pobre garota batia acelerado demais em seu peito, parecendo subir e descer no mesmo, quando seus olhos chocavam-se contra o azul celeste do dele, ou quando suas línguas dançavam uma dança que podia ser tanto lenta, quanto mais rápida, mas de um jeito ou de outro, completamente delirante e extasiante.

Alana suspirou pesadamente, deslizando as mãos pelos cabelos com uma ligeira agonia. Embora seu coração parecesse gritar de felicidade em cada momento que Ian roubava para os dois e cobria-lhe os lábios, mal lhe dando tempo para falar ou processar qualquer coisa, o órgão pulsante em seu peito também parecia querer gritar de raiva e dor quando esses momentos acabavam. A verdade era que ela, Alana, estava tão cansada quanto seu coração de momentos roubados. Não queria momentos roubados, escondidos de todos como se tivessem a fazer algo criminoso, queria... momentos. Momentos deles.

Balançou a cabeça negativamente, de repente, irritada. Não havia um “eles”. Havia apenas ela, ele, separados, porém por alguns curtos momentos juntos como ambos pareciam desejar. Encontros rápidos e secretos... Talvez nem tão secretos, levando-se em conta de que Cassandra sabia o que se passava, pois por muitas noites era em seus ouvidos que Alana despejava em palavras as sensações avassaladoras que a dominavam quando estava com Ian.

A Steawart mordeu o lábio inferior, a mente começando a vagar por um território perigoso e ainda pouco explorado. Era certo se sentir daquela maneira? Era certo sentir o que sentia cada vez que os lábios de Ian cobriam o seu, quando o olhar dele atravessava a multidão de alunos no refeitório buscando o dela e quando o encontrava um sorriso torto surgia no canto dos lábios dele? Era certo sentir o coração bater rápido no peito, acelerado, quase como se fosse uma bomba relógio prestes a explodir, sempre que ele surgia a sua frente, com um olhar tão profundo e misterioso, como se tentasse dizer algo por meio destes, antes de tomá-la pelas mãos e levá-la a qualquer lugar onde ficassem sozinhos? Ela não sabia. E isso a aterrorizava; a aterrorizava não ter controle de nada quando estava com ele, pois sim, Ian era completamente imprevisível e isso tanto a fascinava quanto a assustava.

Como podia ficar tão entregue a ele diante de um sorriso ou um olhar com segundas, terceiras e quartas intenções, sendo ele tão imprevisível como era? Não havia certezas com Ian. Havia sim aquele turbilhão de sentimentos e emoções que afloravam sem controle quando estavam a se beijar; mas não havia segurança, não havia... garantias. E pior de tudo era que, mesmo com todas as incertezas, dúvidas e inseguranças que sentia, Alana queria mais. Queria mais. Mais tempo, mais beijos, mais... Ian. Queria não recusá-lo, mas também ter a força para soltar da mão dele quando ele a quisesse levar sem que ninguém notasse para uma sala longe da vista de todos, como que o dizendo silenciosamente que se ele a quisesse beijar que fosse ali, na frente de todos; como Vincent e Cassandra a muito pouco tomaram coragem para fazer.

Seus dilemas e indagações foram fatalmente interrompidos quando, prestes a virar um corredor, Alana sentiu-se ser empurrada para dentro de uma sala de aula completamente vazia. Por um instante pensou ser Ian; ele tinha adquirido a mania de surpreendê-la daquela forma, empurrando-a para primeira sala vazia a frente para lhe tomar os lábios; porém essa idéia foi completamente descartada quando seus ombros foram empurrados com força e suas costas chocaram-se na parede fria com brutalidade. Ela prensou os lábios de dor. Ian não agia daquela forma, naquela brutalidade, e Alana soube disso antes mesmo de abrir os olhos, porém quando os fez desejou não os tê-lo aberto. Todo o sangue que corria em suas veias pareceu congelar, e por alguns segundo seu coração parou de bater para logo em seguida bater em completo desespero e pânico.

A sua frente estava ele, David Deeper. Os mesmos olhos frios e arrogantes, naquela cor esverdeada. Porém, ele estava diferente. Físicamente diferente. Parecia mais... magro, mais frágil. Doente. E parecia precisar urgentemente de um banho também. Suas roupas estavam amarrotadas, seus cabelos desgrenhados pareciam implorar por água, e seus olhos estavam levemente avermelhados e muito fundos, como se a muito ele não dormisse. Mais magro, mais pálido, e estava com olheiras tão profundas que por um segundo Alana se esqueceu do pânico que se alastrava por seu corpo para sentir pena dele.

— Você arruinou a minha vida. Pensou mesmo que eu tinha me esquecido de você? — a voz dele, sempre tão séria e monótona, estava tomado por deboche. Mas não era um deboche como o de Ian, o de Ian era um deboche cínico, certas vezes ofensivo. O de David era pior. Era um deboche totalmente maquiavélico, que fez com que a imagem de policiais levando Eva embora, novamente se alastra-se pela mente de Alana.

Ela engoliu em seco, temerosa demais para pensar em responder, falar algo. O que falaria? Mesmo que soubesse o que dizer não havia como, as palavras ficariam entaladas em sua garganta, ela sabia.

— Está assustada? — ele sorriu, um sorriso que fez o estômago de Alana embrulhar-se em pânico. — Isso é ótimo. Devia mesmo ficar assustada, afinal, não conseguiu manter a boca fechada. Porque você não conseguiu manter a boca fechada? Seria tão mais fácil para você manter a sua maldita boca fechada.

Suas palavras finais estavam dominadas pela raiva e fúria o que só fez com que o pânico crescesse ainda mais em Alana. Ela tentou se afastar, tentou afastá-lo... Nenhum dos dois teve o efeito desejado; David a empurrou de volta contra a parede, não se importando com a força que usara, fazendo Alana mais uma vez prensar os lábios com a dor que lhe atingiu nas costas.

Ela pensou em gritar e iria, porém, quando seus olhos já estavam muito cheios de lágrimas enfim tomaram um pouco de coragem e focaram-se nos olhos verdes rasos de David, Alana sentiu um leve baque interno. Ela se deu conta de que, por mais que parecesse o contrário, por mais que parecesse que ela precisava de ajuda, a realidade era que quem precisava de ajuda era ele. David.

De repente tudo fez sentindo para a Steawart, que até então cega pelo pânico, não havia juntado os fatos. O sumiço dele, o estado no qual ele se encontrava naquele momento... David estivera se drogando. Não parecia estar sob o efeito das drogas naquele momento, talvez apenas de álcool como era reconhecível o cheiro vindo de seu bafo e roupa, porém era claro que ele havia estado se drogando. Sua aparência frágil denunciava isso.

— Você... Você precisa de ajuda. — com certa dificuldade Alana conseguiu dizer. Ela lembrou-se do que Ian havia lhe falado nas montanhas. Não que David não tivesse culpa, mas era o vício. Alana entendia bem aquilo, seu pai não era viciado em drogas, mas sim em jogos. Ela via o quanto era difícil para o pai lutar contra o vício, tanto que, por diversas vezes teve várias recaídas até chegar no tão extremo da coisa que as deixou. Ela não queria o mesmo para David. Não por ele, mas por Lisandra, por Ian, e até mesmo por Vincent.

Ian e Vincent, por mais que conseguissem manter bem a postura perante todos, a altivez, era apenas ouvirem a menção do nome “David” que seus olhos já vasculhavam o salão, afoitos por qualquer noticia vinda de qualquer um. Eles estavam se esforçando muito para encontrá-lo, sozinhos, sem ajuda. Alana havia perguntado o porquê daquilo; Ian não respondeu, porém depois a resposta se fez bem óbvia. Era por quem eles eram. Se David fosse um David qualquer, e não David Deeper, filho de um grande político, talvez recorrer a policia fosse o mais o certo. No entanto, trazer a policia, traria jornalistas cedo ou tarde, e isso só pioraria a situação. Malditos ricos e seu mundo de aparências, a Steawart pensou com fúria, em seguida lembrando-se de Lisandra.

Lisandra. Era tão nítido o que ela estava fazendo. Fingindo que não se importava, fingindo que não espichava os olhos toda vez que Vincent ou Ian saiam ao telefone em busca de noticias de David; ou que não dava um pequeno passo a frente, antes de recuar o mesmo, quando ouvia de um dos dois dizer que ia sair para procurá-lo, uma vez mais. A devastação da Sheroman era tão óbvia quanto sua tentativa de escondê-la.

— Eu preciso de ajuda? — David repetiu, e Alana viu ali um misto de deboche com desespero profundo. Como se ao mesmo tempo em que gritasse para soltarem de suas mãos e o deixassem cair, o salvassem daquele abismo profundo no qual se afundava cada vez mais. — É você quem precisa de ajuda. Você e sua pequena irmãzinha.

Novamente o pânico. Novamente o medo de perder a irmã. Novamente imagens que sua imaginação, sua mente aterrorizada com a possibilidade se fizeram nítidas na cabeça de Alana. Imagens onde Eva era arrancada de si, e aos prontos levada para um orfanato.

— Você não... Porque você... Eu só... me desculpe, eu não queria... Eu, quero dizer... Só... — ela tentava, inutilmente, buscar palavras. Meios para o fazer desistir de qualquer idéia que passasse por sua cabeça naquele instante, porém o medo de perder a irmã estava tão grande que a fazia incapaz até mesmo de processar com exatidão.

David riu falsamente, balançando a cabeça negativamente. De repente, ele franziu o cenho por um instante, sua expressão gélida, inquebrável, por um segundo foi tomada por uma careta de plena agonia, como se ele estivesse a sentir dor, mas logo foi embora e as mãos dele apertavam com ainda mais força cada qual um ombro de Alana, que espremeu os olhos cheios de lágrimas.

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