3 - Sensações

Entrei no meu apartamento as sete da noite, estava cansada, tinha dirigido por quatro horas seguidas, mesmo assim estava feliz, afinal tinha acabado de voltar do interior, da casa dos meus pais. Graças a Deus ambos estavam bem, dona Carmem e seu Valter tinham sim alguns probleminhas de saúde, mas nada que fosse preocupante, mesmo meu pai que tinha artrite estava vivendo bem. Assim como Camila, minha querida irmã caçula e seu lindo filho, Tiago, que tinha adorado a festa que a mãe preparara para o seu aniversário de três anos.

  Por isso eu sorri, mas ainda que estivesse bem, torci o nariz ao lembrar do meu novo paciente da clínica de ortopedia. Infelizmente eu tinha pensado nele com frequência durante o final de semana, mesmo ajudando minha irmã a preparar as coisas para a festa de Tiago, volta e meia me pegava pensando no rapaz. Ficava imaginando o que ele estaria fazendo, se estava com sua família, amigos, ou pior, namorada.

  Pior Carol? Por que?  Minha consciência me questionou de forma ácida e eu me encolhi de vergonha, afinal sabia que não era certo pensar tanto num paciente, a não ser é claro que estivesse tentando resolver algo relacionado ao caso, mas a verdade é que eu não pensava em Alexandre do ponto de vista terapêutico, mas sim de outras maneiras. Queria saber mais sobre sua vida, seus gostos, sua rotina. Enfim, eu estava pensando naquele jovem como homem e não como paciente. Isso me fez recordar a história de uma antiga colega de profissão que se apaixonou por um paciente e que infelizmente teve um fim trágico, pelo menos se levasse em conta a demissão da terapeuta por conta da sua paixão, porque nem ela nem o homem conseguiram inibir os sentimentos e desse modo acabaram se envolvendo causando um grande estardalhaço. Torci o nariz com o fato e para me tranquilizar eu falei em voz alta.

  - O fato de estar lembrando frequentemente desse rapaz não significa nada Carol, portanto não se preocupe e vá de uma vez por todas desfazer a mala.

***

 Na noite de segunda-feira recebi um convite. Fernanda, uma colega da turma de balé iria fazer um churrasco no próximo domingo e me chamou para ir. Eu estava mais desinibida após iniciar as aulas de dança e acho que por isso consegui conquistar a amizade dela, claro que Fernanda era uma pessoa simpática e descolada por natureza, e isso facilitou nosso entrosamento, então eu aceitei o convite e voltei para casa animada, mas mesmo feliz um pensamento recorrente teimava em voltar sempre que eu me via sozinha, e na sala do meu apartamento me peguei pensando em Alexandre.

  Nossa segunda sessão aconteceria na tarde seguinte e ao pensar nisso me senti ansiosa, meu coração disparou, acelerando minha respiração. Surpresa eu indaguei:

  - Mas o que é isso, meu Deus? Por que estou assim?

  Acalme-se Carol, inspire o ar profundamente e o expire devagar.

  Fechei os olhos para realizar a manobra e após alguns segundos estava melhor, meus batimentos cardíacos tinham desacelerado e eu não me sentia mais aflita. Abri os olhos, sacudi a cabeça e falei:

  - Que horror, devo estar ficando louca!

  Me levantei do sofá e fui para meu quarto para dormir.

***

  Eu estava tentando me concentrar no atendimento da simpática senhora de cabelos brancos a minha frente, mas não estava sendo fácil, afinal dali a alguns minutos ela iria embora para outro paciente entrar. Tentei não pensar em Alexandre Bastos, mas foi inútil, me peguei imaginando como ele estaria hoje, será que estaria tão bonito quanto na primeira sessão?

  Torci o nariz contrariada com o pensamento recorrente, voltei minha atenção a minha paciente, mas logo fui obrigada a dispensá-la, pois seu horário havia terminado. Eu a acompanhei até a recepção, nos despedimos e logo depois eu vi Alexandre. Estava sentando lendo uma revista, então eu aproveitei que não tinha me visto para me concentrar, afinal o jovem estava ali para ser atendido por mim e nada mais. Respirei fundo e finalmente falei seu nome.

  - Alexandre.

  O jovem desviou a atenção da revista e me encarou, sorriu e veio na minha direção. Beijou-me no rosto me deixando desconcertada, ainda assim consegui perguntar:

  - Como você está?

  - Bem, e você?

  - Estou bem, obrigada. Vamos para a sala?

  O chamei e ele me acompanhou, no entanto ao chegarmos fez questão que eu entrasse primeiro e só se sentou depois que eu já estava no meu lugar.

  Um típico cavalheiro. Pensei por instantes, mas logo ouvi.

  - Fiz a massagem e os exercícios que você passou. O inchaço diminuiu bastante.

  Ele comentou enquanto colocava a mão sobre a mesa e eu averiguei que o edema havia cedido consideravelmente.

  - Ótimo, isso significa que você terá uma boa recuperação. Talvez nem precise de dez sessões se continuar a fazer os exercícios em casa.

  Tive a impressão que ele torceu levemente o nariz, como se estivesse contrariado, então ouvi.

  - Mas o Vagner disse que eu tenho que fazer pelo menos as dez, e também estou com um pouco de dor aqui.

  Ele apontou para um ponto no punho, por isso esclareci.

  - Eu avisei que você poderia sentir dor nos primeiros dias devido aos exercícios. Você fez compressa com gelo conforme lhe orientei?

  - Fiz. Melhorou na hora, mas hoje de manhã voltou a doer.

  Novamente tive a impressão que ele estava aborrecido ou incomodado, não sei, de qualquer modo achei melhor dizer que se a dor piorasse ele poderia ser encaminhado a fisioterapia para fazer ultrassom, como meio analgésico, contudo, ao invés de me questionar mais sobre o recurso ele quis saber porque não poderia fazer o aparelho durante a TO. Expliquei que o ultrassom era de uso exclusivo dos fisioterapeutas, mas ainda assim Alexandre não pareceu satisfeito com minha fala, de qualquer modo prossegui com a sessão iniciando novamente pela massagem retrógrada para controle do edema.

  Senti o mesmo arrepio de prazer quando lhe fiz a massagem pela primeira vez e novamente pensei no quanto era inadequada essa sensação, por isso não o observei durante o procedimento, mas mesmo assim as vezes notava o olhar do jovem em mim, deveria me sentir incomodada com o fato, mas não fiquei, ao contrário, cheguei até a gostar, então ouvi.

  - Eu tenho que confessar uma coisa.

  Por algum motivo desconhecido meu coração disparou e eu tentei manter minha respiração sob controle.

  - O que é?

  - Eu não sabia que existia uma profissão como a sua. Depois de quinta fiquei curioso e fui pesquisar a respeito.

  Surpreendi-me com sua declaração, não por ele desconhecer a TO, afinal no Brasil a profissão ainda era pouco divulgada. O motivo da minha surpresa foi a sua curiosidade que o levou a pesquisar. O indaguei se ele tinha procurado na internet e após me confirmar que sim comentou sobre a criação do primeiro curso no Brasil e quis saber se era verdade que a faculdade havia surgido na década de cinquenta.

  - Sim, foi isso mesmo, só não me lembro se o primeiro curso foi na USP ou no Rio de Janeiro, afinal desde que terminei a graduação não estudei mais sobre a história da TO e isso já tem um bom tempo.

  - Você não deve ter terminado o curso há muito tempo, afinal quantos anos dura a faculdade?

  - Eu sou formada há dezesseis anos e o curso tem duração de quatro anos.

  Ele estreitou os olhos e após breves segundos falou:

  - Me desculpe perguntar, pois sei que muitas mulheres não gostam de falar a idade, mas quantos anos você tem?

  Sua curiosidade me divertiu, por isso respondi com outra pergunta.

  - Quantos anos você acha que tenho?

  - Talvez trinta ou trinta e um, não mais que isso.

  Ri da sua suposição ao mesmo tempo em que me sentia satisfeita por ele estar equivocado, então eu falei:

  - Meus trinta anos já ficaram para trás há quase uma década. Estou com trinta e nove.

  Ele arregalou os olhos antes de dizer:

  - UAU! Eu podia jurar que você era mais nova. Além de ter uma pele muito bonita, o seu jeito transmite jovialidade. Você está ótima!

  Seu elogio me deixou encabulada e senti minhas bochechas esquentarem, então voltei minha atenção ao trabalho.

  - Alexandre, vou te ensinar alguns exercícios novos. Se sentir dor na execução de algum me avise, está bem?

  - Claro, pode deixar.

  Passei uma série de exercícios de alongamento e alguns para aumentar a amplitude articular. Ele não apresentou dificuldades nem reclamou de dor durante a execução de nenhum e por isso continuou a conversar.

  - Você trabalha em mais alguma clínica?

  - Eu atendo num hospital público no período da manhã, mas lá os pacientes são neurológicos, por isso é totalmente diferente do que é aqui.

  - E como é exatamente seu trabalho lá?

  - Primeiro as sessões são em grupo, para atender um número maior de pessoas. Apenas uma vez na semana, alguns pacientes são atendidos individualmente, mas só quando é necessário treinar alguma AVD, quer dizer, alguma tarefa do cotidiano, como por exemplo vestir-se sozinho. É função da TO averiguar como a pessoa faz a atividade, se está com dificuldade devido à deficiência e o que pode ser feito para que o paciente realize a tarefa da maneira mais independente possível.

  - Puxa, isso parece muito interessante! E você aprende tudo isso na faculdade? Ou precisa se especializar? Aliás, onde você estudou?

  - Em São Carlos, na UFSCar.

  - Você é de lá?

  - Não, sou de Ribeirão Preto, mas quando passei no vestibular, me mudei para São Carlos.

  Alexandre quis saber mais sobre minha vida de estudante e eu relatei brevemente alguns fatos, até que olhei o relógio e disse:

  - Nossa! Estou fazendo hora extra com você.

  Ele também olhou o relógio e questionou.

  - A terapia não dura uma hora?

  - Não, a duração é de quarenta minutos.

  - Que pena, achei que ficaria aqui até as seis e vinte. Você tem paciente no próximo horário?

  - Não, você foi o último, e com certeza se tivesse o Bartô já estaria ligando para avisar.

  - Que bom! Assim podemos conversar mais um pouco.

  Fiquei tentada com a ideia, porque estava mesmo apreciando nossa conversa, porém achei inadequado e tentando não parecer rude eu expliquei.

  - Na verdade eu tenho que fazer alguns relatórios, então você precisa ir.

  - Claro, você tem que trabalhar. Eu estou sendo inconveniente, me desculpe.

  - Não precisa se desculpar. Às vezes eu perco a noção do tempo quando estou atendendo.

  Fui para a porta e aguardei Alexandre se aproximar, contudo ele permaneceu de pé perto do assento onde estava e perguntou:

  - Quer que eu guarde os materiais pra você?

  Agradeci, mas recusei, só então ele veio na minha direção e novamente se despediu com um beijo. Minha respiração acelerou, tentei controlá-la, torcendo para que o rapaz fosse logo embora, porém ele ficou perto de mim e por um momento achei que fosse dizer algo, isso não aconteceu e finalmente ele saiu.

  Voltei para minha cadeira, sentei-me e pensei que talvez não tivesse sido boa ideia fazer esse favor ao meu chefe, porque minha intuição me dizia que as coisas estavam caminhando de um modo nada convencional entre terapeuta e paciente.

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