Quatro

Quando voltamos da rua, elas estão falando sobre a noite passada. Chego no exato momento em que falavam de Liam.

— O melhor da noite, foi o da Mad. — ergo a cabeça. — Ele pagou sessenta mil!

— Grande coisa.

— Ninguém paga sessenta mil, atoa. — Luna diz. — Mad tem algo de especial.

Sorrio.

— Af. Vocês puxam muito o saco dessa garota! — Cíntia exclama. — Ele deve ser retardado.

— Ele é maravilhoso.

— Eu sei quem ele é. — Carol murmura, comendo a batata em seu prato. —— Liam Evan White. Um baita empresário no ramo da música. Ele agencia uma banda teen.

Hm.

— Ele é casado? — Gabriella quis saber.

— Parece que não. Ele tem apenas vinte e cinco.

Se quiser saber alguma coisa sobre alguém que seja bastante famoso e viva na mídia, pergunte à Carolina. Ela conquistou com muito custo, a compra de um notebook. Uma garota de apenas dezenove anos, com seu sonho de poder entrar em uma faculdade e cursar jornalismo ou publicidade. Mas com a morte precoce dos seus pais, ela teve que se virar desde muito cedo. Arrumou alguns empregos de baixa renda, mas nunca conseguiu se dar bem. Até que ela bateu aqui na porta. Segundo ela, o trabalho aqui é só até ter dinheiro o suficiente para bancar sua faculdade e poder viver longe daqui. Ela é pequena. Tem lá seus um metro e cinquenta. Cabelos longos, na cor castanho claro. Tem olhos pequenos e castanhos. Um piercing no septo, e outro no smile. Ela era uma deusa.

— Como conseguiu saber tudo isso? — Cíntia questiona.

— Eu estava assistindo o leilão de longe. Ouvi aquele nome, o lance e fiquei curiosa.

— Ele vai voltar? Mad?

— Que? — ergo minha cabeça.

— Ele vai voltar?

— Sei lá.

— Pelo visto alguém não fez um bom trabalho. — Cíntia ri, e sua fiel cachorrinha, Margot, a acompanha.

— Não vou perder meu tempo com você.

— Não tem como rebater?

— Não quero te humilhar. — pisco para ela e me levanto.

Vou para a pequena cozinha e Julieta ergue o olhar.

— Já?

— É. — respondo, indo até a pia.

— Deixa que eu lavo, querida.

— Não se levante. — digo, já esfregando o prato que usei. — Isso aqui não é nada. Daqui a pouco você terá que lavar os pratos daquelas aproveitadoras.

— A ideia de Marta, não deu muito certo.

— E nunca dará! — exclamo, enxaguando o objeto em minhas mãos. — Se ela decidisse nos manter uma longe da outra, aí sim. Aí o convívio seria ótimo. Mas nos obrigando a ficar juntas, não.

— Se preocupe só com as meninas que você confia.

— Só a Gabi. — digo. — Carol, eu ainda não confio cem porcento. A vi de conversinha com a Cíntia outro dia. E para mim, ou é minha amiga, ou é da galinha loira.

Ela ri.

— Parecem que estão na escola.

Esse é um lugar que eu parei de frequentar muito cedo. Tento arrumar tempo para voltar aos estudos, mas eu nunca consigo.

— Juli, sabe como será a noite de hoje?

— Hoje é a noite do pôquer.

Aquela simples palavra, fez meu coração parar de bater por um instante. Tudo rodou. Precisei me apoiar na cadeira.

— Mad? Mad você está bem?

— Sim. Vou... vou lá para cima.

— Mad...

Afasto-me dela e corro para o meu quarto.

Eu tentava afastar aquelas imagens. Mas agora, mais que nunca, elas vinham com força. Principalmente a imagem DELA.

— Onde você está, Maddie? — a voz grossa e bêbada de papai, me assustava. — Venha aqui agora.

Tento controlar a minha respiração e abraço minhas pernas com mais força.

— ESTÁ NA HORA DO PÔQUER! — ele grita. — MINHA APOSTA TEM QUE ESTAR LÁ.

Meu corpo inteiro treme. Eu não quero isso hoje. Eu não quero isso nunca mais.

— Estou aqui, papai.

Tiff?

— Onde estava garota? — ele enrola as palavras.

— No banheiro... vamos para a sala? O senhor precisa jogar e ganhar.

— E se eu não ganhar...

— Eu já sei. — ela diz, suavemente.

O quarto fica silencioso por um tempo, até que ouço sua voz de novo.

— Fique aí Mad. — ela diz. — Essa noite eu serei você. Essa noite você está livre daqueles homens.

Soluço e arqueio o meu corpo. Pressiono minhas duas mãos em minha cabeça, com a intenção de afastar aquelas lembranças.

— AAAAAAAAH! — grito, me levantando em seguida.

Agarro no pequeno vaso que estava na janela e o acerto na porta do banheiro.

Essa era a pior parte dos meus dias. A hora em que as lembranças vinham e me sufocavam. A hora em que essas malditas lembranças, me faziam ser aquela pequena e inútil criança novamente.

— Mad? — Gabriella irrompe o quarto, ofegante. — Você está bem?

— Não!

Ela me olha por poucos segundos e sem mais nenhuma palavra, me abraça.

— Respira fundo. — sussurra. — Imagina comigo...

Então ela começa a sua atividade rotineira de me acalmar.

— Um campo vasto. Você sentada no meio dele. A sua volta tem diversas margaridas. Elas são tão perfumadas, amiga.

E eu imagino. Eu consigo me ver perfeitamente bem, no meio daquelas flores.

— Obrigada. — digo, apertando-a. — Você é a melhor coisa que me aconteceu.

— Que fofa. Vem, — ela se afasta e pega minha mão — vamos ver um filme.

— Mas Marta não deixa ligar a TV agora. É hora da arrumação do salão.

— Veremos no escritório dela. Sei que ela não negará.

[...]

— Isso aqui está apertado! — Gabriella resmunga, ajeitando o corpete.

— Nem fala.

Um garçom passa por nós e nos oferece dois copos com uísque.

— Os homens ali do bar, que pagaram.

— Até aqui eles pagam para gente. — Gabi comenta, se virando para vê-los. — Ih amiga, são velhos. Um é até feio.

Solto uma risada e me viro. Eu sabia que ela estava falando aquilo, mas que ria para os tais homens.

— Cadê? — pergunto, olhando para o bar.

— Ali. São aqueles de chapéu.

Aperto meus olhos um pouco e os encontro. O copo que estava em minha mão escorrega e encontra o chão no mesmo instante em que eu agarro o braço de Gabriella.

— O que foi? — pergunta. — Você está pálida, Maddie.

— É ele. — sussurro.

— Ele? Ele quem?

— O homem que me estuprou e matou minha irmã.

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