5. Saudade

— Mainha? É tu que tá aí?

— Sou eu filha.

— Mainha, tenha vergonha. Isso é hora de tu chegar em casa?

— E isso é hora de tu tá acordada, Maria Flor? — perguntei eu segurando o riso.

— Mainha... Que frio da merda! — disse ela ignorando minha pergunta.

— Maria Flor Silva de Lima! Que boca suja é essa?

— Oxe, tu fala merda o tempo todo.

— Eu posso, você não! — respondi lembrando que essa era a pior forma de mostrar bom exemplo para minha filha.

— Tá bom mainha, não vou mais falar merda.

— Já pra cama!

Flor correu até a avó e se pendurou no pescoço dela, enchendo o rosto de minha mãe de beijos que ria e retribuía.

— Bença, voinha linda do meu coração!

— Deus te abençoe, minha filha. — disse ela dando mais beijos em Flor — Deus te faça feliz...

Eu não conseguia parar de rir diante da cena repleta de amor e fofura. Flor correu até a tia Margarida e fez o mesmo.

— Bença, titia linda do meu coração!

— Deus te abençoe, princesa!

Flor correu para o quarto e deixou a luz acesa como sempre fazia. Para que eu fosse apagar e dar-lhe um beijo de boa noite.

— Como foi hoje, minha filha? — minha mãe perguntou.

— Foi ótimo mainha, eu me saí muito bem. — disse eu lembrando que xinguei o gerente não uma mas várias vezes.

— Saiu até pra passear com os amigos novos. — disse minha tia sorrindo com satisfação.

Tia Margarida era dez anos mais nova que a minha mãe. Apesar da diferença de idade, as duas sempre foram muito unidas e muito amorosas comigo e com Flor. Minha mãe ajudou a criar a tia Margarida e agora era ela quem cuidava da minha mãe.

Minha tia nunca quis casar ou ter filhos. O sonho dela sempre foi vir a São Paulo e ser independente. Principalmente após testemunhar a irmã que sempre cuidou dela engravidar e ser abandonada pelo pai da criança. Essa criança, no caso, era eu. Que, a propósito, nunca soube quem era meu pai.

Ela havia feito um técnico de enfermagem na juventude. Agora cuidava de minha mãe durante o dia e trabalhava a noite. Essa foi a melhor forma que encontramos de sustentar a casa e não ter que pagar uma cuidadora.

Ela cuidava tanto da minha filha quanto da minha mãe durante o meu horário de trabalho e eu assumia o período noturno enquanto ela dava duro no hospital até raiar o dia.

Minha tia levava uma vida simples em uma casa com apenas dois quartos, um banheiro, sala e cozinha. Nós três chegamos para ocupar ainda mais espaço, mas minha tia parecia feliz porque estava com saudade da família.

— Algum namoradinho? — perguntou ela.

— Titia!...

— Você não tá morta, garota! — rebateu ela com as sobrancelhas franzidas.

— E nem podre — completou minha mãe — mas é melhor se dedicar ao trabalho. Deixe pra casar daqui há dez anos...

— Que casar que nada! — interrompeu minha tia — É só pra trepar e gozar muito.

— Mainhaaaaaa! — gritou Flor do quarto.

— Margarida! Isso lá é conselho que se dê pra menina. Tenha vergonha! — reclamou minha mãe.

— Ué, tô dando um bom conselho! Lis querida, namore bem muito e não esqueça de usar camisinha.

— Nada disso, minha filha! Trabalhe, namore e se case com um homem bom que cuide de tu e da tua filha. — corrigiu minha mãe.

— Sei não visse mainha, sei se tenho cabeça pra macho depois de tudo que passei com Fábio, não.

— Mainhaaaaaa! — Flor chamando de novo.

— Menina, eu já vou! Vá se ajeitando aí, vá!— berrei em resposta.

— Macho, se não for pra se divertir com o brinquedinho que vem nele de fábrica, não serve pra mais nada de útil. — disse minha tia rindo — E olha que nem sempre esse brinquedinho tá ligado! Fora isso, só serve pra dar dor de cabeça, querer lhe controlar e achar que é dono do mundo.

— Margarida, não desvirtua a menina! Isso lá é coisa que tu ensine?

— Rosa, a tua menina já é uma mulher feita. Sabe muito bem o que é sexo, a prova tá chamando lá do quarto.

Rindo e balançando a cabeça em negativa para aquela dupla tão destoante, beijei suas cabeças e me despedi indo em direção ao quarto que dividia com Flor.

— Mainha, conta uma história.

— Era uma vez... — cobri minha pequena com o edredom — Uma menina muito sem vergonha e toda espertinha que queria ouvir historinha toda noite antes de dormir...

— Sou eu! Essa é a minha história!

— Uma menina muito linda, com os olhos beeem grandes e o cabelo beeem cheio e beeem cacheado...

— Sou eu! Euzinha aqui! Eu ó! — disse ela estendendo o braço.

Comecei a dar risada. Todas as noites eu contava histórias semelhantes sobre ela mesma, mas sem dar nomes e todas as noites com a motivação de uma criança de seis anos ela sempre interrompia dizendo que era ela na história.

— Uma pretinha linda e charmosa igualzinha a mainha.

— Que se chama Maria Flor!

— Como tu sabe?

— Porque toda noite tu conta história de eu.

— De mim. — corrigi.

— De tu não, de eu.

Abracei-a puxando o corpinho pequeno e macio de encontro ao meu peito. Beijei o topo da cabeça que cheirava a camomila e falei:

— Fecha os olhos, filha. Vamos dormir.

— Mainha?

— Oi, meu amor...

— Quando eu vou ganhar meu cachorrinho fofinho?

— Já conversamos sobre isso, filha.

Todos os dias Flor me pedia um cachorro de presente. Já estava difícil manter as contas pagas e dar uma boa educação à minha filha. Incluir um novo integrante à família que exige passeios diários, atenção e cuidados especiais estava fora de cogitação. Eu adiava aquele pedido havia pelo menos dois anos.

Além de ajudar nas contas da casa, eu precisava pagar a escolinha de Flor. O que me fez aceitar esse emprego, apesar de ter que trabalhar de segunda a sábado, é que pelo menos eu teria os domingos de folga, receberia horas extras remuneradas, além das gorjetas. Meus dias seriam cheios...

— Mainha?

— Oi, meu amor...

— Eu tô com muita saudade de painho.

Imediatamente meus olhos encheram de lágrimas mas eu engoli o choro para não preocupar minha filha. A última coisa que eu precisava era da presença de Fábio na minha vida de novo.

Mal sabia eu que logo mais teria desejado manter minha filha com saudades do pai mas que ao menos estivesse ao meu lado.

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